prato_do_dia
Carnarock em Salvador by
29/01/2010, 12:00 am
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Parece que alguma coisa mudou em Salvador de um ou dois anos pra cá. Morei lá a minha vida inteira, e todo Carnaval era a mesma coisa: pra todo um contingente de pessoas que curtiam rock  e outros estilos musicais que não os característicos dessa época do ano, a sensação era de orfandade. Não havia muito o que fazer senão fugir. Havia (e há) o Palco do Rock,  que acontece todos os anos na orla e que de certa forma é uma válvula de escape. Presenciei ali bandas muito legais e outras nem tanto, a estrutura algumas vezes era muito frágil e a verba destinada ao projeto normalmente não permitia atrações de peso. Não sei bem como estão as coisas atualmente nesse sentido. Mas me sentia confortada por pelo menos ter o Palco, um espacinho que fosse, me conformando em sermos colocados num bairro distante do circuito momesco, à margem da celebração que acontecia em outra parte da cidade. Sendo roqueiro e baiano, sentir-se marginalizado era algo bastante corriqueiro, tanto a ponto de no final achar que tinha que ser assim mesmo. Não nos misturamos. Somos óleo e água.  Eu particularmente me adaptei a essa situação, e convivi com ela durante todos esses anos, mas um pensamento não me abandonava: por quê o rock (e afins) baiano continuava a ser tratado como o filho troncho que quando as visitas chegam os pais mandam ir pro quarto? Por quê tínhamos que ficar afastados, distantes, isolados na nossa turminha, sem ter a oportunidade  de que  todas aquelas “visitas” nos vissem tocar? Uma coisa que me fez ter certeza de que era possível foi observar o Carnaval de Recife. Ritmos populares convivem democraticamente e lindamente com outros estilos musicais , todos juntos e misturados no mesmo espaço físico. Todo mundo sabe que Carnaval é uma tradição antiga que hoje é sinônimo de axé, escola de samba, frevo, maracatu, samba-reggae, etc. Todo mundo sabe que gringo que vem pro Brasil nessa época quer ver aquele espetáculo,  mulatas semi-nuas requebrando e ter contato com um ritmo totalmente desconhecido pra ele. É justo. Se eu algum dia for na Romênia provavelmente vou adorar assistir os grupos de música tradicional de lá. Mas pra muitos de nós que vivem aqui  e que particularmente não se sentem tocados pelo espetáculo em questão, é uma época de limbo. E eis que, de um tempinho pra cá, novas coisas vem acontecendo no Carnaval baiano. Inserções de música eletrônica, bandas de reggae e pop. E rock. Ano passado Cascadura, Retrofoguetes e outros cometeram a façanha de conseguir botar um trio na rua, graças a esse projeto de Trios Elétricos Independentes, via editais. E nesse ano chegou a nossa vez. Sim, tocaremos num trio elétrico no Carnaval de Salvador, no circuito mais tradicional da festa: o do centro da cidade. Finalmente uma pequena parte nos cabe nesse latifúndio. E melhor: fazendo nosso show do jeito que ele é, sem mudar uma vírgula. Poderemos ser o que somos, agora nos querem assim. Finalmente. Fomos convidados por Radiola e Nancy Viégas pra sair no Carnivalha, um dos trios desse projeto dos independentes. Uma coisa bacana desse projeto é resgatar o “carnaval pipoca”, aquele em que todo e qualquer cidadão tem o direito de participar sem pagar nada. Isso é algo que vinha se perdendo através dos anos, quando a festa passou a ser majoritariamente feita por blocos que cobram pelo abadá, ou por camarotes igualmente pagos. A “festa do povo”, o ir para as ruas e curtir sem precisar desembolsar quantias muitas vezes exorbitantes foi-se desvanecendo. Pois bem, essa oportunidade de agora me enche de esperança. Esperança de um diálogo e de respeito cada vez maior entre todos os estilos musicais, esperança de que cada vez mais as pessoas tenham direito de escolha. Quem curte axé vai poder se esbaldar ao som das bandas tradicionais, quem curte bloco afro vai poder cair pra dentro do Ilê, Olodum e tantos outros. E quem curte rock que venha aproveitar com a gente, Radiola, Nancy, Retrofoguetes, e muitos mais. Desejo secretamente olhar lá de cima e ver muita, muita gente; desejo que esteja lotado; desejo que todos nós cantemos tão alto para que todos agora escutem nossa voz. Existimos. Nesse sábado de carnaval, dia 13/02, junte seus amigos, avise a todos os conhecidos  e venham comemorar com a gente no centro da cidade (circuito Osmar) a partir das 20 hs. Temos muito o que comemorar. Mais uma batalha foi vencida.



