prato_do_dia
Message In a Bottle by Pitty
22/09/2015, 3:50 pm
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fazia tempo que eu não vinha aqui. e esses dias me peguei refletindo sobre por quê eu parei de postar no Boteco.
escrever, escrevo sempre, o tempo todo. continuo com meus rabiscos, ideias e aforismos fluindo dos dedos pro papel. mas fui sendo cada vez mais criteriosa na hora de compartilhar por não querer contribuir para o entulho do que eu chamo hoje de “mar de links”; essa overdose de informação na qual a gente vive onde todo mundo fala tudo o tempo todo- e muitas vezes não se fala nada.
hoje, todo mundo tem um blog, um site, uma rede social, todo mundo quer falar, todos têm opinião. isso é uma coisa boa do ponto de vista da democratização de informação, do exercício de liberdade de expressão, do livre pensar. por causa da internet, não se depende mais de um veículo impresso ou de um programa de tv para expressar um pensamento; você pode escrever um texto, gravar um vídeo, etc- o alcance que isso vai ter depende de circunstâncias diversas- mas é possível. como bem disse Mano Brown numa entrevista, hoje todo mundo é mídia.

mas parece que ainda estamos aprendendo a lidar com esse “brinquedo novo” que é a facilidade de compartilhar uma opinião, sua vida pessoal ou notícias. e acho que o cansaço vem daí: da banalização da informação, de todo mundo falando sobre tudo ao mesmo tempo e muitas vezes ninguém se ouvindo. dessa falta de noção da importância- se eu sou minha própria mídia devo estimular o interesse das pessoas, e devo supor que elas se interessem por qualquer coisa que eu faça ou diga- mas isso na verdade muitas vezes só engrossa o lodo desse mar de links. ora, eis o conflito: se eu tenho liberdade de me expressar e me foi dada essa oportunidade através de ferramentas que reforçam minha identidade, então o que eu digo é importante.  mas todos estão fazendo o mesmo e eu sinto a pequenez de ser mais um nessa multidão gritando para ser ouvido; bem, eu não sou tão importante assim. grandes coisa o que eu penso, a minha selfie, um novo trabalho. nesse tal mar de links, as ondas se sucedem muito rapidamente e tudo submerge.
são muitos por dia; quinze novos discos, dez vídeoclipes, inúmeros textos, quantas fotos, como ver isso tudo?, como escolher qual disco ouvir qual texto ler qual vídeo assistir? como estabelecer critério?
com o quê gastar meu tempo e atenção, porque não vai caber tudo. e essa ansiedade de deixar informações pra trás, como se estivéssemos correndo atrás de um trem desgovernado que passa voando pela estação e se quiser embarcar, amigo, só pongando nele na base do pulo.

encafifar e refletir sobre isso foi o que me fez questionar e compartilhar menos. minha escrita sempre foi solitária, auto-analítica e egocêntrica. e por isso mesmo, terapêutica. mas talvez só pra mim.
passei a me perguntar: isso é relevante de alguma forma que não seja só pra mim? nem sempre tenho a resposta, e na dúvida, fico quieta. mas andei sacando que é uma quietude reprimida, e não pacífica. agora acho que é encontrar a medida e desreprimir um pouco, me permitir postar sem esse tipo de preocupação ou expectativa, tirar o ego da frente no sentido de se alguém se incomodar, sorry, vou escrever sobre mim mesmo porque é o único assunto sobre o qual tenho conhecimento de causa (e olhe lá).  e “mim mesmo” são nossas opiniões e pensamentos também.

é uma mistura de bode com cansaço e tédio. gente que flooda, a carência, o me segue, os comentários de portal, gente que acha que tem que ter opinião sobre tudo, e eu mesma na selfie do espelho.
estamos falando sobre democratização e liberdade de expressão, e talvez liberdade não rime com responsabilidade à toa. acho que estamos aprendendo a lidar com essa época e esse poder de se expressar. estamos experimentando esse poder e testando seus limites- e acho isso uma coisa boa. internalizei umas perguntinhas básicas as quais me faço antes de apertar o “send”:
isso é importante? (para mim, para os outros ou para ambos)
e, quando em algo dirigido à alguém ou sobre alguém: eu diria isso na frente dessa pessoa? (essa é muito, muito importante)

(acabei de escrever e já tô aqui pensando em nem postar. mas vou, como uma espécie de exercício da tal desrepressão. quem sabe eu volte outro dia mais leve.)



