prato_do_dia
Casulo by Pitty
30/11/2010, 12:00 am
Filed under: Blog


Entrei naquele modo estranho em que tudo parece envolvido por uma penumbra fina, o mundo real tomado por um aspecto leitoso.

A partir de hoje intensifica-se o processo para a gravação do DVD dia 18/12 no Circo Voador, e eu já estou completamente absorta.  Imersão, imersão, imersão.

Significa: nada de festas ou eventos, sem tempo para ler twitter e afins, nada além de acordar e estar com corpo e mente totalmente direcionados para a criação. Significa ensaios, decisões, escolhas, detalhes, títulos, repertório, composição. Antenas armadas e captando tudo. Foco.

Eu não precisei determinar que isso aconteceria. Simplesmente percebi que já começou durante essa noite; quando no meio dela e sem conseguir dormir, levantei-me, peguei papel e caneta e me pus a desenhar o que seria um esboço de um figurino e elementos cênicos. Óbvio, não sei desenhar e isso não importa.

Importa que esse é o estalo que me mostrou que a partir de hoje o mundo lá fora não existe, até o dia dezoito de dezembro de dois mil e dez.



Lolita by Pitty
12/11/2010, 12:00 am
Filed under: Blog



Precisei de alguém pra trabalhar lá em casa, fazer faxina, cozinhar, essas coisas. Além de não ter tempo e nem a menor aptidão para as tarefas do lar, também não tenho saco. Pela indicação de um amigo, marquei a entrevista com Lolita. Por culpa de Nabokov e Kubrick, o nosso imaginário é permeado de imagens e conceitos acerca desse nome; é a ninfeta, a menina com jeito de mulher, aquela que vira a cabeça dos homens com sua inocência diabólica.

Eu vi esse estereótipo desmontar lindamente no momento em que abri a porta. Ali estava Lolita: uma senhora de meia idade, negra, robusta e de rosto amável. Imediatamente me remeteu a Tia Nastácia, o que me inspirou profunda simpatia.

Nesse nosso primeiro encontro, as perguntas básicas.

– Você sabe cozinhar, Lolita? Preciso de alguém que cozinhe, não aguento mais comida congelada.

– Sei, sei sim! Faço feijão, arroz, lasanha… só essas coisa chique assim, tipo coxinha, empada. Isso eu num sei fazer não.

Combinamos que num dia da semana ela poderia chegar mais tarde, “porque nesse dia tem o culto na igreja, né, e eu não posso faltar. E tem a ginástica”. É justo. Estávamos acertadas.


Lolita é uma figura. Isso foi ficando cada vez mais claro com o passar do tempo. Ela fala com os gatos o tempo todo. Tô lá no quarto e escuto, vindo da sala: “chanin, que foi, chanin? vem aqui, vem”. Eu tenho três gatos. Duas fêmeas e um macho. Mas pra ela, todos são “chanin”.

Botei um rádio na cozinha pra ela poder escutar um som enquanto trabalha, e ela só ouve rádio “de pastor”. É um aimeudeus que não acaba mais. Tô lá tomando café da manhã e o homem falando sobre as agruras do pecado e que vamos todos arder no inferno.

– Lólis, posso botar outra coisa só enquanto eu como aqui..? Depois você volta pra essa estação, sem problema algum. É que tá me deixando deprê.

Desde que eu não remova o copo de água posicionado na frente do rádio “para absorver a benção do pastor e tomar depois”, ela não se incomoda. Boto o Tábua de Esmeralda ou Bob Marley e o café da manhã segue tranquilo.


Essa coisa da religião é pitoresca. Ela é devota mesmo, daquelas que no dia de Aparecida vai até lá em romaria junto com outros fiéis. E que segue à risca tudo o que o pastor fala. Na época das chuvas, quando São Paulo se encontrava submersa, ela me veio:

– Isso aí tudinho tá nas escrituras, é o fim do mundo! O pastor mesmo disse, é o mundo que tá se acabando.

– Mas Lolita, não tá escrito que Deus não ia mais acabar o mundo com água, que seria com fogo dessa vez? Que já tinha feito o dilúvio, e tal?

– Ah é? Ah, isso num sei não, mas que é o fim do mundo, é.

                                                                                                                                                                        (…)



Ela é meio maluquinha e muito desligada, o que nos fez apelidá-la carinhosamente de “Lolouca”. Está sempre esquecendo alguma coisa no lugar errado. O interfone toca e ela acha que é o telefone. Pega o aparelho e fica “alô! ALÔ! ALÔOOU!”  “ É O INTERFONE, LOLITA!” “AH, É? Ah, tá…” 

Aliás, recados telefônicos, nem pensar. Anotar um número, não existe.

– Priscila, é o Ronaldo no telefone.

– Quem..? mas eu não conheço nenhum Ronaldo… alô? Oi, Lobatto, tudo bem?

