prato_do_dia
Semi-breve by
28/04/2010, 12:00 am
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É simplesmente injusto. É caso perdido, daqueles que não se tem a quem recorrer. Irremediável. E única certeza de qualquer ser vivo. Uma hora se envelhece, e morre. Ou morre sem envelhecer, mas morre.

Acho morrer nada demais, na verdade. Como não se sabe de fato o que há depois, só resta especulação, teoria, crenças e fés; e isso tudo é ainda possibilidade. Não fico me remoendo diante de possibilidades e especulações, que seja o que tiver de ser. Lá a gente vê. Mesmo que “lá” seja o nada, o silêncio. Pior nesse caso é pra quem fica; da saudade que sentimos quando vivos, todos têm certeza absoluta. Essa é velha conhecida, comprovada, entranhada na carne e na alma. O que me aporrinha e exaspera é a brevidade da vida. É chegar no melhor momento, no cume da montanha e perceber que dali, só ladeira abaixo. É fenecer. Aí é que mora a ironia e a injustiça dos fatos.

Tenho hoje trinta e dois anos. Percebo, sem vaidade ou falsa modéstia, que nunca estive melhor. Os pensamentos cada vez mais ágeis, a plenitude do corpo e dos sentidos, a autonomia e a independência provenientes de não dever nada a quem quer que seja, o auto-conhecimento. A sexualidade, finalmente inteira. Mais sei do que não sei do que gosto ou não gosto, do que quero ou não quero. A junção ideal entre um pouco mais de sabedoria e vigor físico. O auge. E agora, quando tudo isso foi conquistado, eu devo envelhecer. Existe esse ponto de encontro entre mente e corpo, no qual essas duas coisas estão mais equilibradas. Antes era só vitalidade, energia, flexibilidade. Com o tempo, vem o conhecimento das coisas e de si próprio, a segurança, a calma. E um belo dia essas coisas estão juntas no mesmo recipiente em perfeita alquimia. Mas isso dura apenas o tempo do reconhecimento- quando se descobre tal fato, ele já está se despedindo de você. Piscou, já era. E, por total impotência e impossibilidade de comandar a natureza, deve-se aprender a fazer o caminho contrário.

Daqui pra frente, será cada vez mais cabeça e menos corpo. Mais sabedoria e menos virilidade. Pode-se protelar um pouco, tomar alguns cuidados, usufruir da ciência ou das tecnologias cosméticas para adiar ao máximo esse momento; mas escapatória, não há. O tempo é o senhor. E é curioso como esse senhor é mesmo relativo. Aos vinte, quase todos são eternos. Mais tarde, vem a percepção de que tudo passa rápido demais. E isso é uma pena, como disse Benjamin Button. O aspecto estético não é o que mais me tira o sono- claro que não creio que vá ficar feliz em ver minhas bochechas caírem sobre meu queixo, ou minhas mãos tomarem a aparência de um maracujá, ou mesmo meus peitos serem subjugados pela lei da gravidade. Mas sempre exercitei o desapego físico, nunca me confiei tanto nessa coisa de aparência. Me incomoda a perda da mobilidade, a dificuldade em amarrar os próprios sapatos, o cansaço, as limitações. A dependência. A morte em vida, isso sim, me apavora.

Querer não quero, e acredito que ninguém em sã consciência de fato o queira; mas o inevitável envelhecimento só nos obriga a uma coisa: achar isso bom. De alguma forma, aproveitar as benesses que a idade traz. Aprender a se desprender, a se desmaterializar, volatilizando-se cada vez mais até que um dia só reste a consciência. Um dia, seremos todos pensamento. Ou alma, se preferir e acreditar.


É por isso que eu tenho pressa. Cada dia mais urgente e faminta, quero tudo e quero agora.