2014, seu lindo by Pitty
26/12/2014, 3:34 pm
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Pra falar de 2014 eu preciso voltar um pouquinho ao final de 2013. Foi quando, depois de um ano turbulento e esquisito, eu descobri que estava com hipotireoidismo. O último “presente” de 2013; e que definiu bastante do que aconteceria no ano seguinte. Comecei 2014 empenhada em recuperar minha saúde e meu corpo. Eu achava que  tinha engordado um pouco no ano anterior porque tive uns lances de saúde, e gosto de comer, e acho que nosso corpo muda com a idade mesmo e tava de boa com isso. Mas aí eu descobri que foi o tal do hipo, e comecei o tratamento. Reposição do hormônio da tireóide, “é pra vida toda”, minha médica disse, e eu encarei o bicho. Ela me incentivou a fazer mais exercício para ativar o metabolismo e a comer melhor. Ajudou a reeducar meus hábitos alimentares sem restringir nada, só botando as coisas nos seus lugares. Em pouco tempo eu já via o resultado: meu corpo começou a voltar ao que ele era antes dessa bagunça hormonal. E eu, surpresa, me vi viciada numa coisa nova: endorfina. Nunca tinha descoberto o prazer de malhar até então, sempre fui mais do yôga, da dança, do pilates, essas coisas. Mas descobri que com música eu ia longe, então todo dia escolhia um disco, punha fones de ouvido e ia pra academia, e o tempo passava rápido e gostosamente.

Paralelo à recuperação de mim mesma, aprontava o disco novo. Em Janeiro/ Fevereiro terminamos de gravar as vozes e detalhes e começamos o processo de capa, fotos, encarte, etc. SETEVIDAS estava sendo gerado, no tempo dele.

Em Abril já tínhamos decidido a primeira música de trabalho e gravamos o clipe de Setevidas com Raul Machado. No fim de Abril/começo de Maio, eu e Rafa fomos pra gringa terminar de mixar o disco no Texas com Tim Palmer e depois masterizar em Nova York com Ted Jansen no Sterling Sound. Uma experiência incrível e inspiradora, e um resultado fundamental para a sonoridade do disco.

Em Maio, com o single na rua, programamos o primeiro show do que viria a ser a turnê; para testar na estrada algumas ideias estéticas e de repertório. Tudo estava diferente, inclusive a banda: em vez de um power trio como normalmente tinha sido, mais um músico no palco e a adição de moog, teclados, percussão, mais vozes. Isso trouxe novas texturas pro palco, e a intenção de ter o disco novo reproduzido o mais fielmente possível se tornou real. As músicas antigas ganharam outras cores com os novos elementos e o visual do palco estava bem diferente; tudo novo para uma nova fase. O primeiro show foi emocionante, e o reencontro da gente conosco e com o público foi intenso e deu ânimo para seguir com a turnê.

 SETEVIDAS foi lançado no começo de Junho. Toda aquela movimentação de trabalho novamente, e eu renovada e feliz com a receptividade das pessoas ao disco. Em Junho também fui convidada para regravar “Agora Só Falta Você” da Rita Lee, para abertura de Malhação. Aceitei o convite com alegria, e fizemos uma versão bem louca e também gravada ao vivo dessa música.

Em Julho, a surpresa: através de um exame de acompanhamento da tireóide descobri que ela voltou a funcionar. Eu, que já estava conformada que seria pra vida toda, não entendi nada. Minha médica me tranquilizou e disse que isso acontece, e que os exercícios e a alimentação devem ter sido os grandes responsáveis por ajudar a regular o metabolismo. Parei de tomar a medicação mas continuei apegada a essa nova rotina que hoje considero remédio. Entendi que quem gosta de comer, beber e farrear como eu precisa de uma contrapartida. Hoje brinco dizendo que conserto de dia e estrago de noite.

Em Agosto aconteceram os primeiros shows de lançamento do SETEVIDAS em várias capitais do país, e foi oficialmente dada a largada da turnê. Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Salvador, Belo Horizonte, etc; a maioria dos shows esgotados e todos lotados. Felicidade total pra gente aqui, saindo do palco a cada um desses de alma lavada. E o entrosamento e a convivência entre a banda melhor do que jamais foi, todos apaixonados um pelo outro e pelo disco.

