prato_do_dia
Desdobramento by Pitty
18/08/2010, 12:00 am
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O post anterior sobre as rádios rendeu de um jeito bem legal. Eu não tinha nenhuma grande pretensão a não ser a de simplesmente falar sobre um assunto recorrente no dia a dia de quem gosta de música, e tentar entender como chegamos ao panorama atual.

Adorei os comentários de todos, obrigada. Adorei também o comentário das pessoas que trabalham em rádio nos trazendo uma visão interna da coisa; inclusive o do Marcos Vicca (Rádio Mix) que mostrou ser um cara aberto, atento e disponível para conversas desse tipo, além de um gentleman.
E todas as pessoas que escreveram sobre isso e publicaram nos próprios blogs, sites e afins.

Algumas bandas se envolveram na conversa, timidamente. Parece ser uma espécie de tabu; e o mundo anda tão estranho que debater um assunto e expôr opiniões tem sido confundido com ofensa ou reclamação. Não é o caso, o papo é construtivo. Não “reclamo” por mim; vez ou outra uma música minha cai no gosto popular e embora ela não tenha sido feita com esse objetivo em particular, temos ali nosso espacinho e isso traz bons frutos. Mas penso em tantas outras bandas que não têm a mesma sorte/oportunidade/condição.

É bom deixar claro que o texto anterior se refere à uma situação ampla. A Kiss FM e a 107,3 (ex-Brasil 2000) foram citadas e são rádios que adoro, mas o Brasil não é só São Paulo. Em outras emissoras país afora, existem alguns programas específicos que dão espaço a coisas diferentes. São pequenos nichos, e acho que merecemos mais.
 
A coisa toda é muito mais complexa e não sei se algum dia vai ser diferente, mas foi bom falar sobre isso de qualquer forma. Meu lado cético me diz que nada vai mudar, mas meu lado utópico grita que nunca custa, ao menos, tentar.



Radio Days by Pitty
09/08/2010, 12:00 am
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Uma curiosidade: alguém aí ainda escuta rádio? Elas tocam as músicas que você quer ouvir? Quantos já desistiram? Quem ainda acredita que é possível, ou mesmo necessário?

Enquanto artista, ainda acho necessário. Tenho consciência de que as rádios atingem pessoas que não têm o privilégio de ter um mp3 player, ou comprar Cd, ou de ouvir música na internet. Ou mesmo as pessoas que estão no táxi, na academia, no supermercado, no trânsito. Pessoas de diferentes camadas sociais,  em lugares distintos. É pensando em chegar nessa galera que ainda me preocupo com esse papo.

Isso surgiu porque ontem acordei com um barulho daqueles. Na internet e no twitter vi uma galera postando a tag #LiberdadeMusical e comentando sobre uma suposta censura das rádios sobre a nossa música “Fracasso”, tendo a guitarra como grande vilã da história. Foi uma movimentação espontânea deles, e como tinha meu nome no meio aproveito pra me juntar a essa discussão.

Em tempo: não houve “censura”, e talvez a guitarra não seja bem o foco da questão.

Antes de mais nada, essa situação não diz respeito necessariamente à minha banda. Não é pessoal. É um panorama geral, que envolve todas as bandas de rock. Essa restrição quanto à guitarras mais evidentes e sons mais pesados não é de hoje, mas veio se intensificando de alguns anos pra cá. Quando começamos há uns seis anos atrás com “Máscara”, houve muitas barreiras mas ainda foi possível ter na rádio uma música com guitarras altas, quase cinco minutos, parte em inglês. Existia uma “rádio rock” pra comprar a briga, e existia um público específico dessa rádio que ligava pedindo a música, e só a partir daí é que a coisa começou a se espalhar. Tivemos sorte de ter isso na época. Hoje, seria praticamente impossível.

Alguns fatores contribuem pra essa impossibilidade atual. Não existe mais, dentre as grandes emissoras do país, nenhuma rádio especializada em rock. Hoje estão todas misturadas. Tocam pop e R&B, e sendo as músicas mais genéricas a grande preferência da massa, é compreensível que o rock tenha ficado acuado. Essa falta de segmentação, a ausência de um lugar específico para ouvir rock, fez com que o público também ficasse misturado.  Pelo público de música pop ser maior, eles têm mais espaço; e os poucos artistas de rock que ainda conseguem entrar na programação são “convidados” a suavizar suas músicas para não assustar o ouvinte médio. Do contrário, não toca.
E do mesmo jeito que um “roqueiro” pode se sentir ofendido por ter que escutar um poperô logo depois de uma banda que ele gosta, o ouvinte de pop também pode se incomodar com o “barulho” entre um R&B e outro. Isso gera uma padronização geral, para que nada destoe e agrade a gregos e troianos. Mas isso é saudável? Essa mistura toda agrega ou enfraquece?

