prato_do_dia
Baianidade nagô by Pitty
27/11/2016, 10:13 am
Filed under: Blog

 

Hoje vi uma matéria no jornal sobre 100 anos do Samba, e um recorte sobre o samba da Bahia. Meu Tio Clarindo estava nesse recorte, e falando do Terreiro de Jesus, da Cantina, samba do recôncavo, Riachão, Batatinha, etc.

Foi aí que me dei conta: não é que eu sou baiana não, é que eu sou baiana páporra!

Caiu a ficha de que minha primeira infância foi ali, vivida naqueles espaços que as pessoas entendem como “Salvador”, a cidade turística. Os paralelepípedos do Pelourinho eram meu caminho diário, entre minha casa na Ladeira do Prata e o Terreiro de Jesus, onde minha mãe trabalhava numa sapataria ao lado da Cantina da Lua. Eu brincava ali, eu existia ali.

O Elevador Lacerda pra nós era simplesmente um meio de locomoção; quando minha mãe tinha que resolver coisas no “Comércio” (Cidade Baixa) havia duas formas possíveis, pegávamos o Elevador ou o Bondinho.

Primeiro o bar, e depois o restaurante de meu pai também ficavam na mesma região, na Ladeira de Santana; uma ladeira paralela à do Prata. Todos os caminhos levavam ao Pelourinho, que nada mais era do que o local onde ficava o trabalho de minha mãe e o restaurante de meu tio, a Cantina da Lua.

Cresci ali; entre rodas de capoeira e batuques nas esquinas; entre turistas e locais, observando o maravilhamento – e muitas vezes a inocência-  dos “forasteiros”. Sendo local, percorria e conhecia não somente a fachada maquiada; mas as vielas, os casarões úmidos, completamente misturada ao povo preto que devia, por direito, ser dono daquele pedaço de chão. Na verdade, na minha cabeça infantil não existia “povo preto” e “povo branco”; existia o povo. Os negros são maioria absoluta na Bahia, nasci e cresci com essa realidade e isso sempre foi o natural pra mim. Estranhei mesmo é quando vim pra São Paulo; e, morando no centro da cidade, achava esquisito não ver tantos negros no mesmo espaço que eu como estava acostumada.

Voltando ao meu quintal de brincadeiras e descobertas da infância, o Pelourinho: as rodas de capoeira, a cantilena dos vendedores ambulantes, os repentistas, as baianas de acarajé, o tabuleiro de quebra-queixo e cuscuz de tapioca, os trabalhadores, os gringos com suas cores e roupas diferentes, os turbantes, as túnicas coloridas e os atabaques, as mulheres fazendo trança nas esquinas, as cadeiras de plástico na frente das casas, as igrejas, o vendedor de picolé Capelinha, os cachorros e gatos pelas ruas, o cheiro acolhedor de dendê que inunda tudo no fim da tarde. Cenas, cores e sons do meu cotidiano. Que delícia lembrar disso tudo.

Ler essa matéria trouxe à tona todas essas memórias.

Sessãozinha de análise involuntária num domingo qualquer de manhã.



ZzzZzzzzZ by Pitty
01/11/2016, 6:36 pm
Filed under: Blog

não ter tido tempo pra escrever me dá uma certa aflição, como se estivesse tudo bagunçado e eu não conseguisse botar nada no lugar. como se eu precisasse achar um objeto no meio de um entulho, como se estivesse pescando de mão em águas turvas.

quando escrevo, eu me organizo.

não há tempo, os dias vêm e vão e eu quase nem percebo; que dia é hoje? e ainda se fragmenta em pedaços menores; que horas são?
parece um sonho, não no sentido idílico, mas como uma névoa diante do olho que faz com que tudo pareça esmaecido e irreal; imaginei ou aconteceu? escutei ou inventei?
deve ser o sono.