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O taxista e a Rádio Rock by Pitty
18/03/2013, 12:47 pm
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Gosto muito de histórias de taxistas e já passei por algumas incríveis. Gosto tanto que pensei até em criar uma série de crônicas sobre esse universo, mas soube que meu amigo Spencer também gosta e já escutou umas bem surreais, e fico imaginando que as histórias dele seriam melhores do que as minhas porque ele escreve bem e tem uma narrativa deliciosamente bukowskiana. Aí guardo só na minha cabeça, ou eventualmente num caderno ou outro.

Só acontece do jeito que eu gosto quando o motorista não me reconhece, quando eu sou uma folha em branco. Porque aí funciona que nem a coisa da psicanálise: ele está de costas pra mim sem ler minhas reações corporais (exceto em fragmentos pelo retrovisor, mas a quase totalidade do tempo ele está olhando pra frente- por favor!); e ele não sabe nada sobre mim portanto não faz julgamentos e isso impede que ele “doutrine” suas ideias e comentários para se encaixar no que ele espera que me agrade. Pois bem.

Entrei num taxi, dei o endereço, e percebi que o rádio estava ligado na recém ressuscitada 89 FM, agora novamente como a Rádio Rock. Puxei assunto, porque queria saber que efeito essa volta tinha surtido nas pessoas do mundo real.

– É a 89, né, eu soube que voltou. E aí, tá legal?
– Pois é, voltou sim, na mesma pegada de antes. Tá igualzinho ao que era, meu.
– Huum…  e você já curtia antes?
– Ah, total, das antigas. Eu tô curtindo, ouço direto no carro, quando a rádio virou pop foi chato porque ficou igual a todas, né.
– Sei… (do tipo, “conte-me mais”…)
– Pô, pra galera que gosta de rock é um alívio, onde é que eu ia escutar Raimundos, Red Hot, System, de tarde, no rádio? Aí, ó…

( e aumentou o volume um pouco, tava rolando Chop Suey, do System of a Down)

O papo foi nessa pegada até o meu destino, mas foram essas observações acima que me fizeram pensar.

Me intrigou o fato de ele só citar bandas dos anos 90 e 2000, ou seja, coisa de no mínimo dez anos atrás. E de ele parecer valorizar o fato de que “estava igualzinho a antes”. Talvez, para ele,  a coisa boa era a identificação com o que já se conhece (e isso é confortável), e também um resgate de juventude. Um resgate da identidade que estava adormecida e ressurgiu do mesmo lugar em que parou.

Dos amigos e pessoas do meio, tinha escutado que sentiam falta de coisas novas, de bandas nacionais, que não fazia sentido ouvir “Alive” do Pearl Jam pela milésima vez. Entendo esse lado também, especialmente como músico. Mas foi bom ter contato com a perspectiva “da rua” e perceber que existia essa outra sensação; isso me fez questionar se era assim que o grande público da rádio se sentia. Pensei também que essa podia ser uma estratégia da rádio para reagrupar as pessoas e consolidar o terreno para esta volta: “olha, nós somos aquela que vocês gostavam, lembra?”; e depois disso estar devidamente sacramentado abrir espaço para tudo o que pode ser uma rádio de rock nos anos 2013.

Torço por isso e recebo a volta da 89 com otimismo, expectativa e boas vibrações.