Setembro me trouxe a realização de um desejo antigo: publicar um livro de fotos sobre a carreira. O Cronografia finalmente ficou pronto e foi lançado, e fiz até sessão de autógrafos na Saraiva por conta disso. Mais uma vez, muita satisfação em ver que as pessoas gostaram do livro e que meus companheiros de antigas bandas e personagens da minha história curtiram se ver ali. Também rolou de lançar minha lojinha online em parceria com a Idealshop; e finalmente botar na rua os lances de banda que a gente tanto gosta: camisetas, canecas, anel, almofada, e o que mais a gente inventar.

No final de Setembro foi exibido no Canal Bis o documentário “Pela Fresta” dirigido por Otávio Sousa, sobre a gravação do SETEVIDAS. Além de detalhes da gravação, também tem a gente tocando o disco praticamente na íntegra ao vivo no estúdio; com projeções de Carlos Pedreañez, que assina essa parte do show também.

Tocamos no Circuito Banco do Brasil em Outubro, festivalzão; bom para testar o esquema de palco grande e público massivo. Foi lindo e emocionante. Durante esse mês decidimos o próximo single, e no final dele gravamos o clipe de Serpente dirigido por Charly Coombes.

Em Novembro mais um nó foi desatado: ganhamos o processo que havia sido movido pelo ex-baixista. A justiça entendeu o que vínhamos alegando desde o princípio, e fomos vitoriosos nessa questão. Uma coisa boa nisso tudo é que esse resultado abre um precedente favorável para outros artistas,  e de certa forma protege a todos um pouco mais caso pessoas de má-fé queiram se aproveitar de brechas na legislação.
Depois dessa decepção profunda em 2013 chego ao fim de 2014 livre, com a consciência tranquila, e não deixando a mágoa envenenar meu coração.

O último show de 2014, em Dezembro, foi no Parque da Juventude em São Paulo; onde era o antigo Carandiru. Não sei se a energia daquele chão, não sei se o dia, não sei, não sei. Mas foi um dos shows mais emocionantes dessa nova turnê; o dia estava cinza e chuvoso, e mesmo assim vinte mil pessoas estavam lá em estado catártico; cantando tudo, dançando, vivendo. Foi lindo mesmo, vai ficar na mente.

E logo mais tem mais. Um ano novo incrível a todos, vejo vocês em 2015. 😉

bjs, P.



Serpente- o vídeo by Pitty
12/11/2014, 6:55 pm
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no sábado passado lançamos o segundo videoclipe do disco novo, da música Serpente.  eu já tinha uma ideia de roteiro antes mesmo de saber que esse seria o segundo single; mas ficava tímida em comentar e também queria deixar o diretor livre caso ele tivesse uma ideia mais bacana. decidimos filmar com o Charly Coombes, que além de diretor é um músico talentoso, e nos nossos primeiros brainstorms fui deixando a coisa rolar. mas algo me dizia que valia a pena insistir na história do ritual, comentei e ele gostou. começamos a formatar as ideias, e piramos em fazer uma espécie de curta. queriamos contar uma história com começo, meio e fim; há tempos a gente não fazia um clipe mais linear.
alguns detalhes eram de extrema importância pra mim nessa história. que essa “seita” fosse matriarcal, que trouxesse o poder do feminino e de todas as deusas representadas em diferentes culturas, mitologia, rituais pagãos, religiões afro-brasileiras. que não fosse focada em uma única ideologia, que fosse diversa e representasse o coletivo. e que dialogasse com a nossa própria cultura folclórica, os nossos mitos da floresta. dito isso, entendemos que teríamos que inventar o nosso próprio ritual de cura.  
foi divertido explicar pro Charly, um americano criado na Inglaterra sobre Curupira, Pajé, Iansã. ele captou todas essas referências, e mais o hinduísmo, o mantra de Shiva presente na canção, mitologia greco-romana e especificamente Baco, o deus dos prazeres. precisávamos de um símbolo que fosse o elo entre os iniciados nessa seita inventada, e pedi pro Martin desenhar. e tínhamos essa coisa do fogo como elemento catalisador dessa junção toda. Charly estava muito empolgado em filmar o fogo e já tinha várias imagens na cabeça; as pessoas em volta, os pés, as palmas, a catarse. precisávamos de gente para essa cena da fogueira, e fomos recrutando os amigos. quando começamos a levantar os nomes, percebi um desequilíbrio: esta lista era majoritariamente de homens brancos. comentei com eles e concordaram; precisávamos de mais mulheres, negros, e se desse até indio; para representar de forma mais democrática a nossa sociedade, ou pelo menos, o mundo que queremos. pode parecer uma bobagem, mas não é: nos detalhes da arte se faz política também.
assim como no outro detalhe de optar por um homem para o papel do cara no bar; as mulheres já são vítima de diversas coisas na vida real, e eu não endossaria essa posição num vídeo meu. mais uma vez, é nessas pequenas coisas que vamos construindo imageticamente a realidade que queremos.
e foi lindo lá na hora. estávamos todos entregues. decorei umas palavras em iorubá para dizer na fogueira, na hora do ritual. o vento soprou, e eu me arrepiei várias vezes. não sei se o vinho, se as palavras, a lua cheia, a energia daquelas pessoas, se tudo isso junto. mas rolou um lance. saímos de lá com uma sensação muito boa. veio todo mundo: as deusas, Baco, Shiva, Iansã, o Pajé, Lilith, Maria Madalena, Ártemis e as coisas que não têm nome. sou de todos e não sou de ninguém. se faz bem, é bom.
e no dia seguinte filmamos a cena do bar, com os meninos protagonizando lindamente.

