prato_do_dia
Sonhei que sonhava by Pitty
28/08/2010, 12:00 am
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Sonhei que sonhava.

Subia um morro alto, íngreme, campo aberto e gramado, lá em cima uma casa rústica de madeira. Meu pé afunda numa poça de lama macia e a sensação é deliciosa, quase sexual, o pé saindo e entrando na lama repetidas vezes. Achei que alguém poderia me ver nesta cena e prossegui.

Logotipos tipo de padaria ou algo assim, num dizia “Siciliana” e mais um outro que não lembro o nome. O primeiro em vermelho com uma fonte sinuosa, o outro era azul e amarelo; “Deli”- alguma- coisa. Passavam soltos flutuando no ar, mas depois era como se eu os visse num cartaz ou alguém anunciando na televisão; percebi que era propaganda do show de hoje.

Entrei numa casa, subi para o segundo andar. Me senti pesada e adormeci, até perceber vozes. Achei que acordei e tinha várias pessoas lá: alguns conhecidos e um cara grandão tipo viking. Eles estavam voltando do futebol e comentavam sobre o jogo. Estavam suados e tiravam a camisa, fazendo resenhas de quem jogou melhor. Um deles comentou que o violão ou guitarra que ele tocou não estava certo, não era o dele, algo assim. O grandão entra na sala ao lado. Alguém abre a porta e o grandão é surpreendido nu, trocando de roupa. Todos soltam risadinhas e chacotas, fazem piadas masculinas. Dois ou três celulares deles tocam, e todos têm o mesmo toque. Desço as escadas.

Estou no chão, deitada, ouço vozes conhecidas e sinto mãos tentando me carregar. Acordo e vejo Martin, Fábio Cascadura e Ju. Fábio segura minhas pernas, os outros o corpo, eles tentam me botar na cama. Pergunto “o que foi, o que aconteceu?”
Martin me diz que eles me encontraram dormindo ali no chão, e que iam me levar pra dormir na cama. Pensei “ué, será que apaguei aqui mesmo?” Rebato, digo que não estava dormindo. Digo: “vcs não estavam voltando do futebol e comentaram sobre isso? O cara não falou sobre o violão? O grandão não foi trocar de roupa?” Eles respondem que sim, e eu digo “tá vendo, eu estava lá, ouvindo tudo”.

Estou na cama, dormindo. De olhos fechados ouço vozes vindo da sala, duas mulheres conversam. Continuo tentando dormir, mas o barulho me incomoda, presto atenção lá fora. Ainda na cama e de olhos fechados eu vejo a cena na sala: Ju conversa com a mãe dela, tem um cachorro na mesa com as duas, elas comentam sobre o vizinho e sobre umas feridinhas no corpo do cão.
Quero levantar, abrir os olhos e não consigo; o corpo está muito pesado. Tento me mexer, inutilmente. Ainda de olhos fechados sinto como se alguém andasse ou sentasse sobre a cama; um lado afunda, depois o outro, depois aos meus pés. Fico incomodada, quero ver quem está ali, e num esforço enorme finalmente acordo e levanto.

Não há ninguém no quarto, apenas o cachorro que derrubou um pequeno vaso de plantas que estava no chão. “Foi esse barulho que me acordou”, penso. O quarto tem duas portas uma do lado da outra num ângulo de noventa graus, uma delas dá para uma espécie de bosque interno bem bonito, verde e úmido. Faço o cachorro sair, fecho uma porta, encontro a mãe de Ju quando vou fechar a outra. Me despeço, digo que vou dormir mais um pouco. Volto pra cama, me deito novamente. Durmo.

Acordei, finalmente.

Acordei?


Desdobramento by Pitty
18/08/2010, 12:00 am
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O post anterior sobre as rádios rendeu de um jeito bem legal. Eu não tinha nenhuma grande pretensão a não ser a de simplesmente falar sobre um assunto recorrente no dia a dia de quem gosta de música, e tentar entender como chegamos ao panorama atual.

Adorei os comentários de todos, obrigada. Adorei também o comentário das pessoas que trabalham em rádio nos trazendo uma visão interna da coisa; inclusive o do Marcos Vicca (Rádio Mix) que mostrou ser um cara aberto, atento e disponível para conversas desse tipo, além de um gentleman.
E todas as pessoas que escreveram sobre isso e publicaram nos próprios blogs, sites e afins.

Algumas bandas se envolveram na conversa, timidamente. Parece ser uma espécie de tabu; e o mundo anda tão estranho que debater um assunto e expôr opiniões tem sido confundido com ofensa ou reclamação. Não é o caso, o papo é construtivo. Não “reclamo” por mim; vez ou outra uma música minha cai no gosto popular e embora ela não tenha sido feita com esse objetivo em particular, temos ali nosso espacinho e isso traz bons frutos. Mas penso em tantas outras bandas que não têm a mesma sorte/oportunidade/condição.

É bom deixar claro que o texto anterior se refere à uma situação ampla. A Kiss FM e a 107,3 (ex-Brasil 2000) foram citadas e são rádios que adoro, mas o Brasil não é só São Paulo. Em outras emissoras país afora, existem alguns programas específicos que dão espaço a coisas diferentes. São pequenos nichos, e acho que merecemos mais.
 
A coisa toda é muito mais complexa e não sei se algum dia vai ser diferente, mas foi bom falar sobre isso de qualquer forma. Meu lado cético me diz que nada vai mudar, mas meu lado utópico grita que nunca custa, ao menos, tentar.



