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normatividade patriarcal na educação by Pitty
29/05/2016, 10:45 am
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a pessoa lê “os estupradores eram homens (e não seres mitológicos) e entende como “todo homem é um estuprador”. como chegamos a isso?

eu detesto esse papo de “as pessoas não me entenderam porque elas são burras”, acho pedante. acredito em comunicação como via de duas mãos, mas em certos casos é preciso observar o alcance de entendimento e mensurar o nível de ignorância, principalmente em relação ao subjetivo, ao figurado e ao metafórico.

na questão dessa semana em particular, me surpreendeu o baixo nível cognitivo e falta de capacidade de interpretar uma sentença simples- subjetiva, mas simples.
claro, houve também a má-vontade e a manipulação: depois percebi que algumas páginas direcionaram a informação nesse sentido, e usaram isso como ataque por serem contra tudo que acredito: são machistas, homofóbicos, defensores de pena de morte, tortura e outras crueldades físicas e psicológicas. acho isso tudo péssimo, e não acredito em violência como solução para a violência. acredito em conscientização, direitos iguais, justiça e educação; e esse era o ponto. essa era a chamada de reflexão da fala: como estamos educando nossos meninos e homens?

NÓS sim, enquanto sociedade.

eu, você, cada um de nós. não adianta lavar as mãos. se a pessoa não enxerga a relação entre violência contra a mulher e a forma que educamos nossos meninos e homens, já começamos com um problema. a educação das meninas também, por tabela nessa normatividade patriarcal que as ensina a se reprimir, a terem medo de se vestir, de andar na rua, de se expressar. mesmo a educação dentro de casa sendo exemplar, os meninos e meninas vão lidar com isso da porta pra fora, vocês sabem disso. nós lidamos. nossos filhos vão lidar, e nossos netos e bisnetos, a menos que a gente comece a olhar essa questão com honestidade, reconheça que isso acontece e quebre esse ciclo.
 
você ensina seu filho a respeitar as mulheres, e na roda de amigos ele vai ser chamado de frouxo porque não engrossou o coro de “gostosa” quando uma menina passou por eles.
você o ensina que “não é não”, e no banheiro da escola ele vai ser ridicularizado porque não conseguiu “traçar a mina”.
você mostra a ele que homens e mulheres têm os mesmos direitos, mas na rua ele vai se sentir impelido a corresponder à esse padrão que diz que “mulher tem que se dar ao respeito”. “se estava na rua é porque estava pedindo”; e todos esses absurdos que a gente vê serem repetidos todos os dias
está claro o sentido do “aprendem”?

esse conjunto de situações de desigualdade de gênero, objetificação, desumanização e culpabilização da mulher é o que se chama de cultura do estupro.

aí eu volto na ignorância: “como assim estupro é cultura, que absurdo”. pois é, eu tive que ler isso, rs.
ninguém tem obrigação de nascer sabendo, mas cadê a curiosidade, a vontade de aprender? será que antes de escrever uma bobagem assim a pessoa não pensa “hum, o que será isso? deixa eu procurar saber”. e hoje é tão fácil, com um clique isso se resolve. se a pessoa tivesse pesquisado, teria descoberto o que significa o conceito de cultura do estupro, e por quê esse termo é usado. pode concordar ou não, mas pelo menos saberia do que se trata.

meu chamado desde o começo foi à reflexão. não adianta vestir a carapuça. é preciso tirar o ego da frente e discutir questão de gênero de forma ampla e honesta.
quando não fazemos isso ou lavamos a mãos, nossa responsabilidade sobre toda violência que permitimos que aconteça com as meninas e mulheres aumenta