É claro que já passamos por isso, eu e inúmeras bandas. Sugerem versão acústica, sugerem remixar a faixa para amainar as guitarras, editar pra cortar o solo. Particularmente nunca aceitei essas sugestões e dei um jeito de fugir desses artifícios por um motivo simples: aí, não seria mais minha obra. Seria um engano, um arremedo do trabalho cuidadoso que fizemos em estúdio. Não tenho nada contra versão acústica, mas penso em fazê-lo por vontade artística, para um projeto específico. Jamais para caber num formato pré- estabelecido.

Mas isso é uma posição nossa aqui, outros parecem não se incomodar com esse tipo de concessão. Porém, dizer “não” sozinho não tem adiantado muita coisa. Sempre vai ter uma banda que vai aceitar pra se encaixar no perfil da programação, e isso acaba excluíndo os que querem manter o som do jeito que ele é. Escolhas, sempre as escolhas.

Aproveito para chamar outras bandas e artistas para esta conversa. Como vocês se sentem diante desse cenário? O que pensam de verdade sobre isso? Escrevam, publiquem em blogs, se manifestem. Vamos discutir juntos sobre isso, gostaria de saber o posicionamento de vocês.

E agora, ao público:

A teoria é: as rádios oferecem o que as pessoas querem ouvir. É isso o que, de fato, vocês querem ouvir? Se for, tudo bem. Recolho-me a minha insignificância e espero o mundo girar pro lado do rock outra vez.

Se não é, então as rádios precisam saber que ainda tem gente a fim de escutar rock, guitarras, letras mais complexas. E o único jeito deles saberem disso é com vocês se manifestando. Ligando pra rádio da sua cidade, mandando email, pedindo a música que você quer ouvir. Se vocês não se fizerem ouvir, se isso não chega até eles, jamais saberão que tem gente a fim de escutar coisas diferentes. O público tem voz ativa, e não há jabá que segure uma música não pedida na programação.

Dá trabalho e exige crença de que ainda é possível. Se acha que vale a pena, faça. Se está cético o suficiente pra achar que isso é uma grande baboseira, é um direito seu.



* Irônico: Se as rádios acham que nosso som tem guitarra demais, outros nos acusam de sermos “pop” e comercial. Vai entender.

* Irônico 2: Mais de um ano se passou e “Me Adora” não sai das mais pedidas do público, atrapalhando inclusive a própria evolução do single seguinte, “Fracasso”. Uma tem que sair pra outra de fato entrar. O mais louco é que quando apresentamos "Me Adora" pela primeira vez, houve uma certa resistência em tocá-la. Foi bem aos poucos e demorou pra engrenar. Mas de longe e depois que a coisa rola, todo jardim parece mais verde…


Pregui de gen by Pitty
10/07/2010, 12:00 am
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Preguiça do mundo, preguiça de gente. Preguiça de mim.

Vontade de não me relacionar com humanos por uns dias. Bichos, tudo bem. E eu, que de mim não posso fugir. Quero ficar louca e solta, e não pentear o cabelo, e deixar a barba crescer. E meditar. E escrever. E respirar. E só comer frutas. E renascer.

Pra depois me acabar toda de novo, nesse ciclo shivariano que faz o mundo terminar e recomeçar a cada dia. Tem mesmo essa coisa Fênix. Não sei ainda porquê sempre tenho que me desfazer, me arruinar, ir até o fundo de tudo pra acordar no dia seguinte e renascer das cinzas. É como ter que ir até o inferno só para ter algo pra comparar com o paraíso.


Festa Punk by Pitty
05/07/2010, 12:00 am
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Bateu uma nostalgia enorme assistindo o Botinada hoje. Esse documentário dirigido por Gastão Moreira conta a história do punk rock no Brasil. Tem entrevistas com integrantes daquela cena e imagens sensacionais da época.  Assistindo me lembrei exatamente do por quê de eu ter entrado pro Inkoma, mais ou menos uns quinze anos atrás.

O sentimento contido nas bandas daquela época ( 1976-1984) era exatamente o meu nos anos 90. Muitos anos depois, lá estava eu em Salvador sentindo o mesmo que eles: a total inadequação, a perplexidade diante das regras absurdas de uma sociedade podre, a raiva de ter que sobreviver a qualquer custo, enfrentando um ônibus lotado todos os dias pra ganhar um salário minguado no fim do mês, o ser discriminado pela aparência, roupas, posses. E a vontade de gritar contra tudo isso bem alto, mesmo sem ter instrumentos ou saber tocar direito. Eis aí a função dos emblemáticos três acordes: eles tornavam  a coisa possível pra qualquer um que tivesse algo a dizer. Não precisa ser um gênio musical pra se expressar, aprenda três acordes básicos e consiga botar pra fora tudo o que te aflige. Essa era a arma. Os meu heróis na época eram, antes de mais ninguém, os Ramones. E mais os Pistols, Inocentes, Cólera, RDP, Olho Seco, Replicantes, Stooges. Tudo o que fosse rápido, tosco e sujo me atraía. Depois veio Dead Kennedys e Bad Brains, que até hoje são duas das minhas bandas prediletas de todos os tempos, mas aí já tinha virado hardcore.

