prato_do_dia
Serpente- o vídeo by Pitty
12/11/2014, 6:55 pm
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no sábado passado lançamos o segundo videoclipe do disco novo, da música Serpente.  eu já tinha uma ideia de roteiro antes mesmo de saber que esse seria o segundo single; mas ficava tímida em comentar e também queria deixar o diretor livre caso ele tivesse uma ideia mais bacana. decidimos filmar com o Charly Coombes, que além de diretor é um músico talentoso, e nos nossos primeiros brainstorms fui deixando a coisa rolar. mas algo me dizia que valia a pena insistir na história do ritual, comentei e ele gostou. começamos a formatar as ideias, e piramos em fazer uma espécie de curta. queriamos contar uma história com começo, meio e fim; há tempos a gente não fazia um clipe mais linear.
alguns detalhes eram de extrema importância pra mim nessa história. que essa “seita” fosse matriarcal, que trouxesse o poder do feminino e de todas as deusas representadas em diferentes culturas, mitologia, rituais pagãos, religiões afro-brasileiras. que não fosse focada em uma única ideologia, que fosse diversa e representasse o coletivo. e que dialogasse com a nossa própria cultura folclórica, os nossos mitos da floresta. dito isso, entendemos que teríamos que inventar o nosso próprio ritual de cura.  
foi divertido explicar pro Charly, um americano criado na Inglaterra sobre Curupira, Pajé, Iansã. ele captou todas essas referências, e mais o hinduísmo, o mantra de Shiva presente na canção, mitologia greco-romana e especificamente Baco, o deus dos prazeres. precisávamos de um símbolo que fosse o elo entre os iniciados nessa seita inventada, e pedi pro Martin desenhar. e tínhamos essa coisa do fogo como elemento catalisador dessa junção toda. Charly estava muito empolgado em filmar o fogo e já tinha várias imagens na cabeça; as pessoas em volta, os pés, as palmas, a catarse. precisávamos de gente para essa cena da fogueira, e fomos recrutando os amigos. quando começamos a levantar os nomes, percebi um desequilíbrio: esta lista era majoritariamente de homens brancos. comentei com eles e concordaram; precisávamos de mais mulheres, negros, e se desse até indio; para representar de forma mais democrática a nossa sociedade, ou pelo menos, o mundo que queremos. pode parecer uma bobagem, mas não é: nos detalhes da arte se faz política também.
assim como no outro detalhe de optar por um homem para o papel do cara no bar; as mulheres já são vítima de diversas coisas na vida real, e eu não endossaria essa posição num vídeo meu. mais uma vez, é nessas pequenas coisas que vamos construindo imageticamente a realidade que queremos.
e foi lindo lá na hora. estávamos todos entregues. decorei umas palavras em iorubá para dizer na fogueira, na hora do ritual. o vento soprou, e eu me arrepiei várias vezes. não sei se o vinho, se as palavras, a lua cheia, a energia daquelas pessoas, se tudo isso junto. mas rolou um lance. saímos de lá com uma sensação muito boa. veio todo mundo: as deusas, Baco, Shiva, Iansã, o Pajé, Lilith, Maria Madalena, Ártemis e as coisas que não têm nome. sou de todos e não sou de ninguém. se faz bem, é bom.
e no dia seguinte filmamos a cena do bar, com os meninos protagonizando lindamente.

meu enorme agradecimento a todos que participaram desse vídeo e a Minha Pedra que concedeu a “floresta”, vocês foram essenciais para este resultado.

está no ar! espero que curtam 🙂