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Sobre a Melhor Turnê da Minha Vida (Até Agora) by Pitty
01/08/2016, 7:48 pm
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Dizem que a gente nunca sabe dessas coisas até passar, olhar pra trás e reconhecer. Mas quer saber? Eu estava vivendo a melhor turnê da minha vida e sabia. Conseguia sentir a cada show, a cada cidade, completamente consciente do momento-presente. Viver no agora sempre foi uma dificuldade pra mim, ansiosa por natureza, sempre refletindo sobre falhas do passado para transformar isso em acertos no futuro.

Todas as turnês que fiz nesses anos de carreira tiveram seu valor, sua importância, por cada uma tenho apego e reconheço o que dali foi mola propulsora pra chegar até aqui. Mas essa turnê foi diferente, desde o começo. Eu vinha de uma ruptura artística, pessoal e emocional; depois de uma pausa necessária e com um disco debaixo do baixo que traduzia essa história de forma bem profunda. Minha cabeça também já estava diferente, o senso de responsabilidade e a consciência de que esse trabalho tem meu nome, sou eu que respondo por isso em tudo de bom e de ruim. As rédeas, que sempre foram minhas, tomá-las com ainda mais convicção. Delegar o que dá pra ser, estabelecer parcerias, mas sabendo que no final tem coisas que ninguém pode fazer por mim.

Queria botar esse show na estrada com tudo novo, diferente, combinando com esse novo estado de espírito interno e externo- na gravação, com a entrada de Guilherme no baixo, já foi um respiro e um sopro de motivação. Só astral, só contribuição. É como se uma âncora houvesse sido removida e agora a gente podia navegar. A entrada de Paulo quando fomos montar o show pro palco reafirmou e amplificou essa sensação. Podíamos navegar, flutuar e até voar.

Nesse show, queria explorar mais a coisa do audio-visual, intensificando um experimento que começou com Agridoce. Mas queria brincar com outra estética: se no Agridoce a pegada era mais artesanal, projeções em tecido com bastante textura, vídeos granulados como filmes antigos; nessa nova turnê eu já pensava numa linguagem mais contemporânea e digital. O meu VJ, Carlos Pedreañez, veio da metade da turnê do Agridoce e desenvolveu comigo essa nova ideia: um painel de led, com um conteúdo diferente para cada música, entrelaçados e contando essa história.
Eu sentia falta de um começo. Muitas vezes a gente toca em festivais, ou com outras bandas, ou em situações em que o público está disperso e a gente simplesmente entra no palco e PUM, sai tocando. Eu queria algo que se tornasse um ritual e que capturasse a atenção das pessoas pro palco, que trouxesse esse estado de alerta e a sensação de que algo iria começar. Como os três sinais no teatro, por exemplo. Senti que eu precisava de um vídeo de abertura, e foi daí que veio a ideia. Imaginei uma cabeça falante, um fundo preto, PB bem contrastado. Um texto que introduzisse o espetáculo que viria pela frente. Eu já tinha escrito um que usei no site para falar sobre o disco, e achei que ele também seria uma boa introdução ao novo show. Filmei com Carlito, ele adicionou umas distorções na hora do live e foi lindo de ver como essa ideia funcionou na estrada, se tornando nosso ritual de cada noite, trazendo para cada show da turnê a mesma concentração e sentimento. Foi lindo de ver como as pessoas entenderam e interagiram fisicamente com isso- eureka! funcionou!
Ainda na montagem da parte visual, pra somar e jogar junto com essas novas cenas propostas, veio o design de luz. Junto com o Olair Paulino, meu iluminador, desenvolvemos parte a parte de cada música; clima a clima. Mexemos em velhos conceitos arraigados: o que se usa em todo lugar é moving light, canhão, luz  marcadinha nos músicos, luz na cara do vocalista. Tem que ter luz no vocalista, como assim não vamos ver ab-so-lu-ta-men-te tudo? Pois acho essa ideia velha e chata. Nesse show, radicalizamos um caminho que já vinha acontecendo: a luz é inteiriça, uma bruma, misteriosa, recortada nos lugares certos.
O meu show é mais escurinho mesmo, de propósito. A ideia é que as pessoas mais sintam do que vejam.
Com o apoio da minha banda e equipe entramos de cabeça nessa coisa do menos é mais. Cenas monocromáticas. E muito, muito contra-luz- ah, como a teimosia às vezes faz bem.  O contra-luz mais radical do show, do especial de Máscara, foi batalhado e construído e testado. Hoje é um dos pedaços do show que tenho mais orgulho, porque sei que foi conquistado nesse esforço conjunto que é o trabalho em equipe.