Entrei pro Inkoma por isso: pra ter uma válvula de escape, pra gritar, pra poder reclamar mesmo. Acreditava de coração que aquela era a minha munição, que era daquele jeito que nós iríamos consertar o mundo. Me indignava por não ter grana e ver as patricinhas na escola tirando onda de roupinha nova, e escrevia sobre desigualdade e humilhação.  Era criticada  e desacreditada no trabalho por me vestir diferente, ter cabelo colorido, usar correntes ou alfinetes, e escrevia sobre preconceito e injustiça. Máscara, inclusive, nasceu numa dessas.

Fiz tudo aquilo que os caras do Botinada também fizeram anos atrás: distribuí panfleto de xerox divulgando um show que nós mesmos tínhamos produzido, montei barraquinha pra vender fita cassete demo, fui demitida por priorizar minha banda ou por não me “adequar” visualmente, me juntei com outras bandas e tentamos formar uma cena. Arrumava equipamento pra tocar de qualquer jeito, emprestado, o que fosse necessário pra fazer acontecer, porque eu acreditava. A revolta das letras contra o sistema não eram mero clichê. Elas eram legítimas, eu vivia aquilo. Eu realmente acreditava. Vivia na rua, no mundo cão, tendo que me defender sozinha. Eu era bicho solto.

Fizemos umas músicas, e eu trabalhava como recepcionista no Studio Zero que era uma produtora de áudio voltada mais pra publicidade do que pra música. Vazquez era técnico de gravação nesse estúdio. Uruguaio e roqueiro, rapidamente se tornou meu amigo. Depois de muito pedido meu e do apoio de Vazquez  junto aos donos do estúdio, finalmente nos cederam algumas horas na madrugada pra que a gente pudesse gravar nossa primeira fita demo, “Pilha Pura”. Corria o ano de 1996.

Tudo como manda o figurino: capinha de xerox PB, letras inflamadas e gravação tosquinha. Delícia. Daí até gravar o primeiro EP  “Influir” (dessa vez em CD, suuper moderno) foi um longo caminho. Nesse meio tempo rolaram algumas coletâneas, e a gente se integrando com a cena hardcore de outros estados, trocando fitas demo, divulgando em fanzines de papel. Nessa época nossos contemporâneos eram Mukeka de Rato, DFC, Os Cabelo Duro, Bosta Rala, Lisergia, Dead Fish, Poindexter, Sutien Xiita, Gangrena Gasosa, Devotos do Ódio, Detergente CO. Haviam muitas e muitas outras, mas esses eram meus prediletos.

Inkoma foi minha escola, o do it yourself vivido de forma intensa, e agradeço imensamente por isso. Não seria quem sou se não tivesse passado por tudo aquilo, inclusive os perrengues. Porque, claro, nem tudo eram flores. As tretas volta e meia aconteciam.

Existia em Salvador  o MAP- Movimento Anarco-Punk- que reivindicava para si alguns direitos sobre tocar e falar de punk e hardcore. Para eles, qualquer pessoa de fora do movimento estava desautorizada a usar esses termos. E lá estava eu, não sendo do movimento, cantando numa banda intitulada punk rock/HC, e ainda por cima entoando um refrão que dizia que “hardcore é diversão”. Aí, fudeu. Recebi a notícia de que o MAP me convocava para um encontro, para discutir a situação. Achei graça. Era no mínimo irônico um movimento que prega liberdade de expressão me chamar para tirar satisfação sobre algo que eu tenha escrito. E eu fui, queria ouvi-los e ser ouvida. Já conhecia muitos membros de vista, ou de ter esbarrado pelas quebradas e shows na cidade.

De ter mais proximidade só conhecia mesmo Grito, um cara sempre de boina a la Che Guevara e panfletos a postos, pronto para “educar” os alienados. Nós nos conhecemos discutindo, claro. Ele provavelmente me intimando na porta de algum show, me questionando sobre alguma postura minha, querendo saber das minhas ideologias. Obrigada, Grito. Você me fez aprender a pensar e a estar sempre preparada para defender meus argumentos e ideias. Sempre pronta pra guerra verbal. Mesmo quando alguém me parava na rua e dizia: “tá usando a camisa dessa banda por quê? fala o nome do primeiro disco deles senão vai perder a camisa agora, otária”. Isso me deu uma base fodida pra vida. De não ser leviana. De não fazer/usar as coisas só por oba-oba. De saber porquê eu carrego determinados símbolos, de ser coerente e verdadeira com minhas ideias, e de saber brigar por elas.

