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Small Talk by Pitty
07/12/2016, 9:17 am
Filed under: Blog

“e aí, como você está?”

pra quê as pessoas perguntam isso quando elas não querem realmente saber? você recebe a pergunta, esperando que ela não seja retórica principalmente quando vem de gente próxima, ou que parece de fato se importar. e aí quando começa a responder, no meio de um relato ou desabafo vem o corte: “ah, mas é assim mesmo, isso vai passar, relaxa”. ou “mas olha como não-sei-quem está pior”. ou ainda “mas veja pelo lado bom…”

 
a intenção dessas falas até acredito ser boa; mas, na boa, muitas vezes isso soa apenas como preguiça disfarçada de consolo. desdém disfarçado de otimismo. apontar a situação pior do outro não faz com que a sua automaticamente melhore, porque a gente sente o que gente sente; e isso é grande, intenso e merece ser olhado sem desprezo.  quando você percebe no interlocutor que um sentimento que pra você é grande para ele é pequeno e irrelevante, a conversa se torna automaticamente superficial e previsível. o dito small talk, pra cumprir tabela, a modo de dizer. e aí o “como você está” acaba se tornando um mero acessório; seja pra aliviar a culpa de quem pergunta (ah, mas eu me importei, eu liguei pra saber como estava); seja como veículo para chegar no que a pessoa realmente queria: falar dela mesma. você começa a responder, de fato, como você está e o que está sentindo; e é interrompido por um ..”pois é, e eu que…?” e segue, ad infinitum, no eu, eu,  e eu, mas eu, e porque comigo.
e de repente você se sente meio besta quando a ficha cai: o objetivo desde o começo não era saber de você, e sim ter um gancho pra falar de si. aquela pontadinha de frustração que fica só lá dentro, a cara intacta, não querendo retribuir a deselegância com o mesmo.

e acho que é assim que se reconhece um grande amigo ou amiga; um grande parceiro ou parceira: quando não se perde tempo com “small talk”. quando um e outro se ouvem, profundamente, sem preguiça, com vontade e curiosidade de ir a fundo e esgotar a questão. quando não se tem medo disso, quando a conversa não se limita.

porque senão, é adotar a postura convencional e se conformar em viver sob esta condição de que ninguém quer mesmo saber. é claro que isso faz parte da vida também, não dá pra ter essa relação mais profunda com absolutamente todo mundo. mas com alguém. alguéns.

porque senão a vida vira um constante teatro farsesco de “como você está?” “estou ótima!”;
a cara linda e o coração sangrando.


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Empatia, hoje em dia, quase extinta; suprimida por tantos estímulos que fazem tudo soar cada vez mais artificial e limitado. É um descaso generalizado e muito bem camuflado. Aquele ditado de que “temos dois ouvidos e uma boca” nunca foi tão válido: Saber ouvir é tão importante quanto saber falar.

Comment by carlosvalverde

Na maioria das vezes, perguntamos “como está?” como quem diz “que calor!”, mais pra puxar conversa mesmo. Função fática da língua.

Comment by will

A maioria das pessoas que perguntam se está tudo bem não está interessada na resposta sincera e, por outro lado, nós também não estamos sempre dispostos a dizer a verdade sobre como estamos. É mesmo um teatro introdutório a conversas, muitas vezes banais.

Comment by Juliana Xavier

Infelizmente o SMALL TALK, está presente em nossas vidas dia a dia. Passo sempre isso com o meu marido. Me pergunta se está tudo bem, mas qdo começo a falar, vejo q está no outro mundo, mas qdo chega a vez dele falar eu tenho q ouvir!
Acredito q na vida ele eh o q mais realiza o SMALL TALK comigo, sabe do pior, q quando eu nem estou sem saco para falar, mas ele insiste q eu fale, ele sempre se dispersa no meio! Me sinto igual a esse momento q vc descreveu: “Com a cara linda, mas o coração sangrando!
Pelo menos para mim, o melhor jeito de não sangrar mais o coração Nao se abrir para outras pessoas, tem casos q prefiro guardar somente comigo, assim eu fico menos aborrecida!
Força ai mamãe! Feliz 2017!

Comment by Vivian

Noxxa, que linda , está na televisão , no Saia Justa, dando opiniões fofas , usando da sua sabedoria linda , de gata experiente. Muito Linda. Vai ficar lá agora , fofa?

Comment by Alex Lope Vargat dos Santos

Uma coisa que você passou despercebida , faz dez pra onze anos que você tem esse blog, e não comemorou com os fãs , muita gente cresceu ouvindo você , e talvez nem acesse mais aqui. Não tira ele do ar não , ele vai fazer parte das suas memórias daqui a dez anos mais, você tinha 29 pra 30 anos quando começou , hoje é uma mulher experiente , observe como os seus fãs mudaram também , muitos tem filhos são casados ou descasados. Eu só conheci você em 2011, como a Amy Winehouse e a Lady Gaga , entre outros artistas, isso foi porque eu queria fazer uma pesquisa sobre o gosto musical dos jovens da época , como você pode ver ainda tinha qualidade nesse tempo, vai demorar até surgirem novos ícones …se a indústria da música não falir antes …ou se é que já não faliu …como eu te disse uma vez …tem que se investir em publicidade hoje em dia, associar seu nome as empresas …com mais de cinco milhões de fãs fica fácil viver de música …Beijos..

Comment by Alex Lope Vargat dos Santos

“A cara linda e o coração sangrando” foi bem sacado!
Já imagino isso como o pré-refrão daquela música que de repente toca e… ah! Nossa!
Visceral.

Quantas(os) artistas hoje em dia conseguem fazer poesia tão profunda em um único verso? Em prosa?

Vai, eu espero o tempo que for pra ter um novo CD. Vale a pena.

A propósito, comé que cê tá?

Comment by Dowglasz




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