prato_do_dia
O Bicho by Pitty
22/03/2011, 12:00 am
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o bicho vivia na mata; livre, selvagem, indomado
caçando se tinha fome, dormindo se tinha sono, copulando quando no cio
o bicho era bicho solto

um dia, um pedaço de carne numa clareira, e o bicho seduzido
o bicho era sorrateiro, apanhava a barganha e fugia rápido, quase imperceptível
e todo dia ele voltava naquele lugar
e todo dia havia pedaço de carne mais suculento que o anterior
conquistado pela oferta fácil e cada vez mais abundante
o bicho abriu a guarda
o bicho acostumou

o bicho foi aprisionado

colocaram-no numa gaiola
tiraram-no do seu mato
reproduziram seu ambiente em plástico
naquele zoo
o bicho estava para ser visto
o bicho estava domado
o bicho era bicho cativo

dia após dia gente passava pelo seu cárcere
olhavam-no com curiosidade, ofereciam-lhe alimento
esperavam ansiosamente o momento
em que o bicho fosse bicho
tão agradável e seguro que ele fosse bicho dali de dentro!
que deleite aquelas barras de ferro, que maravilha, finalmente temos o bicho!

mas o bicho, murcho. sem vida. sem cor.
sem saber se ainda era bicho, ou se era artefato

“queremos ver o bicho rugir!”- diziam
e o adestrador cutucava o bicho, espezinhava o bicho, provocava o bicho
o bicho rugia, toda a gente aplaudia
davam-lhe mais uma porção, e passavam adiante
o próximo bicho, o próximo habitat inventado


e ficou assim até o seu fim
criado domesticado, esperando uma mão entre as grades,
um pedaço de carne e um agrado,
alguém qualquer que quisesse seu rugido murcho de bicho- espetáculo.

"O bicho, meu Deus, era um homem."
Manuel Bandeira



E lá se vão oito anos… by Pitty
12/03/2011, 12:00 am
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Tô aqui no meio do mato com internet à lenha: às vezes pega fogo, às vezes nem dá sinal.

Mas vendo a galera no Twitter comentando sobre o lançamento de Máscara oito anos atrás, me lembrei de muitas sensações também antigas.

Eu tinha ido pro Rio de Janeiro sozinha, o disco já estava gravado mas a banda ainda não estava totalmente definida. Fiquei um par de meses imersa numa solidão absurda dentro de um apartamento na Barra da Tijuca; eu e a apreensão, a expectativa, a icógnita. Não tinha muitos amigos por lá e todos tinham suas próprias vidas; perdi a conta de quantas vezes perambulei por aquela orla pensando, pensando, pensando.

O que seria, aquilo? O que aconteceria quando o primeiro single do disco fosse lançado? Trabalharíamos finalmente, seríamos a banda de rock que sonhei desde menina com muitos shows pra fazer, em cidades diversas? Eu conseguiria, como nos meus devaneios loucos deitada sozinha na minha cama em Salvador, viver de rock nesse país? Ou morreria na praia como tantas outras bandas-artistas-promessas que já trilharam esse caminho?

Eu não sabia. Eu não tinha a menor ideia. Mas eu precisava tentar, buscar, arriscar, dar a cara pra bater. Era o agora ou nunca. Não criava expectativas megalomaníacas; procurava dar um passo de cada vez. Passos curtos se necessário, porém firmes.
Eu não sabia detalhadamente o que eu queria ser ou até onde poderia ir; mas eu sabia exatamente o que eu não queria. Essa certeza dos “nãos” junto com minha inexorável cara de pau e os arroubos naturais de quem não tem nada a perder me ajudaram bastante.

Havia, na gravadora, uma certa apreensão (pertinente) com relação à Mascara ser o single de estréia do disco. Muita guitarra, pesada, quase cinco minutos de música com parte em inglês e o escambau. Estranhão. “Anti- comercial”. Cogitaram-se outras opções de single. Mas rolava um feeling em mim de que, naquele cenário de nhénhénhé em que se encontrava o rock brasileiro, tinha que acontecer alguma coisa muito oposta, muito antagônica, muito contrastante para surtir algum efeito. Tinha que apostar alto nesse jogo, jogar a carta mais arriscada na mesa. Ganhar tudo, ou perder.