Meu encontro com o MAP foi basicamente isso: a inquisição do anarco punk soteropolitano me julgando porque eu havia escrito que hardcore é diversão. Nunca quis fazer parte do movimento por uma questão muito simples: eram muitas regras e convenções, numa instituição que teoricamente defendia a abolição de regras e convenções. Me parecia incongruente. Preferia ser livre e fazer o que eu quisesse, do jeito que eu quisesse, e dizer exatamente o que eu quisesse. Autonomia total e nenhuma submissão ao que quer que fosse, tendo como única regra jamais interferir no espaço do outro. Isso pra mim era viver punk rock, coisa que carrego até hoje: me sinto no direito de fazer o que eu quiser, desde que não machuque ninguém além de mim mesma.

Assistir o Botinada me trouxe todas essas memórias e lembranças. Atualmente, pra muitas pessoas os clichês e frases do movimento punk soam datados e infantis. Sim, já fomos todos jovens um dia, e daí? Esse era o jeito que sabíamos lidar com o mundo ao redor. E tudo foi ficando muito banalizado com o passar do tempo, com o conceito de punk sendo encarado apenas como uma coisa estética, e etc.

Hoje, os tempos são outros. E pra novos tempos, novas formas de discurso e de linguagem. Pessoalmente, leio as coisas que escrevia naquele tempo e as que escrevo hoje e identifico exatamente os mesmos temas e essência; porém com outro vocabulário, mais subjetivo e metafórico. Pensando que a mudança começa dentro e que é necessário resolver a si mesmo para mudar o em torno. Uma ficha que tinha começado a cair quando escrevi “Revolução Mental”, pro EP do Inkoma:

“Cada cérebro é um QG/ cada homem, uma tropa
Se prepare pro ritual de cada dia/A revolução se faz a cada dia
Todo lugar, toda hora, todo detalhe vai influir
Dentro de cada mente se concentra um universo”

Sim, ainda acredito em revolução.


* PS- Assistam o Botinada. É um registro muito bacana de um dos movimentos musicais mais importantes do nosso país.



Ensaio Sobre A Magreza by Pitty
02/06/2010, 12:00 am
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Semana passada recebi a notícia da morte da namorada de um amigo. Ela tinha vinte e poucos anos, e eu não a conhecia. Soube por alto- porque não tenho intimidade suficiente com o moço e porque certas coisas não se pergunta- que a morte da garota tinha a ver com bulimia ou anorexia, entre outras coisas. Entre o pesar e o espanto, veio à tona na minha cabeça esse assunto que me rodeia há muito tempo. Fiz uma matemática simples; quantas vezes por dia penso alguma coisa relacionada à peso/ aparência? E de onde isso vem?

Penso mais do que acho que deveria. E tenho plena consciência de que isso vem de fora, de cobranças e expectativas externas; portanto a cada vez que me sinto sendo tomada por esse tipo de paranóia faço um esforço mental enorme e analiso friamente esses pensamentos a fim de me livrar  deles. Eu não quero ficar doente. Me vi algumas vezes bem perto desse precipício, e não é legal.

E está cada vez mais fácil sofrer das “doenças da beleza”, como bem chamou a revista TPM numa matéria recente. Somos bombardeados o tempo inteiro com imagens de pessoas magras e perfeitas; a mídia comemora e exalta cada quilo perdido por uma celebridade, ao mesmo tempo em que  achincalha aqueles que porventura saiam do padrão. A ideia difundida e enraizada na sociedade hoje, é de que ser feliz é ser magro. Um dos problemas é que esse “magro” é cada vez mais magro e não tem limites. Sei disso na pele porque me olho e vejo uma pessoa comum, nem magra nem gorda, e diante dos padrões cada vez mais esquálidos dos ideais de magreza, muita vezes fui colocada na categoria das gordinhas. Nada disso me importa, na verdade. Não me interessa o lugar onde o imaginário defeituoso e distorcido das pessoas me coloca, porque sei que elas estão blindadas, cegas. O que me deixa apreensiva é perceber que tantos- a maioria- compraram e aceitaram esse engodo pernicioso. Embarcaram nessa onda de que não ser absolutamente franzino é sinônimo de ser mal-cuidado, e de achar que saúde e beleza (e felicidade!) estão sempre diretamente relacionadas com dígitos de balança.

Essa propensão tem atingido faixas etárias cada vez menores. Meninas que nem chegaram ainda à adolescência preocupam-se com calorias ingeridas e pensam em dieta. Repetem o comportamento das mães, absorvem o conteúdo de revistas, espelham-se em fotos de ícones femininos estampadas nas mesmas. Querem ser como a garota da capa; leve, bem resolvida, admirada. E magra.