Coachella #Prelúdio by
26/04/2010, 12:00 am
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Há alguns meses atrás, quando me deparei com o line up do Coachella, não tive dúvidas: se precisar eu paro o mundo por alguns dias, mas eu vou me jogar pra lá. Ah, se vou. E fui mesmo. Cheguei em Los Angeles uns dias antes e de cara já fui na Amoeba, que é uma loja de cd, dvd, vinil e tudo de delicioso que envolve música, e o melhor: variedade gigante e preços tentadores. Isso porque eles fazem um esquema de “troca”; compram discos usados e em perfeito estado e revendem. Você pode se desfazer de coisas que não quer mais e adquirir umas novas. E aí eu fiz a festa. Cds por cinco ou oito doletas, vinis de dez a vinte. O mais caro foi um novo, lançamento, por U$ 28. Compare com os preços que a gente paga aqui por conta dos malditos impostos e seja bem vindo à indignação.  Pra quem não sabe, o Coachella é um festival de música e artes que acontece numa cidadezinha no meio do deserto californiano, num espaço gigante e rodeado de natureza, bem aos moldes de Woodstock. Tem uma área de acampamento enorme e estrutura de primeiro mundo: banheiros a vontade, um mercadinho, comida e bebida, e muita, mas MUITA coisa pra ver e fazer nesses três dias. Além dos shows propriamente ditos (que já não são poucos) eles promovem outras atividades artísticas e divertidas, algumas oficinas, pista de patinação dançante, alguns artistas plásticos expõem suas obras no espaço do festival, um grupo de acrobacia aérea se apresenta em uma das tendas, tudo acontece ao mesmo tempo e a música não para nunca. É uma overdose de cores, sons e sensações. Existe um cuidado com  a consciência ambiental e isso é estimulado o tempo todo. Por exemplo, a pessoa que recolher dez garrafinhas de água vazias no chão ganha uma cheia e novinha em folha. Ou, para evitar de comprar dezenas de garrafas plásticas por dia, a pessoa pode também adquirir uma personalizada do festival que lhe dá direito a refil gratuito por todos os dias. Outra iniciativa: o Carpoolchella. É um incentivo para as pessoas irem juntas no mesmo carro, diminuindo o uso de veículos ocupados por apenas um ou dois. Consiste em pintar ou sinalizar em alguma parte do carro a palavra “Carpoolchella” e torcer para ser escolhido pela produção, que no final do festival os recompensa com prêmios bacanas. Tipo ingresso vitalício. Premiozaço. Uma das instalações artísticas era curiosa: havia um espaço com uma mesa de DJ na qual qualquer pessoa poderia tocar, desde que levasse uns brothers pra ficar andando numa roda de hamster gigante. O som era gerado por energia humana. Se o amigo cansa e para, FUEIN, acabou o set. Era para esse lugar adorável que eu estava indo, na manhã seguinte.