meu enorme agradecimento a todos que participaram desse vídeo e a Minha Pedra que concedeu a “floresta”, vocês foram essenciais para este resultado.

está no ar! espero que curtam 🙂



07.05.2014 by Pitty
06/05/2014, 11:31 pm
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Ele mora depois do seis e antes do oito, e é primo. Pragmaticamente ele até poderia ser apresentado assim, mas veio vestido de mistério.

Nasci num dia 07 do ano de 77 sob o signo de Libra- que rege a sétima casa, segundo a astrologia. Os sete dias da semana norteiam e conduzem nossa rotina, os tais sete dias bíblicos da Criação. Queria mesmo era pintar o sete navegando os sete mares, e quem sabe as sete cores do arco-íris dariam o ar de sua graça. Não seria um bicho de sete cabeças rodar o mundo como desejo se eu tivesse uma bota de sete léguas. Passaria até pelo bairro de Sete Portas em Salvador, minha terra natal. Mas as coisas seguem oscilando entre os sete pecados capitais e os sete princípios da moral pitagórica; acendo uma vela de sete dias e penso nos sete chacras que, gostaria, um dia fossem plenos. Todos os sentidos atravessando os sete buracos da minha cabeça. Tudo o que é intuitivo e sinuoso como um gato, que tem sete vidas; e por mim poderia ser uma das sete maravilhas do mundo. Outra maravilha, e nessa me deleito, as sete notas musicais que se multiplicam e desabrocham em acordes e melodias. A sétima arte- o cinema- que também me alimenta deveras. A teosofia diz que nossa vida se divide em setênios, e os budistas têm sete degraus até a iluminação. O sétimo arcano maior do tarot é O Carro: aquele que executa, que bota pra frente, é progresso e ação.
As sete velas da Menorah clareiam a mesa do shabat, e volta e meia por aí até encontramos Esperança, Fortaleza, Prudência, Amor, Justiça, Temperança e Fé; que são as sete virtudes humanas de acordo com a Filosofia.
As sete pragas do Egito, os sete selos de São João, as trombetas do Apocalipse e tantos outros setes naquele livro antigo.

Estamos no ano de 2014, cuja soma é sete.

E logo mais te conto um segredo não mais tão guardado a sete chaves.

bjs, P.



Seu Corpo É Seu by Pitty
02/03/2014, 3:46 pm
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Começou assim: alguém me avisou que Anitta tinha postado um trecho de uma música minha numa rede social. Depois me mandaram um link dela cantando Máscara ao vivo num show. Depois outro dela cantando Na Sua Estante. E eu achei divertidíssimo que alguém de um universo tão diferente estivesse ligada no meu som e reinterpretando-o a sua maneira. Isso já faz um tempo, e tudo o que eu sabia até então é que eu a tinha visto num clipe com uma fotografia massa. “Ah, é aquela menina do clipe bonito”, pensei. E o tempo foi passando, e as reações de algumas pessoas em comentários quando me mandavam os links começaram a me deixar intrigada-barra-preocupada. Geralmente meninas, e novas, com um discurso de “credo, essa menina cantando sua música, ela fica aí mostrando o corpo, sendo vulgar” etc, etc. Coisas desse tipo. Percebi que o que incomodava não era necessariamente o estilo, ninguém falava sobre mérito musical, cantou bem ou cantou mal, mas sim MOSTROU O CORPO. E até hoje, volta e meia alguém me escreve com esse papo. Sempre fui uma pessoa discreta, não curto expôr vida pessoal e nem sou afeita a ensaios sensuais; não por pudor, mas por sentir que a máquina patriarcal que opera esses mecanismos acaba sempre nos colocando como bibelôs à disposição- mesmo quando tenta nos convencer de que isso é exercer liberdade. Quando o fiz, procurei que fosse em um veículo no qual eu sentia que realmente esse exercício de liberdade estaria em primeiro plano. Enfim.