“Nossa, você viu aquela cantora como estava gordinha naquele programa? Que desleixada, preguiçosa.” Mesmo que a sujeita tenha acabado de parir um filho, e que toda mulher saiba que leva-se um tempo pro corpo se ajeitar. “E aquele jogador? Que absurdo, um atleta! Com aquela barriga!” Gordo. A palavra que era só uma característica e que virou xingamento.

Coitado de Botero. O pintor colombiano que retratava figuras rotundas ficaria deslocado? Assumiria sua arte como uma crítica à opulência humana? Nem sempre os padrões de beleza foram os mesmos. Houve um tempo em que ser gordo era sinônimo de viver bem, de ser abonado. E, por mais que seja esquisito hoje em dia, houve um tempo em que mulheres muito magras eram mal-vistas. As mais voluptuosas é que dariam boas esposas e boas amantes,  a “corpulência” era ligada à fertilidade. Na Renascença, as musas rechonchudas e de ancas largas é que comandavam a festa. Penso que Botero iria se amarrar em Beth Dito; a gordelícia vocalista do Gossip que posa nua, anda por aí em vestidinhos provocantes e sabe ser interessantíssima e bela com todos os seus quilos.

Eu? Eu engordo, emagreço, ganho dois quilos na tpm e eles desaparecem depois, como tudo o que tenho vontade e mando o mundo à merda, sinto culpa e me critico, sou uma bagunça emocional ambulante. Assim como tantas mulheres por aí. Trabalho dia após dia pra eliminar as cobranças externas e não me submeter jamais à essa paranóia que rege a vida moderna. Determinei alguns pontos na minha vida:

– Não abro mão da gula. Depois da luxúria, é sem dúvida o meu pecado predileto. Me dou o direito de comer tudo o que tenho vontade com volúpia, com prazer, sentindo o cheiro e o gosto. Nada mais erótico pra mim do que ver uma mulher comendo com vontade. O detalhe é que comer de tudo não significa comer muito. A quantidade é a chave, e única e exclusivamente pelo fato de perceber que não preciso de muito para estar satisfeita. Sou gulosa e me deleito com a gastronomia, mas sou a favor de eliminar os excessos desnecessários numa filosofia de desapego material por uma vida mais simples. Isso se aplica a tudo: não preciso da maior mansão, não preciso do carro mais veloz, e não preciso de um sanduíche extra-large pra me sentir saciada.

– Acho que se cuidar é uma coisa legal. Mas “se cuidar” pra mim tem a ver com descobrir uma atividade física que te dê prazer e te faça ficar saudável, com sua máquina funcionando direitinho. É pela serotonina, pelas endorfinas em geral, pelo não-enlouquecimento. A parte estética é uma consequência, um bônus bastante bem vindo. Nesse ponto, o Yôga me trouxe o que eu precisava.

– Não vou me deixar levar por essa balela midiática/ popular que tenta me enquadrar nesse padrãozinho de beleza plástico e inodoro. O belo está em muitas outras formas, e o defeito está em quem não vê.

E mais: não acreditem tão cegamente em tudo o que vêem por aí. Para as capas existe o photoshop, e a TV deixa todo mundo de três a seis quilos mais gordo. Ou seja, é tudo uma grande e imbecil ilusão. Saiamos nós dessa nóia e vamos ler um bom livro pra engordar os nossos cérebros.



Je ne sais pas by Pitty
26/05/2010, 12:00 am
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O incoerente me cobra coerência todo o tempo. Tudo precisa fazer sentido. Mas hoje não. Hoje nada faz sentido. Muito menos isto aqui. Coerente, mente. Olho em volta, vejo tudo, quero nada. Levanto, mecanicamente, engulo um alimento, não sei o gosto. Acordo, executo, cumpro, durmo, busco, busco, busco. Busco. Canso.

Enfastio-me de mim, me puno, não me quero. Me amo. Me vejo por ângulos secretos. E gosto. Desconfio, não divido, tenho medo, bicho assustado. Parto pra cima, arranho até sangrar, bato com força só pra ver sua cara perplexa, bicho selvagem. Fico acuada num canto, desnuda. Vazia.  E busco.

Os lábios se movem e eles falam, eu não entendo. Os braços se abrem e eu corro, eu não entendo.   Tudo previsível e marcado, e eu aflita. Pálida por fora, gritando por dentro tão alto que ecoa e reverbera e se mistura com as mil vozes dizendo “certo- errado”, “especial- corriqueira”, “possível- não”. E me confundo. E te confundo.

 Je ne sais pas, das verstehe ich nicht, I dont fucking know, no entiendo, aku tidak mengerti, eu não entendo, em todas as línguas.