Coachella #DIA 1- Em Busca do Ticket Sagrado by
26/04/2010, 12:00 am
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Eu e mais uns amigos num carro, pegamos a estrada cedo saindo de LA em direção à Indio. Nenhum de nós tinha comprado ingresso, e a notícia de que estavam esgotados não tinha causado nenhum alarde maior porque, segundo pessoas que foram em anos anteriores, era bem fácil de achar na porta com algum cambista ou algo assim. Um gigantesco engarrafamento se formou muitos quilômetros antes do portão de entrada, e foi ali que caiu a ficha da situação. Os carros ao lado, as pessoas que andavam pela calçada, TODOS procuravam por tickets. Era a pergunta geral, repetida centenas de vezes: “anyone have extra tickets? please? anyone?”. Porra, então é verdade. Tá sold out mesmo e pelo jeito não tem nenhum cambista vendendo. Começou a bater um desesperinho. Passamos quatro horas nesse maldito trânsito, num calor de lascar, e a cena se repetia. Tentamos algumas estratégias. Pegamos uns guardanapos e escrevemos “TKTS?”, penduramos nas quatro janelas. Um dos nossos desceu e saiu pela fila de carros perguntando. Nada. A fauna nos veículos ao redor era um espetáculo à parte: garotas empolgadas, gente fantasiada, som alto, todos animados. Um carro parou bem ao lado e um cara carregava uma plaquinha: “got psychedelic drugs?” Se ele tivesse alguns extra tickets a gente até tentava dar um jeito. Não era o caso. Horas depois conseguimos chegar ao estacionamento, e veio a empolgante notícia de que havia aparecido um cara com ingressos. Vou meio que poupá-los de algumas idas e vindas, mas basicamente teríamos que encontrar esse cara lá atrás , ou seja, voltar TODO o caminho e pegar o trânsito de novo. Tentamos ir a pé, era longe, estiquei o dedo e pedi carona, nada aconteceu, o calor desértico derretendo os miolos, pegamos novamente o carro, fomos até o cara, e quando finalmente peguei o bendito ingresso nas mãos quase derramei uma lagriminha. Que batalha, amigo. Toda essa epopéia durou a tarde inteira, e no engarrafamento de volta pro festival olhei o programa e me dei conta de que Them Crooked Vultures deveria estar subindo ao palco naquele momento. Os carros não andavam. Desci, eu e minha mochilinha, e fui a pé. Passando pela portaria eu pude ouvir os primeiros acordes de Scumbag Blues, e corri, corri MUITO até chegar ao palco principal. Equilibrando a falta de ar pela corrida desenfreada com a emoção de ver os caras no palco, consegui assistir mais da metade do show deles. Foi lindo. Josh é um deus. Grohl é um monstro. Mr. Jones é pura classe. Ao vivo soam coesos e poderosos, e eu lá sozinha no meio da multidão de mochila nas costas, extasiada. Achei o show meio curto (ou era minha vontade de que não acabasse nunca), e no final fui encontrar o resto da galera no local que tínhamos combinado: Sahara, a última tenda, segunda janela do lado direito. Até então, eu não tinha noção do espaço físico do lugar, e aquilo é ENORME. Anda-se para caralho pra se chegar de um palco ao outro. E eu não tinha mapa, tava que nem barata tonta andando em círculos. Peguei umas direções erradas, mas quem tem boca vai à Sahara, e uma hora cheguei. Essa é a tenda onde rola música eletrônica, e a babilônia por lá já estava armada. Povo dançando em altas. Achei meus companheiros e dei uma passadinha no LCD Soundsystem. Foi nessa hora que descobri que lá não se vende álcool assim, tão facilmente como aqui. Para beber, tinha-se que pegar uma pulseira mostrando que você era maior de 21 anos, ir até um lugar específico e rodeado por cercas, e não era permitido sair daquele espaço com nenhuma bebida nas mãos. Tudo tinha que ser consumido ali dentro. Meio que tive que dar um shot numa margarita pra não perder os próximos shows, e pensei em dar um jeito de contrabandear uma vodkinha na mochila no dia seguinte. Bico seco não dá, né. O resto da noite foi quicando de um palco pro outro pra tentar ver o maior número de coisas possíveis: passei pelo Vampire Weekend, dei uma fritadinha no Benny Benassi, vi a Céu, um pedacinho do PIL e Whitest Boy Alive e numa hora perdida um som minimalista, denso e estranho chamou minha atenção. Fui até lá e a cena era surreal. Pessoas balançando-se lentamente de um lado pro outro, todos com os braços para cima. Parecia uma espécie de culto dark, com umas luzes sombrias. Era o Fever Ray.

(Pausa. Não lembro bem o que aconteceu depois, acho que fui abduzida, ou algo assim. Pula essa parte.)


Na passagem para um outro palco me deparei com uma das instalações artísticas presentes no festival: um painel de LED em 3D, com milhares de luzinhas coloridas e movimentos alucinantes. Sentamos na grama e ficamos horas viajando naquilo, interagindo com pessoas ao lado, tal qual mariposas hipnotizadas pela luz. Saí do transe, e o fim de night foi com Deadmau5 na tenda eletrônica, gastando os últimos momentos-doces. Reward is cheese, dude.



* A volta pro hotel foi cruel. Andamos interminavelmente e ficamos mais umas duas horas dentro do carro, presos no trânsito. No apartamento alugado pra oito pessoas, esquema hippie: colchões pela sala, cada um se jogando aonde dava. Segundo um sábio amigo, isso é o de menos. Você chega tão exausto do sol, das caminhadas e dos shows que você dorme até de cabeça pra baixo. E é verdade. Desde que alguém não ronque.