O que me deixou aflita e o que eu queria dizer para aquelas meninas que mandaram as mensagens é: NOSSO CORPO É NOSSO. Não deixe ninguém te dizer o contrário. Desfrute dele, assuma-o com a forma e tamanho que ele tiver, vivencie seu corpo- assumindo a responsabilidade que isso traz. Esse empoderamento é importante pra todas nós. Nós podemos usar a roupa que quisermos, podemos dizer o que quisermos, podemos ficar com quem quisermos, a hora que quisermos. Somos donas do nosso destino e estamos aqui para sermos felizes e nos sentirmos bem. O resto, meus amores, é só opressão.

Pra mim isso tudo é clichê de tão óbvio, mas achei que devia dizer.

Um abraço carinhoso pra todas, suas lindas.
E em tempo: um beijo, Anitta! 🙂



O taxista e a Rádio Rock by Pitty
18/03/2013, 12:47 pm
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Gosto muito de histórias de taxistas e já passei por algumas incríveis. Gosto tanto que pensei até em criar uma série de crônicas sobre esse universo, mas soube que meu amigo Spencer também gosta e já escutou umas bem surreais, e fico imaginando que as histórias dele seriam melhores do que as minhas porque ele escreve bem e tem uma narrativa deliciosamente bukowskiana. Aí guardo só na minha cabeça, ou eventualmente num caderno ou outro.

Só acontece do jeito que eu gosto quando o motorista não me reconhece, quando eu sou uma folha em branco. Porque aí funciona que nem a coisa da psicanálise: ele está de costas pra mim sem ler minhas reações corporais (exceto em fragmentos pelo retrovisor, mas a quase totalidade do tempo ele está olhando pra frente- por favor!); e ele não sabe nada sobre mim portanto não faz julgamentos e isso impede que ele “doutrine” suas ideias e comentários para se encaixar no que ele espera que me agrade. Pois bem.

Entrei num taxi, dei o endereço, e percebi que o rádio estava ligado na recém ressuscitada 89 FM, agora novamente como a Rádio Rock. Puxei assunto, porque queria saber que efeito essa volta tinha surtido nas pessoas do mundo real.

– É a 89, né, eu soube que voltou. E aí, tá legal?
– Pois é, voltou sim, na mesma pegada de antes. Tá igualzinho ao que era, meu.
– Huum…  e você já curtia antes?
– Ah, total, das antigas. Eu tô curtindo, ouço direto no carro, quando a rádio virou pop foi chato porque ficou igual a todas, né.
– Sei… (do tipo, “conte-me mais”…)
– Pô, pra galera que gosta de rock é um alívio, onde é que eu ia escutar Raimundos, Red Hot, System, de tarde, no rádio? Aí, ó…

( e aumentou o volume um pouco, tava rolando Chop Suey, do System of a Down)

O papo foi nessa pegada até o meu destino, mas foram essas observações acima que me fizeram pensar.

Me intrigou o fato de ele só citar bandas dos anos 90 e 2000, ou seja, coisa de no mínimo dez anos atrás. E de ele parecer valorizar o fato de que “estava igualzinho a antes”. Talvez, para ele,  a coisa boa era a identificação com o que já se conhece (e isso é confortável), e também um resgate de juventude. Um resgate da identidade que estava adormecida e ressurgiu do mesmo lugar em que parou.

Dos amigos e pessoas do meio, tinha escutado que sentiam falta de coisas novas, de bandas nacionais, que não fazia sentido ouvir “Alive” do Pearl Jam pela milésima vez. Entendo esse lado também, especialmente como músico. Mas foi bom ter contato com a perspectiva “da rua” e perceber que existia essa outra sensação; isso me fez questionar se era assim que o grande público da rádio se sentia. Pensei também que essa podia ser uma estratégia da rádio para reagrupar as pessoas e consolidar o terreno para esta volta: “olha, nós somos aquela que vocês gostavam, lembra?”; e depois disso estar devidamente sacramentado abrir espaço para tudo o que pode ser uma rádio de rock nos anos 2013.