De tanto encontrar casca de ovo na comida, comecei a achar que ela era míope. Insisti pra que fosse no oculista, ajudei a comprar um óculos de grau. Nunca a vi usando em casa. Outro dia, um pedaço da embalagem de papel da manteiga gritava no meio da farofa.

– Lolita, chega aqui. Olha isso. Tem papel na farofa.

– Ih, é? Aonde? Num tô vendo não.

– Aqui, ó. É LARANJA e ENORME. Dá pra ver a um quilômetro de distância. Lolita, CADÊ seus óculos, hein? Você devia usar pelo menos pra cozinhar.

– Ah, não uso não que embaça. Pega gordura.

                                                                                                                                                                        (…)

Nossas conversas mais legais se dão quando eu acordo. Sento pra tomar meu café da manhã e ficamos de papo enquanto ela prepara o almoço. Na época das eleições, perguntei:

– E aí, já sabe em quem vai votar, Lolita?

– Ah, na Dilma né.

– É? E por quê, você gosta dela?

– Vou votar na Dilma por causa do Lula, né. Ele foi muito bom pro povo, pra nós que é pobre. Antigamente a gente nem sabia o que era filé mignon, hoje em dia, se economizar, a gente come carne até três, quatro vezes por semana.


Hoje ela saiu em defesa de Silvio Santos. Acordei e ela tava indignada.


– Cê viu, isso que tão falando aí do Sílvio nos jornais, que absurdo.

– O quê, Lolita?

– Que ele roubou, não sei quê do banco dele… eu não acredito nisso não, não pode. Sílvio é homem do povo, ele é homem bom, que ajuda os outros, né. Tão inventando isso.

– Acho que o caso nem é esse, Lolita. De qualquer forma tudo se baseia em documentos, são números. É matemática, sabe?

– Ah, que nada. Tão armando pra cima dele. É armação, só pode.



Meu coração se comove. É o carinho em pessoa. Cuidadosa e dedicada.
Doidinha, tadinha, mas dedicada.



Hellcife by Pitty
06/11/2010, 12:00 am
Filed under: Blog

Nos velhos dias do Boteco eu costumava escrever sobre os shows. Mas a coisa ficou burocrática quando se transformou numa cobrança: se por acaso eu não fazia um texto sobre show em tal cidade, as pessoas de tal cidade achavam que era por descaso, ou por não ter gostado. Obviamente nunca teve nada a ver com isso; escrever ou não escrever é só questão de ter acontecido algo específico que renda um texto. E nem sempre isso acontece, por mais que se force a barra. Mesmo sendo bom, às vezes não dá vontade.

Mas aí fui tocar em Recife ontem, e acabou sendo uma noite tão surreal que deu.

Marco Zero abarrotado. Mesmo com alguns empecilhos técnicos pra gente no palco, o show foi foda. Lá de cima a visão era impressionante: rodas de pogo se formando, pessoas cantando, vivendo, curtindo. Uma lindeza só.

Temos muitos amigos na cidade, nos sentimos em casa. É ir pra lá e filar uma bóia na casa de um por exemplo, encontrar a galera das bandas e tomar uma uvaroska em algum canto. É conforto. Isso somado a um público ardoroso e massivo fez com que descêssemos do palco doidos pra aprontar alguma coisa. Otto, Bactéria, Jorginho e outros velhos chegados nossos estavam na área e nos levaram para uma festa estranha com gente esquisita que eu adorei. De cara encontrei Paulo André e depois Rogê, que ia discotecar. Música alta, uísque vagabundo e todos dançando descontroladamente naquele hospício maravilhoso.

Antes que eu constatasse minha própria perda total, tomei a sábia decisão de sair dali. Já nem sabia mais meu nome, hora de ir embora. Minha Pedra me enfiou num táxi cujo motorista estilo Buena Vista Social Club ouvia uma salsa, rumba ou sei lá o quê nas alturas. Astral total. Ele lá dirigindo com seu panamá e eu no banco de trás me sentindo em Cuba.

Fomos o caminho inteiro xavecando o motora pra que ele nos desse, ou vendesse, o tal CD. Chatos pra caralho, devíamos estar. Ele não dizia palavra. Dava um sorrisinho misterioso por baixo da aba do chapéu e tocava o bonde. Quando nos deixou em Boa Viagem, simplesmente estendeu para trás a mão, com o disco.
“O Melhor do Merengue”. 137 mp3 de puro suíngue.


De um lado, o hotel. Do outro a praia e o sol começando a subir, laranja e ansioso, no horizonte. Praia, claro. Num arroubo hippie pós-balada, resolvemos entrar no mar. De roupa e tudo. Quer dizer, meninos de cueca –  que é quase uma sunga.
Eu de vestido branco.


As ondas batiam nas pernas, o sol subia cada vez mais furioso, e me lembrei da intimidade que tinha com praia e de que há muito tempo eu não fazia isso. Fiquei ali curtindo meu momento sereia ébria por alguns instantes, e então atravessei a rua com o vestido pingando, a alma lavada e o tênis seco nas mãos.

Ainda bem que eu lembrei de tirar o tênis.