Coachella #DIA 2- Lavando a Alma by
26/04/2010, 12:00 am
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Dessa vez, já com ingressos a postos e com um vestuário muito mais apropriado pro calor, quis chegar mais cedo. No dia anterior estava com roupa pau-pra-toda-obra-de-shows-de-rock: calça jeans, camiseta e bota. Quase virei poça de suor. Povo lá de biquini e eu morrendo. Hoje não, amigo, tô ficando boa nisso. Além do shortinho, também providenciei minha autonomia etílica: uma garrafa de água na mochila cheinha de Absolut. Fiquei bem invisível na hora de passar na entrada e escapuli da revista. Ufa.
 
Cheguei bem na hora do Gossip, e fui lá conferir dona Beth Ditto ao vivo. Canta muito e parecia bem empolgada no palco. Calor monstro debaixo daquela lona, a franja grudando na testa e eu me acabando de dançar. De lá pulei pro XX, e depois uma paradinha estratégica numa sombra pra guardar as energias. Passei no Dirty Projectors e depois voei pro palco principal. Ainda estava acabando o Coheed and Cambria (bem interessante por sinal), mas eu fui logo pra lá mesmo assim. Queria ficar na frente no show do Faith No More. Mr. Patton adentrou o palco com seu indefectível terninho vermelho e bengala, cantando Reunited. “We both are so excited/ Cause we are reunited”. Era verdade. Na sequência, From Out of Nowhere, e aí me acabei e morri de pular até o final do show. Um momento surpreendente foi quando começaram os primeiros acordes de Ben, música de Michael Jackson na época do Jackson 5, quando ele cantava com aquela voz ainda agudinha de moleque. E qual não foi meu susto quando Mike abriu a boca nos primeiros versos e mandou um falsete muito digno da versão original.

Acabou o show e resolvi sair do crowd pra tomar um vento, quando de repente fui atropelada por centenas de pessoas vindo em direção contrária, indo pra frente do palco. Eram pessoas que queriam ver o Muse, mas ainda teria uma hora de intervalo. Ficariam de pé ali toda aquela hora de espera, e foi assim que percebi o quão grande o Muse se tornou nos EUA. Aproveitei esse tempo indo reabastecer minha garrafinha e passando pelo MGMT, que vi de longe. Eles parecem estar meio na moda nos States e é engraçado como o público deles é de gurizada bem novinha, coloridos e moderninhos. De tanque cheio, voltei pro main stage. Hora do Muse, com show do disco novo que eu ainda não tinha visto. Foi brutal. Uma sucessão de hits e refrões e melodias e solos matadores. Me acabei ainda mais e fiquei completamente rouca de tanto cantar a plenos pulmões. Coitado do cara da frente, devo ter gritado horrores na orelha dele. As músicas do disco novo ainda não pegaram muito, ao vivo a sensação é de que elas têm menos punch que as outras, mas muita gente conhecia. Destaque especialíssimo pro visual do show: as luzes e os efeitos são impressionantes e grandiosos; o telão editado à perfeição e com grandes sacadas; um deleite também para os olhos. E como soam bem ao vivo, puta que o pariu. Qualidade de som absurda, tudo no lugar. Grande banda, grande show.

Saí descabelada, rouca e feliz, e bravamente me encaminhei para o Dead Weather- outro show que estava no meu top five do Coachella. Tava bem cheio, e depois de andar o dia inteiro no sol, do FNM e do Muse eu estava só o pó da rabiola. Sem forças para enfrentar a turba. E meio grogue também. Fiquei um pouco mais afastada, de um lugar em que dava pra ouvir e ver tranquilamente (deus salve o telão nessas horas), e que ainda podia dar umas sentadinhas na grama entre uma música e outra. Tocava Hang You From The Heavens- opa!- uma levantadinha e uma dançadinha. Sentava. Tocava I Cut Like a Buffalo- ooopa!- uma levantadinha e uma dançadona. E assim foi até o final. Adorei eles ao vivo e fiquei definitivamente apaixonada pela Alisson Mosshart. Nunca vi alguém conseguir ser tão sexy e misteriosa de calça jeans, tênis e casaco. E com uma bela voz rouca e forte.