Torço por isso e recebo a volta da 89 com otimismo, expectativa e boas vibrações.



Múltipla Escolha by Pitty
05/09/2012, 2:41 pm
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Saí da terapia, passei na farmácia ao lado, liguei pra um taxi.

Entrei e o tiozinho começou a puxar conversa. “E essa chuva?” “Tá indo pra casa?” “Você trabalha ali?”

Eu respondendo, mas na retranca. Comecei a mentir.

– Como é seu nome?
– Consuelo.
– Trabalha com o quê, Consuelo?
– Ah, sou costureira.
– Mas você não é daqui não, né? Esse sotaque… é de onde?
– Bahia. O senhor também tem sotaque, é Nordeste também?
– É, Pernambuco. Mas tô aqui faz tempo já, acham até que perdi o sotaque. Tem um monte de nordestino por aqui, o que menos tem em São Paulo é paulista.  E ainda têm preconceito com a gente, viu? Volta e meia escuto uns desaforos.
– Ah, mas nessas horas eu nem dou atenção…
– Pois é, outro dia mesmo eu tava conversando com um desses e falei assim “se preocupe não que daqui a um tempo 95% da população vai ser de paulista”. Né não? A gente vai tendo filho, tendo filho… e eles nascem aonde? Aqui, né? Tudo paulista, mas tudo filho de nordestino!
– Verdade, não tinha pensado nisso…

Aí fomos nessa conversa até que cheguei ao meu destino. Paguei, estava saindo. Ele:
– Tá bom Consuelo, obrigado, viu? Quando tiver por ali passa lá no ponto e me procura pra gente tomar um café junto, bater um papo, se conhecer melhor.

???????????

Aí fiquei sem saber se:
1- o tiozinho tava me paquerando
2- o tiozinho me reconheceu e tava tirando um sarro
3- o tiozinho é só gente fina mesmo e gosta de conversar com as pessoas.

Que mundo doido.



A Onda by Pitty
22/05/2012, 11:07 am
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Tudo bem quando dizem que o tempo é relativo, eles estão certos. Especialmente quando se referem ao tempo das artes: esse é relativíssimo, e aprendi isso na prática.

Estava aqui pensando sobre o tempo ao meu redor. Tudo tem acontecido aos montes e freneticamente, e confesso que me agrada esse turbilhão. Tenho feito mil coisas ao mesmo tempo e no fim do dia sempre restam algumas por fazer. O Agridoce que começou tão paralelo, tão distração, se tornou a totalidade desses meus dias por conta das circunstâncias. O disco cresceu e ganhou vida própria, e foram aparecendo muitas coisas boas pelo caminho. Shows. Especiais pra TV. Oportunidades artísticas instigantes.

O recesso em que minha banda de rock entrou no fim do ano passado abriu espaço para que eu pudesse me dedicar mais a esse projeto. Um recesso que foi necessário por diversas questões, algumas alheias a minha vontade. Eu tinha duas opções: continuar do jeito que estava, com tudo internamente bagunçado, fim de semana após fim de semana movida por expectativas externas e correr o sério risco de transformar minha obra num arremedo, num mero “bater de cartão”. Ou arrumar a casa, se renovar, se afastar e olhar de longe para não se perder de si mesmo. Obviamente escolhi a segunda alternativa porque me lembro sempre: desde que resolvi montar banda lá na adolescência, meu único compromisso é com a arte e com a expressão sincera da mesma. Não sei dizer isso em palavras que não soem como uma frase feita, mas é a real.

E é por causa desse compromisso ao qual não sei fugir mesmo que quisesse, que as coisas estão assim. Minha banda de rock está em recesso até a hora em que me aconteça aquela gana de escrever, criar, gravar. Aquela velha fagulha que dá início a tudo. Aquela fagulha que não se provoca nem se comanda; ela é. Isso pode ser amanhã ou daqui a tempos. De novo, o tempo das artes, aquele relativíssimo. E quando ele vem é sempre poderoso e forte, porque é honesto.

Existem outros tipo de funcionamento; tem muita gente que vive bem assim, entregando encomendas, satisfazendo apenas uma demanda de mercado. Eu mesma poderia pegar três ou quatro fórmulas, bolar um hit redondinho com as coisas que eu sei que funcionam e voilá, tem-se um disco. Mas acho triste. Meu âmago grita que isso seria uma traição sem tamanho; comigo mesma, com os outros, com o que a coisa é para ser. E eu me odiaria por isso.

