prato_do_dia
A Onda by Pitty
22/05/2012, 11:07 am
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Tudo bem quando dizem que o tempo é relativo, eles estão certos. Especialmente quando se referem ao tempo das artes: esse é relativíssimo, e aprendi isso na prática.

Estava aqui pensando sobre o tempo ao meu redor. Tudo tem acontecido aos montes e freneticamente, e confesso que me agrada esse turbilhão. Tenho feito mil coisas ao mesmo tempo e no fim do dia sempre restam algumas por fazer. O Agridoce que começou tão paralelo, tão distração, se tornou a totalidade desses meus dias por conta das circunstâncias. O disco cresceu e ganhou vida própria, e foram aparecendo muitas coisas boas pelo caminho. Shows. Especiais pra TV. Oportunidades artísticas instigantes.

O recesso em que minha banda de rock entrou no fim do ano passado abriu espaço para que eu pudesse me dedicar mais a esse projeto. Um recesso que foi necessário por diversas questões, algumas alheias a minha vontade. Eu tinha duas opções: continuar do jeito que estava, com tudo internamente bagunçado, fim de semana após fim de semana movida por expectativas externas e correr o sério risco de transformar minha obra num arremedo, num mero “bater de cartão”. Ou arrumar a casa, se renovar, se afastar e olhar de longe para não se perder de si mesmo. Obviamente escolhi a segunda alternativa porque me lembro sempre: desde que resolvi montar banda lá na adolescência, meu único compromisso é com a arte e com a expressão sincera da mesma. Não sei dizer isso em palavras que não soem como uma frase feita, mas é a real.

E é por causa desse compromisso ao qual não sei fugir mesmo que quisesse, que as coisas estão assim. Minha banda de rock está em recesso até a hora em que me aconteça aquela gana de escrever, criar, gravar. Aquela velha fagulha que dá início a tudo. Aquela fagulha que não se provoca nem se comanda; ela é. Isso pode ser amanhã ou daqui a tempos. De novo, o tempo das artes, aquele relativíssimo. E quando ele vem é sempre poderoso e forte, porque é honesto.

Existem outros tipo de funcionamento; tem muita gente que vive bem assim, entregando encomendas, satisfazendo apenas uma demanda de mercado. Eu mesma poderia pegar três ou quatro fórmulas, bolar um hit redondinho com as coisas que eu sei que funcionam e voilá, tem-se um disco. Mas acho triste. Meu âmago grita que isso seria uma traição sem tamanho; comigo mesma, com os outros, com o que a coisa é para ser. E eu me odiaria por isso.

Então é saber respeitar o tempo das coisas e estar de instintos a postos para o chegar da fagulha. E enquanto isso, aproveitar as coisas ótimas que têm acontecido e que têm me alimentado profundamente. Pegar essa onda que cresceu e dropá-la por inteiro sem medo de levar um caldo. Quem tem medo fica deitado agarrado na sua prancha. Ainda que tenha medo, eu sempre tento ficar de pé.

Em tempo: essa tem sido uma época muito produtiva e criativa. O Agridoce lançou agora um EP digital no Itunes com lados B das gravações e uma música inédita. Acabamos de lançar também um DVD chamado “Multishow Registro: 20 Passos”, que é um documentário/filme sobre os dias em que ficamos isolados do mundo numa casa gravando o disco. E no dia 27/05 o Multishow vai exibir um especial na TV com trechos desse DVD e um show ao vivo na íntegra.