O fim desse segundo dia se aproximava e eu já estava mais do que satisfeita por ter conseguido ver os meus prediletos, quando fui tomada de assalto pelo 2ManyDJs. Como sempre, fomos encerrar o expediente na Sahara, e eu fui meio assim, sabe como é. Não sou muito de música eletrônica e tal, mas vamos lá. A vibe estava irresistivelmente boa. Entrei na pista um tanto cética, e meu corpo ganhou vida própria. Mandaram um remix de Love Will Tear Us Apart ( Joy Division), e aí eu surtei. Pista de eletrônico tem uma onda diferente. Talvez por não ter necessariamente uma banda no palco, as pessoas não ficam só viradas pra frente, e isso faz com que todo mundo dance com todo mundo. E minha cabeça fez uma analogia maluca com aquela parte clássica da música em que o beat para, um elemento faz uma melodia ascendente, subindo de tom a cada repetição, indo mais alto até chegar ao limite ao mesmo tempo em que aumenta a velocidade e parece que você vai enlouquecer, até que finalmente explode com a volta da batida. E as pessoas explodem junto. Se isso não é a descrição de um orgasmo, eu não sei o que seria. Me deixei levar, e no final do set dos caras veio uma chuva de papel picado. Tipo aquela que já vi mil vezes. Incrível como algo tão simples e bobo pode se tornar especial quando se está predisposto.



Coachella #DIA 3- Todo Festival Tem Seu Fim by
26/04/2010, 12:00 am
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Último dia de alguma coisa muito boa você sabe como é. É aquele desespero de aproveitar tudo e todos os segundos. Chegamos ainda mais cedo do que ontem, e hoje eu estava a fim de viajar nas pessoas. Tenho uma curiosidade antropológica, uma fascinação pelo ser humano, e aquele lugar ali era extremamente propício para a observação. Além dos personagens incríveis, era uma situação que não tenho muita oportunidade de vivenciar por aqui: eu era só mais um. Podia olhar e olhar a vontade que ninguém reparava em mim, podia fotografar, e podia interagir com as pessoas sem que elas tivessem nenhum conceito formado ao meu respeito. Eu era uma folha em branco. É interessante poder se relacionar sem pré-julgamentos: se a pessoa não sabe nada sobre você, não há projeção e nem expectativa. Suas reações acabam sendo mais instintivas porque você não se sente tentado a preencher a espera do outro. É se reinventar. Nosso QG nesse dia foi debaixo do Ascension- um pássaro gigante em formato de origami, mais uma das obras de arte expostas por lá. Graminha, rodinha, De La Soul rolando de fundo, frozen lemonade pra misturar com a Absolut (sim, o golpe de ficar invísivel pra passar pela revista funcionou de novo). Os amigos gringos: “Whatha fuck are u doing?”. Caipirinha, man. Conhece não? Brasil e pá? Estávamos nesse idílio amistoso quando um brother que estava com a gente me aparece encharcado. “Cara, tá rolando um negócio muito louco ali, ó!”. Claro que eu peguei a câmera e fui lá. Um som muito alto rolando, pessoas em trajes de banho (ou não) dançando, e um cara em cima do palco com uma pistolona de água, esguichando na galera sem parar. Era tipo um banho de mangueira coletivo, uma pool party só que sem pool. Com aquele calor escaldante, foi a melhor ideia que eles podiam ter tido.