Então é saber respeitar o tempo das coisas e estar de instintos a postos para o chegar da fagulha. E enquanto isso, aproveitar as coisas ótimas que têm acontecido e que têm me alimentado profundamente. Pegar essa onda que cresceu e dropá-la por inteiro sem medo de levar um caldo. Quem tem medo fica deitado agarrado na sua prancha. Ainda que tenha medo, eu sempre tento ficar de pé.

Em tempo: essa tem sido uma época muito produtiva e criativa. O Agridoce lançou agora um EP digital no Itunes com lados B das gravações e uma música inédita. Acabamos de lançar também um DVD chamado “Multishow Registro: 20 Passos”, que é um documentário/filme sobre os dias em que ficamos isolados do mundo numa casa gravando o disco. E no dia 27/05 o Multishow vai exibir um especial na TV com trechos desse DVD e um show ao vivo na íntegra.



Adiós, 2011 by Pitty
23/12/2011, 12:00 am
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Que ano estranho, esse tal de 2011. Começou cheio de promessas, misterioso, e de repente se tornou quente, atribulado, atropelador. Ano de reviravoltas. Tretas no mundinho independente, muitos shows gringos e festivais, muita gente lançando disco bom e ninguém sabendo, muita gente falando merda e todo mundo ouvindo. Pra mim particularmente, um ano extremamente produtivo criativamente, de muito esforço braçal para coisas a longo prazo, de coragem para desconstruir velhas fórmulas e apostar que a arte vence no final. Ano de ter paciência, enfim. Parece ter sido hora de plantar, de cultivar.
Se minha esperançosa intuição estiver correta, 2012 será o ano de colher.


No que diz respeito à minha vida profissional, assim está: com a minha banda, encerramos mês passado a turnê do DVD "A Trupe Delirante No Circo Voador" e estamos de férias. Depois de anos emendando uma coisa na outra é hora de dar aquela parada pra recarregar as baterias criativas e emocionais. Refazer planos, se inspirar novamente, buscar novo gás ao invés de se contentar com o terreno cômodo já conquistado. Tenho um pavor pessoal a mais do mesmo, mesmo que pra alguns esse "mesmo" seja bom. Eu quero é o futuro, seja lá o que ele for.

Enquanto estamos de férias, aproveito a brecha na agenda para tocar por aí com meu projeto paralelo, o Agridoce. Pra quem não sabe, acabamos de lançar um disco homônimo que no final das contas foi pra mim a grande aventura de 2011. Tem sido divertido, instigante e também um pouco estranho fazer isso. Ou seja, tem sido ótimo. Temos vários shows marcados, quem quiser saber as datas e ouvir as músicas vai aqui: www.agridoce.net  ou aqui @Agridoce

Então é isso. Continuo escrevendo sem parar, com a cabeça fervilhando de ideias a cada minuto e a alma sedenta de que, nesse próximo ano e cada vez mais, eu possa sobreviver de arte nesse país sem precisar aturar esse monte de baboseira que inexoravelmente nos cerca. Que restem os bons.

Ótimo fim de ano a todos e 2012 abundante de tudo o que desejar.


Agridocelândia by Pitty
02/08/2011, 12:00 am
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Ansiedade na noite anterior. Imaginando. Moleculando.

Acordei cedo na manhã seguinte e fui juntar todas as coisas. Mala para um mês, equipamentos, chocalhos, violões, glockenspell, escaletas, tudo o que fizesse algum barulho interessante. Martin chegou. Fomos carregar o carro. Claro que não coube tudo. Tivemos que deixar o Moog e o ampli de violão para a próxima leva.