Queria mudar a formação de palco também. É sempre tudo igual, os músicos no mesmo lugar, bateria no meio mais atrás, vocalista na frente, guitarra e baixo, um de cada lado. Propus uma nova formação com a bateria de lado, e depois de vários testes e ajustes com minha equipe técnica, chegamos num resultado satisfatório de som e estética.

Tava tudo pronto, era só cair na estrada.

Ah, a estrada… tantos shows memoráveis, tantas cidades. APR e a ciranda em Recife, a dobradinha em BH, tocar na rua em Curitiba, o show da UNE no Rio, os  Circo Voadores no Rio, Parque da Juventude em SP, show da 89, João Rock… Salvador, lindamente, mais vezes do que em qualquer outra turnê. O MADA em Natal, o calor humano e físico do Norte- Manaus, Belém, a casa quase caindo literalmente. O Opinas, em Porto Alegre, tantos amigos.
Shows esgotados, todo mundo cantando tudo, as músicas novas na ponta da língua. As pessoas, já mais maduras, mais em comunhão com a gente, tudo em comunhão. Que público! Que orgulho daquelas pessoas, tão diferentes entre si, tão misturadas. Gente em estado consciente. Isso é tão precioso…

Eu mal podia acreditar, era tudo muito bom. Até os perrengues, comuns da estrada, foram legais. Tanto amor pela minha banda, pela minha equipe; que prazer encontrá-los todo fim de semana, que delícia conviver com aquelas pessoas. Explorando culinárias locais, compartilhando achados musicais nos camarins antes dos shows, farreando depois deles no buzão a caminho do próximo lugar. Eu sempre voltava pra casa pensando: “que sorte eu tenho dessas pessoas terem cruzado meu caminho. Não vejo a hora de vê-los de novo”.

E assim fomos, dois anos de turnê. O melhor é saber que está tudo documentado; e agora, compartilhado com vocês em DVD. Na verdade, a vontade de fazer esse DVD veio daí: uma sensação de que isso tudo TINHA que ficar registrado. Que é um marco na minha vida pessoal e na carreira, e merecia um testemunho. Quero ver isso lá na frente e lembrar de como essa fase foi importante pra mim, de tudo que aconteceu para que essa turnê fosse do jeitinho que foi.

Tá na rua, tá no mundo, e é nosso: Turnê SETEVIDAS Ao Vivo- 2016- Show e Documentário.

Se ainda não viu, dá uma chegada lá na home do meu site e divirta-se   :))

 
* Menção honrosa a Daniel Ferro que reeditou o show de forma magistral e acrescentou coisas de pós que fizeram com que tudo ganhasse- literalmente- outra dimensão; e a Otavio Sousa que colou comigo na ideia maluca de “sai registrando depois a gente vê que filme tem na mão”, e disso fez um dos documentários mais legais de toda minha carreira.

E também a Lobatto e meus parceiros da Na Moral que trabalharam pra viabilizar essa tour na estrada. Levar essa estrutura e equipe completa pra show de rock no Brasil não é moleza não! Muitas horas pensando em logística, formas e meios para que o show tivesse a mesma qualidade padrão em todos os lugares, sem que isso se refletisse em ingressos exorbitantes 😉