(Pausa. Estou no limbo das memórias. Definitivamente, não tenho a menor ideia do que aconteceu depois disso)

Ok, hora de ir ver os shows. Comecei pelo Julian Casablancas, e tava cheião. Logo na segunda música ele manda Hard To Explain do Strokes, e a galera vai ao delírio. Depois, músicas do disco solo dele e eu pulei pra outra tenda pra ver a Charlotte Gainsbourg. Som calminho, cool, perfeito pra minha morgação daquele dia. Confesso: com o acúmulo dos dias eu já estava completamente exausta, mais a fim de curtir o espaço físico. E fui dar uma voltinha na roda gigante diante de um belo pôr-do-sol. Lá embaixo, pessoas-formiguinhas. O próximo show que eu fazia questão de ver era o do Thom Yorke, e enquanto ele não começava fiquei no Beer Garden tomando uns drinks e conhecendo gente. Muitas coisas me marcaram nessa experiência do festival, e uma delas é a forma que as pessoas interagem por lá. Tipo de eu estar sentada na grama e colar uma menina do meu lado numas de “oi, tudo bem? de onde você é?”, e terminar a conversa com um adorável “bye, happy Coachella!”. Tracei um paralelo com nosso querido país, e vi o quanto às vezes a gente têm medo e é naturalmente desconfiado quando alguém se aproxima assim, do nada. É tanta gente tentando tirar vantagem do outro, tanta gente querendo se dar bem que isso faz com que os dois pés estejam sempre atrás. Ou talvez seja só eu? Lá, pude refletir muito sobre algumas diferenças. O fato de entrar no meio da muvuca e saber que ninguém vai abrir sua mochila. O fato de não ter visto UMA briga sequer, nem mesmo uma discussão, e NENHUM segurança ou policial visível num espaço com 60 mil pessoas reunidas. Simplesmente não era necessário. O cuidado com o outro e o respeito à liberdade individual: todos podiam fazer o que quisessem, desde que não incomodasse o próximo. Fumar, beber, deitar na grama, se vestir de super herói- ninguém tava nem aí. Um legalize geral e pacífico. Meninas andando semi-nuas, de biquini ou algo assim, e sem ter que aguentar homens babões olhando ostensivamente para seus corpos ou chamando de gostosa quando passavam. Isso é engraçado se comparado ao Brasil. Aqui é a terra do “corpo”, certo? Carnaval, bundas, etc. Teoricamente deveríamos ter uma melhor aceitação em relação à mulheres com vestidos curtos, justos, ou decotes. Mas, experimente andar na rua desse jeito e é um festival de grosserias ao pé do ouvido por parte de homens machistas; correndo até o risco de ser linchada-vide Geisy. Porque ver bunda na TV e na revista é legal, mas mulher que sai assim na rua é tida como puta. Certeza que tá querendo dar. É uma hipocrisia e uma contradição sem tamanho, é uma falsa liberdade. Me perdi nesses pensamentos, percebendo que estamos léguas distantes de uma sociedade evoluída, e desejando ardentemente que nosso povo chegue lá. Educação, e consciência. O famoso “jeitinho brasileiro” algumas vezes implica em se achar muito esperto por ter se dado bem numa situação, mesmo prejudicando o outro. Como furar fila, ou não devolver um troco que veio a mais. Ou ter seu carro arranhado na rua porque você não deixou uma grana com o flanelinha. Tem a ver com miséria também, obviamente. Bem, xá pra lá. Perdoem a longa divagação, mas eu avisei que nesse dia eu estava mais contemplativa. Emergi daí direto pro Pavement. Fiquei curtindo de longe, as panturrilhas em fogo, dor em todos os músculos, é exaustivo de verdade o negócio. Estava economizando meu último suspiro para o Thom Yorke, esse eu fazia questão de ver direito. Showzaço. Com direito a Flea ( Red Hot Chilli Peppers) no baixo aloprando geral, e um percussionista brasileiro. O repertório foi mais do disco solo dele, The Eraser, mas quando ele tocou Everything In Its Right Place eu quase pari um tijolo. Dentre tantas, ele resolve tocar uma música do meu disco favorito do Radiohead, o Kid A. Emocionei. Não sabia se ria ou chorava, ou os dois, ou nenhum. Ele tocou também algumas novas que -dizem as boas línguas- são prováveis canções pro próximo disco do Radiohead. Numa delas ele entrou sozinho com o violão, e com a ajuda de um  pedal “loopeou” um verso e uma levada. Depois tocou outra levada e cantou outras frases em cima do looping, usando este como base. Funcionou muito. O visual do show é lindão, umas luzes azuis se entrelaçando no palco, como uma cama de gato feita de neon. Palco meio escurinho, mais luz de contra, bem do jeito que eu gosto. E não é que Mr. Yorke me saiu um bom de um gaiato? Todo animadinho, deu até umas sambadinhas de gringo, bem diferente daquela postura introspectiva que a gente está acostumado a ver. Depois disso, só faltava mesmo o Gorillaz, já estava aquele clima de “acabou”. Eu, mal conseguia ficar de pé. Voltamos pro nosso QG debaixo do pássaro-origami para esperar o resto da trupe, e ao meu redor todos estavam tão acabados quanto eu. A cena de uma garota dormindo de ladinho na grama com um prato de papel sujo de, sei lá, nachos, entre as pernas usado como travesseiro ilustra bem a situação. Fiquei curtindo o Gorillaz de longe. No bis eles tocaram Feel Good Inc., e aí TODOS os zumbis que estavam espalhados pelo chão se levantaram e começaram a cantar. Até a menina do travesseiro de nachos. Parecia madrugada dos mortos, e só mesmo aquela música para fazê-los ressucitar e dançar pela última vez no Coachella 2010.