Estrada. Trânsito pra sair de São Paulo. Fomos nos confiando no tal do Google Maps do celular, e ele nos mandou por um caminho alternativo muito doido. Selva total. Fomos adentrando cada vez mais, nos embrenhando, estrada de terra. De repente, não tinhamos mais sinal de celular. Estávamos por nós mesmos, no meio do mato, num lugar ermo com absolutamente nada em volta. Uma estradinha de terra esburacada e estreita, mal cabia um carro. Não tínhamos outra opção a não ser seguir adiante para ver no que dava, e o mato ficando cada vez mais alto, e a estrada cada vez menos visível. Parecia que ela ia afunilando, e a qualquer momento terminaria repentinamente num beco sem saída verde e denso. Sem sinal, fuck. A bolinha azul do GPS não andava nem por decreto. Subimos, descemos, buracos, um barraco solitário na lateral da não-estrada. Meio que aconteceu o que eu previa. Chegou uma hora que não tinha mais como ir adiante, e nem fazer o retorno porque não havia espaço. Achamos um jeito, e resolvemos voltar. “Vamos perguntar pra alguém”. Não havia viva alma por perto, e o único cidadão que cruzamos parecia saído de um road movie de terror. Ele mexia numas carnes cruas dentro de uma bacia imunda. “Não vou perguntar pra esse cara nem fodendo, Martin”. Voltamos a estrada toda até que enfim o celular deu um mini sinal de vida.

Achamos um mercadinho de beira de estrada, e perguntamos. “Volta tudo, pega essa avenida asfaltada aí até o fim”. Asfalto pelo menos, ufa.  Dirigimos mais um tempão, curvas sinuosas, rios, caminho bonito. O sinal sumiu de novo, mas a bolinha era nossa amiga e se movia mesmo assim (vai saber). Mais umas duas mini perdidinhas e enfim, ENFIM, ENFIIIM chegamos.

Meu maior desejo era que meus olhos fossem câmeras e gravassem certas cenas para que eu pudesse compartilhar depois. A visão do portão da CASA sendo aberto por Rafa, com uma plaquinha daquelas de jardim na mão escrito “aqui tem gente feliz” me fez lembrar desse desejo. Ele ficou “parkeando” o carro com a plaquinha na mão, como aqueles caras nas pistas de pouso, indicando o lugar que eu deveria estacionar. Impagável.

A CASA é um absurdo. Minha primeira visão ao adentrar pela porta foi o piano, lindamente colocado no centro da sala, num tablado de madeira que já existia, sob um lustre pomposo. Preto. Lindo. Um Fritz meia cauda.

Descarregamos tudo, e a euforia da chegada. Lá já estavam além de Rafa, Tavinho, nosso fotógrafo-videomaker-documentador dessa aventura; e Jorjão, nosso engenheiro de som gente boa e caladão.  Fomos fazer um tour pelo nosso parque de diversão nesse mês inteiro. A sala enorme, móveis antigos, um cantinho que era perfeito para a técnica. O gravador de rolo, a monitoração, a mesa de som e tudo o mais. Na parte de baixo, a piscina, churrasqueira, mesa de sinuca e pingue-pongue. Um cachorro bem vira-latinha, todo fofo e bem imundo, que precisava ser batizado. Primeiro era Bob, ele tem olhos de Bob e o Marley tinha nos ajudado a chegar aqui mandando good vibes através dos falantes do carro. Depois pensamos melhor, e o batizamos de Beto Bruno. Ele tem a ver com o Beto também.

A essa altura já era noite, e a fome apertou. Martin fez um macarrão com uma receita que, disse ele, “é aquela clássica sua, mas melhorada”. Vinho pra acompanhar, e a mesa de jantar já virou um brainstorm do que seria essa gravação, do que faríamos nos próximos dias, planos, delírios, possibilidades. A ideia de gravar um disco num esquema desses- casa no meio do mato com os equipamentos disponíveis e imersão total de todos os envolvidos- era um sonho antigo meu. Sempre quis fazer isso desde que assisti o Funky Monks dos Chilli Peppers, e imaginava que esse clima era perfeito para uma sonoridade como a do Agridoce. Martin também compartilhava dessa vontade, e Rafael, parceiro, entusiasta e aventureiro como sempre, comprou a briga. E aqui estamos nós.

Depois do jantar, hora do ensaio. Demos uma passada nas músicas para lembrar a forma, fizemos a audição de algumas demos que tínhamos gravado na minha casa. Noite adentro, Martin pega o ukulele. Eu pego um tecladinho Casio. Ele tinha feito uma música e pediu pra eu inventar alguma coisa. Saiu a música mais brega, fofa e de churrascaria que a gente poderia fazer na vida. Estávamos brincando, e estava divertido. Resolvemos gravá-la de qualquer jeito, só pra registrar o momento. Rolou até umas maracas. Ficou uma coisa meio mariachi, eu cantarolando qualquer coisa num portunhol bem safado. Crises de riso.

Quatro da matina. Hora de dormir, que amanhã é que a brincadeira começa de verdade.