Lado Z by Pitty
18/05/2010, 12:00 am
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A gente aqui tem essa mania, ou hábito, ou vício – chame como queira. A gente gosta de fazer jam session. Entramos no estúdio, apertamos o REC e saímos tocando, sem combinar nada. Alguém puxa um riff e os outros vão se encaixando. Isso às vezes dura horas. O que vocês vão escutar nessas faixas é exatamente uma dessas sessões, editada, obviamente. Tinham muitas, e particularmente escolhemos essas porque nelas está a gênese de algumas músicas que vieram a ser do Chiaroscuro. Durante a jam é possível perceber exatamente a hora em que surgiu o riff de Pra Onde Ir, a melodia de Rato na Roda e otras cositas más. Quem conhece as músicas depois de finalizadas, vai reconhecer os pedaços. Foi assim que essas músicas nasceram: os meninos tocando e experimentando e eu inventando uns improvisos vocais numa mistura de inglês, aramaico e NONINOM e ÔOOO. É curioso ver como no começo rolam desencontros, e de repente as coisas vão tomando forma sem a gente precisar falar; do meio da jam pro final a gente já sabe quando o outro vai mudar de nota, aumentar a intensidade ou suavizar. Depois de ficarmos horas nesse exercício, parávamos pra escutar e escolhíamos as partes mais legais para montar uma canção. E aí eu me virava pra fazer a letra. Um processo inverso do que sempre usei pra compor, mas que rendeu bons frutos. Ao escutar, leve em consideração que isso é um ENSAIO, gravado ao vivo, os quatro ao mesmo tempo, sem produção, sem nada. É a parte da criação. Espero que se divirtam com esse pequeno momento particular, que agora compartilhamos com vocês.

Para ouvir a jam session, é só clicar em Street Team na home do site, e apertar o play em Lado Z  na parte de baixo da página. Se não quiser fazer LOGIN, apenas clique em ENTRAR. Ou copie e cole esse endereço no seu navegador>   http://www.pitty.com.br/#page=street



Semi-breve by
28/04/2010, 12:00 am
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É simplesmente injusto. É caso perdido, daqueles que não se tem a quem recorrer. Irremediável. E única certeza de qualquer ser vivo. Uma hora se envelhece, e morre. Ou morre sem envelhecer, mas morre.

Acho morrer nada demais, na verdade. Como não se sabe de fato o que há depois, só resta especulação, teoria, crenças e fés; e isso tudo é ainda possibilidade. Não fico me remoendo diante de possibilidades e especulações, que seja o que tiver de ser. Lá a gente vê. Mesmo que “lá” seja o nada, o silêncio. Pior nesse caso é pra quem fica; da saudade que sentimos quando vivos, todos têm certeza absoluta. Essa é velha conhecida, comprovada, entranhada na carne e na alma. O que me aporrinha e exaspera é a brevidade da vida. É chegar no melhor momento, no cume da montanha e perceber que dali, só ladeira abaixo. É fenecer. Aí é que mora a ironia e a injustiça dos fatos.

Tenho hoje trinta e dois anos. Percebo, sem vaidade ou falsa modéstia, que nunca estive melhor. Os pensamentos cada vez mais ágeis, a plenitude do corpo e dos sentidos, a autonomia e a independência provenientes de não dever nada a quem quer que seja, o auto-conhecimento. A sexualidade, finalmente inteira. Mais sei do que não sei do que gosto ou não gosto, do que quero ou não quero. A junção ideal entre um pouco mais de sabedoria e vigor físico. O auge. E agora, quando tudo isso foi conquistado, eu devo envelhecer. Existe esse ponto de encontro entre mente e corpo, no qual essas duas coisas estão mais equilibradas. Antes era só vitalidade, energia, flexibilidade. Com o tempo, vem o conhecimento das coisas e de si próprio, a segurança, a calma. E um belo dia essas coisas estão juntas no mesmo recipiente em perfeita alquimia. Mas isso dura apenas o tempo do reconhecimento- quando se descobre tal fato, ele já está se despedindo de você. Piscou, já era. E, por total impotência e impossibilidade de comandar a natureza, deve-se aprender a fazer o caminho contrário.

Daqui pra frente, será cada vez mais cabeça e menos corpo. Mais sabedoria e menos virilidade. Pode-se protelar um pouco, tomar alguns cuidados, usufruir da ciência ou das tecnologias cosméticas para adiar ao máximo esse momento; mas escapatória, não há. O tempo é o senhor. E é curioso como esse senhor é mesmo relativo. Aos vinte, quase todos são eternos. Mais tarde, vem a percepção de que tudo passa rápido demais. E isso é uma pena, como disse Benjamin Button. O aspecto estético não é o que mais me tira o sono- claro que não creio que vá ficar feliz em ver minhas bochechas caírem sobre meu queixo, ou minhas mãos tomarem a aparência de um maracujá, ou mesmo meus peitos serem subjugados pela lei da gravidade. Mas sempre exercitei o desapego físico, nunca me confiei tanto nessa coisa de aparência. Me incomoda a perda da mobilidade, a dificuldade em amarrar os próprios sapatos, o cansaço, as limitações. A dependência. A morte em vida, isso sim, me apavora.