Radio Days by Pitty
09/08/2010, 12:00 am
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Uma curiosidade: alguém aí ainda escuta rádio? Elas tocam as músicas que você quer ouvir? Quantos já desistiram? Quem ainda acredita que é possível, ou mesmo necessário?

Enquanto artista, ainda acho necessário. Tenho consciência de que as rádios atingem pessoas que não têm o privilégio de ter um mp3 player, ou comprar Cd, ou de ouvir música na internet. Ou mesmo as pessoas que estão no táxi, na academia, no supermercado, no trânsito. Pessoas de diferentes camadas sociais,  em lugares distintos. É pensando em chegar nessa galera que ainda me preocupo com esse papo.

Isso surgiu porque ontem acordei com um barulho daqueles. Na internet e no twitter vi uma galera postando a tag #LiberdadeMusical e comentando sobre uma suposta censura das rádios sobre a nossa música “Fracasso”, tendo a guitarra como grande vilã da história. Foi uma movimentação espontânea deles, e como tinha meu nome no meio aproveito pra me juntar a essa discussão.

Em tempo: não houve “censura”, e talvez a guitarra não seja bem o foco da questão.

Antes de mais nada, essa situação não diz respeito necessariamente à minha banda. Não é pessoal. É um panorama geral, que envolve todas as bandas de rock. Essa restrição quanto à guitarras mais evidentes e sons mais pesados não é de hoje, mas veio se intensificando de alguns anos pra cá. Quando começamos há uns seis anos atrás com “Máscara”, houve muitas barreiras mas ainda foi possível ter na rádio uma música com guitarras altas, quase cinco minutos, parte em inglês. Existia uma “rádio rock” pra comprar a briga, e existia um público específico dessa rádio que ligava pedindo a música, e só a partir daí é que a coisa começou a se espalhar. Tivemos sorte de ter isso na época. Hoje, seria praticamente impossível.

Alguns fatores contribuem pra essa impossibilidade atual. Não existe mais, dentre as grandes emissoras do país, nenhuma rádio especializada em rock. Hoje estão todas misturadas. Tocam pop e R&B, e sendo as músicas mais genéricas a grande preferência da massa, é compreensível que o rock tenha ficado acuado. Essa falta de segmentação, a ausência de um lugar específico para ouvir rock, fez com que o público também ficasse misturado.  Pelo público de música pop ser maior, eles têm mais espaço; e os poucos artistas de rock que ainda conseguem entrar na programação são “convidados” a suavizar suas músicas para não assustar o ouvinte médio. Do contrário, não toca.
E do mesmo jeito que um “roqueiro” pode se sentir ofendido por ter que escutar um poperô logo depois de uma banda que ele gosta, o ouvinte de pop também pode se incomodar com o “barulho” entre um R&B e outro. Isso gera uma padronização geral, para que nada destoe e agrade a gregos e troianos. Mas isso é saudável? Essa mistura toda agrega ou enfraquece?

É claro que já passamos por isso, eu e inúmeras bandas. Sugerem versão acústica, sugerem remixar a faixa para amainar as guitarras, editar pra cortar o solo. Particularmente nunca aceitei essas sugestões e dei um jeito de fugir desses artifícios por um motivo simples: aí, não seria mais minha obra. Seria um engano, um arremedo do trabalho cuidadoso que fizemos em estúdio. Não tenho nada contra versão acústica, mas penso em fazê-lo por vontade artística, para um projeto específico. Jamais para caber num formato pré- estabelecido.

Mas isso é uma posição nossa aqui, outros parecem não se incomodar com esse tipo de concessão. Porém, dizer “não” sozinho não tem adiantado muita coisa. Sempre vai ter uma banda que vai aceitar pra se encaixar no perfil da programação, e isso acaba excluíndo os que querem manter o som do jeito que ele é. Escolhas, sempre as escolhas.

Aproveito para chamar outras bandas e artistas para esta conversa. Como vocês se sentem diante desse cenário? O que pensam de verdade sobre isso? Escrevam, publiquem em blogs, se manifestem. Vamos discutir juntos sobre isso, gostaria de saber o posicionamento de vocês.

E agora, ao público:

A teoria é: as rádios oferecem o que as pessoas querem ouvir. É isso o que, de fato, vocês querem ouvir? Se for, tudo bem. Recolho-me a minha insignificância e espero o mundo girar pro lado do rock outra vez.

Se não é, então as rádios precisam saber que ainda tem gente a fim de escutar rock, guitarras, letras mais complexas. E o único jeito deles saberem disso é com vocês se manifestando. Ligando pra rádio da sua cidade, mandando email, pedindo a música que você quer ouvir. Se vocês não se fizerem ouvir, se isso não chega até eles, jamais saberão que tem gente a fim de escutar coisas diferentes. O público tem voz ativa, e não há jabá que segure uma música não pedida na programação.

Dá trabalho e exige crença de que ainda é possível. Se acha que vale a pena, faça. Se está cético o suficiente pra achar que isso é uma grande baboseira, é um direito seu.



* Irônico: Se as rádios acham que nosso som tem guitarra demais, outros nos acusam de sermos “pop” e comercial. Vai entender.

* Irônico 2: Mais de um ano se passou e “Me Adora” não sai das mais pedidas do público, atrapalhando inclusive a própria evolução do single seguinte, “Fracasso”. Uma tem que sair pra outra de fato entrar. O mais louco é que quando apresentamos "Me Adora" pela primeira vez, houve uma certa resistência em tocá-la. Foi bem aos poucos e demorou pra engrenar. Mas de longe e depois que a coisa rola, todo jardim parece mais verde…