Na saída, quando todo se afunilavam para passar pelo portão, alguém puxou uns gritos e palmas. Um imenso coro se formou numa barulhenta saudação de despedida daquele fim de semana lúdico, lisérgico e especial. Não fosse o cuidado de tomar notas, e poderia facilmente ser enquadrado por mim na categoria “lost weekend”. Benditos papel e caneta.



Twittosfera by
06/04/2010, 12:00 am
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Acho a internet uma coisa maravilhosa, mesmo. Uma imensa biblioteca com todo tipo de informação disponível, uma grande chance de interagir com as pessoas. Mas nunca fui, de fato, grande entusiasta de redes sociais. No passado tentei o Orkut, até que este virasse uma espécie de “terra de ninguém” e ficasse tudo muito confuso com essa história de colecionar amigos que nunca vi na vida. Sei lá. E aí ano passado conheci o Twitter. Me cativou o fato de ser mais objetivo e menos invasivo que as demais redes, e a coisa desafiadora de se ter apenas 140 caracteres para exprimir um pensamento. Gostei de perceber que ali seriam ideias em lampejos, fragmentos, quase como se você estivesse somente pensando alto, devaneando. Ao menos, eu decidi usá-lo assim. Tem gente que usa o Twitter de forma mais corporativa e burocrática, apenas para informações relativas ao trabalho, tem gente que desabafa, tem gente que só posta amenidades. Tem de tudo. O tempo foi passando, o número de pessoas que me seguiam ali foi aumentando, e eu comecei a me deparar com algumas situações constantes as quais gostaria de tentar esclarecer agora e aqui, porque nesse caso 140 caracteres é muito pouco.

O famigerado “Me segue”: Não é assim que funciona. As pessoas devem ser livres ali para escolher quem elas querem ou não seguir, de acordo com seu tempo disponível e interesses específicos. Qual o objetivo de receber na sua timeline tweets que não lhe interessam de fato? Isso não tem nada a ver com falta de gentileza, tem a ver com o aproveitamento real da ferramenta. Particularmente, decidi seguir uns amigos e alguns outros que me acrescentam informações no dia a dia, e percebi que seria impossível seguir mais do que estes por pura falta de tempo. Prefiro poucos que posso acompanhar de verdade do que muitos que nunca vou conseguir ler. Um reflexo dessa coisa de seguir muita gente e não conseguir acompanhar nenhum respinga em mim: muitas vezes vejo nos meus replies gente me perguntando sobre coisas que já postei anteriormente. Talvez essas pessoas estejam seguindo mais gente do que podem absorver, e a informação se perde. O pior é a chantagem, a barganha, o “me segue que eu te sigo”. Ei, isso não é moeda de troca. Siga, e deixe os outros seguirem quem quiser. Segue quem tu queres, pois é tudo da lei… da Twittolândia.
Adendo: “me retuita” e “me indica” entram na mesma categoria, desde que não seja referente à alguma causa nobre. Isso não é algo que se imponha, é algo que simplesmente acontece quando o dono do perfil acha que tem que acontecer.