Querer não quero, e acredito que ninguém em sã consciência de fato o queira; mas o inevitável envelhecimento só nos obriga a uma coisa: achar isso bom. De alguma forma, aproveitar as benesses que a idade traz. Aprender a se desprender, a se desmaterializar, volatilizando-se cada vez mais até que um dia só reste a consciência. Um dia, seremos todos pensamento. Ou alma, se preferir e acreditar.


É por isso que eu tenho pressa. Cada dia mais urgente e faminta, quero tudo e quero agora.



Coachella #Prelúdio by
26/04/2010, 12:00 am
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Há alguns meses atrás, quando me deparei com o line up do Coachella, não tive dúvidas: se precisar eu paro o mundo por alguns dias, mas eu vou me jogar pra lá. Ah, se vou. E fui mesmo. Cheguei em Los Angeles uns dias antes e de cara já fui na Amoeba, que é uma loja de cd, dvd, vinil e tudo de delicioso que envolve música, e o melhor: variedade gigante e preços tentadores. Isso porque eles fazem um esquema de “troca”; compram discos usados e em perfeito estado e revendem. Você pode se desfazer de coisas que não quer mais e adquirir umas novas. E aí eu fiz a festa. Cds por cinco ou oito doletas, vinis de dez a vinte. O mais caro foi um novo, lançamento, por U$ 28. Compare com os preços que a gente paga aqui por conta dos malditos impostos e seja bem vindo à indignação.  Pra quem não sabe, o Coachella é um festival de música e artes que acontece numa cidadezinha no meio do deserto californiano, num espaço gigante e rodeado de natureza, bem aos moldes de Woodstock. Tem uma área de acampamento enorme e estrutura de primeiro mundo: banheiros a vontade, um mercadinho, comida e bebida, e muita, mas MUITA coisa pra ver e fazer nesses três dias. Além dos shows propriamente ditos (que já não são poucos) eles promovem outras atividades artísticas e divertidas, algumas oficinas, pista de patinação dançante, alguns artistas plásticos expõem suas obras no espaço do festival, um grupo de acrobacia aérea se apresenta em uma das tendas, tudo acontece ao mesmo tempo e a música não para nunca. É uma overdose de cores, sons e sensações. Existe um cuidado com  a consciência ambiental e isso é estimulado o tempo todo. Por exemplo, a pessoa que recolher dez garrafinhas de água vazias no chão ganha uma cheia e novinha em folha. Ou, para evitar de comprar dezenas de garrafas plásticas por dia, a pessoa pode também adquirir uma personalizada do festival que lhe dá direito a refil gratuito por todos os dias. Outra iniciativa: o Carpoolchella. É um incentivo para as pessoas irem juntas no mesmo carro, diminuindo o uso de veículos ocupados por apenas um ou dois. Consiste em pintar ou sinalizar em alguma parte do carro a palavra “Carpoolchella” e torcer para ser escolhido pela produção, que no final do festival os recompensa com prêmios bacanas. Tipo ingresso vitalício. Premiozaço. Uma das instalações artísticas era curiosa: havia um espaço com uma mesa de DJ na qual qualquer pessoa poderia tocar, desde que levasse uns brothers pra ficar andando numa roda de hamster gigante. O som era gerado por energia humana. Se o amigo cansa e para, FUEIN, acabou o set. Era para esse lugar adorável que eu estava indo, na manhã seguinte.



