prato_do_dia
Message In a Bottle by Pitty
22/09/2015, 3:50 pm
Filed under: Blog

fazia tempo que eu não vinha aqui. e esses dias me peguei refletindo sobre por quê eu parei de postar no Boteco.
escrever, escrevo sempre, o tempo todo. continuo com meus rabiscos, ideias e aforismos fluindo dos dedos pro papel. mas fui sendo cada vez mais criteriosa na hora de compartilhar por não querer contribuir para o entulho do que eu chamo hoje de “mar de links”; essa overdose de informação na qual a gente vive onde todo mundo fala tudo o tempo todo- e muitas vezes não se fala nada.
hoje, todo mundo tem um blog, um site, uma rede social, todo mundo quer falar, todos têm opinião. isso é uma coisa boa do ponto de vista da democratização de informação, do exercício de liberdade de expressão, do livre pensar. por causa da internet, não se depende mais de um veículo impresso ou de um programa de tv para expressar um pensamento; você pode escrever um texto, gravar um vídeo, etc- o alcance que isso vai ter depende de circunstâncias diversas- mas é possível. como bem disse Mano Brown numa entrevista, hoje todo mundo é mídia.

mas parece que ainda estamos aprendendo a lidar com esse “brinquedo novo” que é a facilidade de compartilhar uma opinião, sua vida pessoal ou notícias. e acho que o cansaço vem daí: da banalização da informação, de todo mundo falando sobre tudo ao mesmo tempo e muitas vezes ninguém se ouvindo. dessa falta de noção da importância- se eu sou minha própria mídia devo estimular o interesse das pessoas, e devo supor que elas se interessem por qualquer coisa que eu faça ou diga- mas isso na verdade muitas vezes só engrossa o lodo desse mar de links. ora, eis o conflito: se eu tenho liberdade de me expressar e me foi dada essa oportunidade através de ferramentas que reforçam minha identidade, então o que eu digo é importante.  mas todos estão fazendo o mesmo e eu sinto a pequenez de ser mais um nessa multidão gritando para ser ouvido; bem, eu não sou tão importante assim. grandes coisa o que eu penso, a minha selfie, um novo trabalho. nesse tal mar de links, as ondas se sucedem muito rapidamente e tudo submerge.
são muitos por dia; quinze novos discos, dez vídeoclipes, inúmeros textos, quantas fotos, como ver isso tudo?, como escolher qual disco ouvir qual texto ler qual vídeo assistir? como estabelecer critério?
com o quê gastar meu tempo e atenção, porque não vai caber tudo. e essa ansiedade de deixar informações pra trás, como se estivéssemos correndo atrás de um trem desgovernado que passa voando pela estação e se quiser embarcar, amigo, só pongando nele na base do pulo.

encafifar e refletir sobre isso foi o que me fez questionar e compartilhar menos. minha escrita sempre foi solitária, auto-analítica e egocêntrica. e por isso mesmo, terapêutica. mas talvez só pra mim.
passei a me perguntar: isso é relevante de alguma forma que não seja só pra mim? nem sempre tenho a resposta, e na dúvida, fico quieta. mas andei sacando que é uma quietude reprimida, e não pacífica. agora acho que é encontrar a medida e desreprimir um pouco, me permitir postar sem esse tipo de preocupação ou expectativa, tirar o ego da frente no sentido de se alguém se incomodar, sorry, vou escrever sobre mim mesmo porque é o único assunto sobre o qual tenho conhecimento de causa (e olhe lá).  e “mim mesmo” são nossas opiniões e pensamentos também.

é uma mistura de bode com cansaço e tédio. gente que flooda, a carência, o me segue, os comentários de portal, gente que acha que tem que ter opinião sobre tudo, e eu mesma na selfie do espelho.
estamos falando sobre democratização e liberdade de expressão, e talvez liberdade não rime com responsabilidade à toa. acho que estamos aprendendo a lidar com essa época e esse poder de se expressar. estamos experimentando esse poder e testando seus limites- e acho isso uma coisa boa. internalizei umas perguntinhas básicas as quais me faço antes de apertar o “send”:
isso é importante? (para mim, para os outros ou para ambos)
e, quando em algo dirigido à alguém ou sobre alguém: eu diria isso na frente dessa pessoa? (essa é muito, muito importante)

(acabei de escrever e já tô aqui pensando em nem postar. mas vou, como uma espécie de exercício da tal desrepressão. quem sabe eu volte outro dia mais leve.)