Defendi com uma convicção meio kamikaze, Lobatto, Rafa e enfim a gravadora apoiando essa ideia; e Máscara foi lançada. E foi estranho mesmo. A princípio as rádios não queriam tocar, as únicas rádios de rock que ainda haviam à época compraram a briga, e a coisa foi rolando muito aos poucos. Gradativamente, felizmente e surpreendentemente pra mim, as pessoas ligavam pra pedir a música; e ela ia galgando de estação em estação. O clipe ajudou muito; a MTV exibiu algumas vezes e a notícia de que as pessoas queriam vê-lo cada vez mais me enchia de ânimo. Me lembro de chegar no set para gravação, e o diretor Maurício Eça (querido!) me receber com uma camiseta do AC/DC. Fizemos mais alguns clipes juntos depois, e ele sempre com a mesma camisa, que virou uma espécie de amuleto da sorte pra gente.

Demorou um certo tempo até que, finalmente, a gente pudesse sentir que Máscara era bem sucedida- e essa insistência e paciência de construir cada tijolinho dessa casa valeu muito a pena.

Aí hoje, oito anos disso tudo. Aconteceu muita coisa, gravamos outros discos, vieram outros singles, caminhamos para direções diversas. A sensação de que passou num piscar de olhos. E de que ainda há tanto, tanto pra ser feito. Na verdade, sempre me sinto como se ainda nem tivesse começado.

Eu devo, com toda honestidade, agradecer as pessoas que fizeram ser possível aquela jogada arriscada resultar num gol. Obrigada à Deck, Rafa e Lobatto por terem acreditado, apostado e comprado essa briga junto comigo. E acima de tudo, muito obrigado à todos que naquela época ligaram pras rádios insistindo pra tocar aquela música estranha, pediram o clipe nas Tvs, e nos ajudaram a quebrar uma barreira mercadológica que parecia intransponível. Sinceramente, e eu sempre soube disso: não fosse a vontade daquelas pessoas de ouvir a música e todas as ações efetivas dos mesmos nesse sentido, não haveria jabá, esquema ou conluio suficiente no mundo para fazer com que Máscara desse certo.


Transitório by Pitty
02/03/2011, 12:00 am
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Oi, Boteco, quanto tempo. Esse senhor, o Tempo, me absorveu e passou tão rápido e foi tanta coisa pra cuidar, que só agora percebi: há muito não venho aqui.

Tem outras coisas nisso aí também, pensando bem. O hábito e a praticidade dos 140 caracteres tem feito com que eu ultimamente só elabore sentenças mais curtas e efetivas, pensamentos picotados. E tem o fato de que das tantas vezes que escrevo quase todas são por já estar cheia, transbordando, repleta de cansaço e preguiça de todas as coisas que considero insuportáveis; e essa é a hora em que me manifesto impetuosamente e deságuo tudo, tudo. Essa passionalidade gera textos inflamados, e como toda boa válvula de escape, tem por objetivo apenas desafogar os pensamentos. Se deixo tudo ali, é bem provável que no minuto seguinte ao ponto final eu já tenha mudado sutilmente de ideia.

Esses escritos são fotografias: refletem apenas aquele momento que dura o tempo da sua escrita. São transitórios e não dizem respeito a nenhuma verdade absoluta; muito menos representam estaticidade de pensamento. Eu sempre posso e vou me dar ao direito de mudar de ideia, se assim o for.

Me inibe perceber que, aos olhos de muitos que lêem, o que deveria ser somente pequenos arroubos de sentimentos tumultuados se torna decreto para uma vida inteira. E aí eu tenho preguiça.

Preguiça da infantilidade, da baboseira, do “mas não foi você que disse que”.

A vida é longa. As pessoas mudam. Eu não sei de nada, e se escrevo é justamente no afã de tentar descobrir. Pelo jeito, vou morrer tentando.