prato_do_dia
Ensaio Sobre A Magreza by Pitty
02/06/2010, 12:00 am
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Semana passada recebi a notícia da morte da namorada de um amigo. Ela tinha vinte e poucos anos, e eu não a conhecia. Soube por alto- porque não tenho intimidade suficiente com o moço e porque certas coisas não se pergunta- que a morte da garota tinha a ver com bulimia ou anorexia, entre outras coisas. Entre o pesar e o espanto, veio à tona na minha cabeça esse assunto que me rodeia há muito tempo. Fiz uma matemática simples; quantas vezes por dia penso alguma coisa relacionada à peso/ aparência? E de onde isso vem?

Penso mais do que acho que deveria. E tenho plena consciência de que isso vem de fora, de cobranças e expectativas externas; portanto a cada vez que me sinto sendo tomada por esse tipo de paranóia faço um esforço mental enorme e analiso friamente esses pensamentos a fim de me livrar  deles. Eu não quero ficar doente. Me vi algumas vezes bem perto desse precipício, e não é legal.

E está cada vez mais fácil sofrer das “doenças da beleza”, como bem chamou a revista TPM numa matéria recente. Somos bombardeados o tempo inteiro com imagens de pessoas magras e perfeitas; a mídia comemora e exalta cada quilo perdido por uma celebridade, ao mesmo tempo em que  achincalha aqueles que porventura saiam do padrão. A ideia difundida e enraizada na sociedade hoje, é de que ser feliz é ser magro. Um dos problemas é que esse “magro” é cada vez mais magro e não tem limites. Sei disso na pele porque me olho e vejo uma pessoa comum, nem magra nem gorda, e diante dos padrões cada vez mais esquálidos dos ideais de magreza, muita vezes fui colocada na categoria das gordinhas. Nada disso me importa, na verdade. Não me interessa o lugar onde o imaginário defeituoso e distorcido das pessoas me coloca, porque sei que elas estão blindadas, cegas. O que me deixa apreensiva é perceber que tantos- a maioria- compraram e aceitaram esse engodo pernicioso. Embarcaram nessa onda de que não ser absolutamente franzino é sinônimo de ser mal-cuidado, e de achar que saúde e beleza (e felicidade!) estão sempre diretamente relacionadas com dígitos de balança.

Essa propensão tem atingido faixas etárias cada vez menores. Meninas que nem chegaram ainda à adolescência preocupam-se com calorias ingeridas e pensam em dieta. Repetem o comportamento das mães, absorvem o conteúdo de revistas, espelham-se em fotos de ícones femininos estampadas nas mesmas. Querem ser como a garota da capa; leve, bem resolvida, admirada. E magra.

“Nossa, você viu aquela cantora como estava gordinha naquele programa? Que desleixada, preguiçosa.” Mesmo que a sujeita tenha acabado de parir um filho, e que toda mulher saiba que leva-se um tempo pro corpo se ajeitar. “E aquele jogador? Que absurdo, um atleta! Com aquela barriga!” Gordo. A palavra que era só uma característica e que virou xingamento.

Coitado de Botero. O pintor colombiano que retratava figuras rotundas ficaria deslocado? Assumiria sua arte como uma crítica à opulência humana? Nem sempre os padrões de beleza foram os mesmos. Houve um tempo em que ser gordo era sinônimo de viver bem, de ser abonado. E, por mais que seja esquisito hoje em dia, houve um tempo em que mulheres muito magras eram mal-vistas. As mais voluptuosas é que dariam boas esposas e boas amantes,  a “corpulência” era ligada à fertilidade. Na Renascença, as musas rechonchudas e de ancas largas é que comandavam a festa. Penso que Botero iria se amarrar em Beth Dito; a gordelícia vocalista do Gossip que posa nua, anda por aí em vestidinhos provocantes e sabe ser interessantíssima e bela com todos os seus quilos.

Eu? Eu engordo, emagreço, ganho dois quilos na tpm e eles desaparecem depois, como tudo o que tenho vontade e mando o mundo à merda, sinto culpa e me critico, sou uma bagunça emocional ambulante. Assim como tantas mulheres por aí. Trabalho dia após dia pra eliminar as cobranças externas e não me submeter jamais à essa paranóia que rege a vida moderna. Determinei alguns pontos na minha vida:

– Não abro mão da gula. Depois da luxúria, é sem dúvida o meu pecado predileto. Me dou o direito de comer tudo o que tenho vontade com volúpia, com prazer, sentindo o cheiro e o gosto. Nada mais erótico pra mim do que ver uma mulher comendo com vontade. O detalhe é que comer de tudo não significa comer muito. A quantidade é a chave, e única e exclusivamente pelo fato de perceber que não preciso de muito para estar satisfeita. Sou gulosa e me deleito com a gastronomia, mas sou a favor de eliminar os excessos desnecessários numa filosofia de desapego material por uma vida mais simples. Isso se aplica a tudo: não preciso da maior mansão, não preciso do carro mais veloz, e não preciso de um sanduíche extra-large pra me sentir saciada.

– Acho que se cuidar é uma coisa legal. Mas “se cuidar” pra mim tem a ver com descobrir uma atividade física que te dê prazer e te faça ficar saudável, com sua máquina funcionando direitinho. É pela serotonina, pelas endorfinas em geral, pelo não-enlouquecimento. A parte estética é uma consequência, um bônus bastante bem vindo. Nesse ponto, o Yôga me trouxe o que eu precisava.

– Não vou me deixar levar por essa balela midiática/ popular que tenta me enquadrar nesse padrãozinho de beleza plástico e inodoro. O belo está em muitas outras formas, e o defeito está em quem não vê.

E mais: não acreditem tão cegamente em tudo o que vêem por aí. Para as capas existe o photoshop, e a TV deixa todo mundo de três a seis quilos mais gordo. Ou seja, é tudo uma grande e imbecil ilusão. Saiamos nós dessa nóia e vamos ler um bom livro pra engordar os nossos cérebros.