O eterno “Me dá um oi”: Olha, sinceramente. Eu ADORARIA conseguir responder a todas as pessoas que me mandam mensagens, mas é humanamente impossível. Teria que passar os dias sentada na frente do computador apenas digitando “oi” (send), “oi” (send), “oi” (send). Ademais, não entendo essa carência por um “oi” sendo que existe tanta coisa interessante, tanta ideia pra se trocar.  Tem gente que fala “dá um oi pra eu imprimir e mostrar pros amigos”, ou “manda parabéns pra não-sei-quem”. Pera aê, né. Não tem como. Aí, sabendo que isso pode ser importante pra alguém (mesmo que não concorde), se resolvo dar um “oi” pra satisfazer apenas dois ou três, como faço com os outros tantos que ficaram na mão? Seria injusto. Prefiro usar meu pouco tempo disponível ali para trocar ideias mais consistentes e alimentadoras; acabo respondendo quando existe um conteúdo que invoca a tal resposta. Tive momentos ótimos com pessoas que não conheço, que me indicaram coisas legais, que compartilharam pensamentos e filosofias sobre arte ou sobre coisas corriqueiras do mundo. Houve até discussões e embates positivos, ricos. Há mais, muito mais pra ser dito, mas tem gente que só se preocupa com o superficial. “Só quero que algum famoso me responda..” é  de doer o coraçãozinho.

A chatice de “floodar”: Floodar é o abrasileiramento da palavra “flood” que em inglês significa “inundação”. Virou moda por aqui, e consiste em mandar a mesma mensagem (geralmente irrelevante) diversas vezes. No Twitter, é um inferno quando um sem-noção inventa de escrever (e até numerar) o mesmo “por favor me responde” 342 vezes. Porra, não floode, bicho. Não é a quantidade de vezes que determina uma resposta, e sim o conteúdo da pergunta. Por isso criei uma regrinha básica que até rima: se floodar, vou bloquear. Porque isso é muito, muito chato e me impede de ver as outras mensagens que porventura sejam legais.

Quantidade X qualidade: O número de seguidores vai crescendo, e vai-se constatando algo que eu já intuía através de outras situações anteriores. Quando se lida com mais gente, quanto mais popular se fica, mais pessoas diferentes e distantes de você aparecem. Ter mais seguidores é sempre ótimo porque é sua informação chegando mais longe, mas isso implica em lidar com aquele sujeito que só conhece suas músicas mais famosas e acha que te sabe; que tem um gosto mais popular e está acostumado com artistas menos críticos e mais políticos; e que certamente vai se assustar ou se ofender com algum aspecto da sua personalidade para o qual ele não estava preparado. Esse conflito ocorre porque a identificação é tênue ou porque projetou em sua cabeça um artista que não é aquele. É uma matemática cruel, mas muito verdadeira. Quanto mais pessoas, mais faixas etárias, escolaridade e pontos de vista diferentes. Geralmente, menos senso crítico também. E aí surgem desde os que não entendem o que escrevo por não compartilharem das mesmas referências até os que se indignam com algum desabafo mais sincero. A “maioria” não compreende aquilo que não faz parte da maioria. Como sempre pertenci a algum tipo de minoria, isso não me surpreende. E o tempo ajeita tudo: no final, depois de um processo natural de separação entre o joio e o trigo, só restarão os bons.

Pronto. Descarreguei tudo. Fora esses pequenos percalços, o Twitter tem sido de imensa valia. Poder dialogar e conhecer pessoas interessantes, passar informações para os que gostam do meu trabalho sem intermédio de terceiros, estar mais perto dos fãs e observar a movimentação deles em tudo que diz respeito a banda, dividir impressões e discutir o mundo ao redor. É um prazer  meio que antropológico. Ali, tanto exercito minha relação com as palavras e sentidos quanto testemunho  e aprendo o jeito dos outros lidarem com isso.