Coachella #DIA 1- Em Busca do Ticket Sagrado by
26/04/2010, 12:00 am
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Eu e mais uns amigos num carro, pegamos a estrada cedo saindo de LA em direção à Indio. Nenhum de nós tinha comprado ingresso, e a notícia de que estavam esgotados não tinha causado nenhum alarde maior porque, segundo pessoas que foram em anos anteriores, era bem fácil de achar na porta com algum cambista ou algo assim. Um gigantesco engarrafamento se formou muitos quilômetros antes do portão de entrada, e foi ali que caiu a ficha da situação. Os carros ao lado, as pessoas que andavam pela calçada, TODOS procuravam por tickets. Era a pergunta geral, repetida centenas de vezes: “anyone have extra tickets? please? anyone?”. Porra, então é verdade. Tá sold out mesmo e pelo jeito não tem nenhum cambista vendendo. Começou a bater um desesperinho. Passamos quatro horas nesse maldito trânsito, num calor de lascar, e a cena se repetia. Tentamos algumas estratégias. Pegamos uns guardanapos e escrevemos “TKTS?”, penduramos nas quatro janelas. Um dos nossos desceu e saiu pela fila de carros perguntando. Nada. A fauna nos veículos ao redor era um espetáculo à parte: garotas empolgadas, gente fantasiada, som alto, todos animados. Um carro parou bem ao lado e um cara carregava uma plaquinha: “got psychedelic drugs?” Se ele tivesse alguns extra tickets a gente até tentava dar um jeito. Não era o caso. Horas depois conseguimos chegar ao estacionamento, e veio a empolgante notícia de que havia aparecido um cara com ingressos. Vou meio que poupá-los de algumas idas e vindas, mas basicamente teríamos que encontrar esse cara lá atrás , ou seja, voltar TODO o caminho e pegar o trânsito de novo. Tentamos ir a pé, era longe, estiquei o dedo e pedi carona, nada aconteceu, o calor desértico derretendo os miolos, pegamos novamente o carro, fomos até o cara, e quando finalmente peguei o bendito ingresso nas mãos quase derramei uma lagriminha. Que batalha, amigo. Toda essa epopéia durou a tarde inteira, e no engarrafamento de volta pro festival olhei o programa e me dei conta de que Them Crooked Vultures deveria estar subindo ao palco naquele momento. Os carros não andavam. Desci, eu e minha mochilinha, e fui a pé. Passando pela portaria eu pude ouvir os primeiros acordes de Scumbag Blues, e corri, corri MUITO até chegar ao palco principal. Equilibrando a falta de ar pela corrida desenfreada com a emoção de ver os caras no palco, consegui assistir mais da metade do show deles. Foi lindo. Josh é um deus. Grohl é um monstro. Mr. Jones é pura classe. Ao vivo soam coesos e poderosos, e eu lá sozinha no meio da multidão de mochila nas costas, extasiada. Achei o show meio curto (ou era minha vontade de que não acabasse nunca), e no final fui encontrar o resto da galera no local que tínhamos combinado: Sahara, a última tenda, segunda janela do lado direito. Até então, eu não tinha noção do espaço físico do lugar, e aquilo é ENORME. Anda-se para caralho pra se chegar de um palco ao outro. E eu não tinha mapa, tava que nem barata tonta andando em círculos. Peguei umas direções erradas, mas quem tem boca vai à Sahara, e uma hora cheguei. Essa é a tenda onde rola música eletrônica, e a babilônia por lá já estava armada. Povo dançando em altas. Achei meus companheiros e dei uma passadinha no LCD Soundsystem. Foi nessa hora que descobri que lá não se vende álcool assim, tão facilmente como aqui. Para beber, tinha-se que pegar uma pulseira mostrando que você era maior de 21 anos, ir até um lugar específico e rodeado por cercas, e não era permitido sair daquele espaço com nenhuma bebida nas mãos. Tudo tinha que ser consumido ali dentro. Meio que tive que dar um shot numa margarita pra não perder os próximos shows, e pensei em dar um jeito de contrabandear uma vodkinha na mochila no dia seguinte. Bico seco não dá, né. O resto da noite foi quicando de um palco pro outro pra tentar ver o maior número de coisas possíveis: passei pelo Vampire Weekend, dei uma fritadinha no Benny Benassi, vi a Céu, um pedacinho do PIL e Whitest Boy Alive e numa hora perdida um som minimalista, denso e estranho chamou minha atenção. Fui até lá e a cena era surreal. Pessoas balançando-se lentamente de um lado pro outro, todos com os braços para cima. Parecia uma espécie de culto dark, com umas luzes sombrias. Era o Fever Ray.

(Pausa. Não lembro bem o que aconteceu depois, acho que fui abduzida, ou algo assim. Pula essa parte.)


Na passagem para um outro palco me deparei com uma das instalações artísticas presentes no festival: um painel de LED em 3D, com milhares de luzinhas coloridas e movimentos alucinantes. Sentamos na grama e ficamos horas viajando naquilo, interagindo com pessoas ao lado, tal qual mariposas hipnotizadas pela luz. Saí do transe, e o fim de night foi com Deadmau5 na tenda eletrônica, gastando os últimos momentos-doces. Reward is cheese, dude.



* A volta pro hotel foi cruel. Andamos interminavelmente e ficamos mais umas duas horas dentro do carro, presos no trânsito. No apartamento alugado pra oito pessoas, esquema hippie: colchões pela sala, cada um se jogando aonde dava. Segundo um sábio amigo, isso é o de menos. Você chega tão exausto do sol, das caminhadas e dos shows que você dorme até de cabeça pra baixo. E é verdade. Desde que alguém não ronque.