* Vale se informar sobre as atrações dos outros dias, parece que o Retro sai segunda-feira.
* O Palco do Rock desse ano também tem bastante coisa legal e rola dias 13,14, 15 e 16/02.  



I love SP by
26/01/2010, 12:00 am
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Tava aqui me lembrando da primeira vez que pisei os pés em São Paulo. Foi no Hollywood Rock 96, e eu tinha acabado de fazer dezoito anos. Doida pra me jogar pelo mundo desde sempre, mal via a hora de ficar “de maior” e poder viajar numa boa. O festival era o motivo perfeito; amigos de Salvador também estavam vindo, e eu não tinha grana para mais nada além da passagem (de ônibus) e ingresso para um dia. O resto eu esperava conseguir, como diria Panço, através da difícil porém emocionante arte de viver de graça. Entrei no ônibus na rodoviária de Salvador munida de uma mochila contendo itens básicos e outras cositas más que me garantiriam a sobrevivência, meu walkman de fita cassete, e alguma coragem. Não sei se alguém aí já experimentou passar mais de 30 horas dentro de um ônibus com um monte de gente desconhecida, parando em localidades de beira de estrada que mais parecem saídas de filmes. Taí uma experiência válida. É massacrante claro, afinal é UM DIA E MEIO da sua vida dentro de um veículo; mas naquela ocasião tinha um sabor diferente. Eu estava indo ver o mundo, e sozinha. Finalmente cheguei no terminal do Tietê. Não tinha a menor idéia de pra onde ir, que direção tomar, ou mesmo como chegava dali até o centro da cidade. Estamos falando de 1996, e isso significa nada de celular ou internet disponível e Google Maps menos ainda. Mas eu tinha um número de telefone. Bianca, meu único contato nessa cidade. Bianca era minha amiga de infância e sempre passava as férias na casa do tio em Salvador, que era no meu prédio. Todo ano tínhamos encontro marcado no verão, e aprontávamos a valer. Companheironas mesmo, de se meter em altas roubadas inclusive. Ela adorava uma aventura e era impetuosa, e eu a admirava imensamente por isso. E ela morava em São Paulo. Caminhei até o orelhão mais próximo e Bianca atendeu:

– … vem aqui pra casa, eu moro na Rua Pamplona.

– Mas Bi, eu não sei como é que chega aí.

– Pega um táxi e dá o endereço.

– Não rola. Grana tá curta. Explica como faz pra chegar de metrô que eu consigo.

– Então tá, é assim: você pega um sentido Jabaquara. Presta atenção na direção que ele tá indo senão você vai parar do outro lado. Aí você fica ligada e desce na Paraíso pra fazer baldeação.

– Balde…o quê?

– Você vai trocar de trem. Desce aí e procura o que vai sentido Sumaré. Aí é rapidinho, mais duas estações e você desce na Trianon-Masp. Sobe pra rua e pergunta aonde é a Pamplona que o pessoal te fala.

– Tranquilo. Um dia eu chego aí, beijo.



Eu nunca havia entrado num metrô em toda a minha vida.

Tudo era novo, inédito e eu estava adorando. Outro cheiro, outra paisagem. Sem maiores problemas, desci na estação que ela disse que eu deveria descer. Pô, tem duas saídas. Não sei por qual lado devo subir. Escolhi um deles na intuição e fui. Parei na calçada e olhei, para um lado e para o outro. Prédios altos enfileirados e um corredor de carros no meio. Pensei nos prédios como cordilheiras, e na rua do meio como um rio de águas revoltas. Uau, quanta gente de paletó e gravata. E como eles correm. Nunca vi ninguém andar tão rápido, eu acho, devem estar com bastante pressa. Ih, ó lá, uns skatistas e tatuados do outro lado da rua. Ninguém fica olhando estranho pra eles, legal. Precisava chegar na Bianca. Resolvi parar um dos apressados, achei que ele iria me atropelar mas não. Ele parou, um tanto quanto impaciente.

– Moço, por favor, que rua é esta aqui?

Ele me olhou com uma cara estranha, e por alguns segundos achei que tinha feito algo errado, ou que eu era de outro planeta. Com uma expressão irônica e um sorrisinho de canto de olho, ele me disse:

– Essa “rua” aqui é a Avenida Paulista.

E foi embora.



Ontem foi aniversário de São Paulo,  a cidade que escolhi morar por pura identificação, e eu ganhei de presente o prazer de tocar no Sesc Interlagos pra um galera enorme e muito viva.
O resto da saga do Hollywood Rock eu conto em outra ocasião, talvez.



Una Cueca-Cuela por favor by
14/01/2010, 12:00 am
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Então veio a ideia de fazer versões em espanhol de algumas músicas do Chiaroscuro. Por diversão, pra ver como ficava e pela facilidade de ter um técnico de som argentino que me faria a gentileza de traduzir. Era pra ser – e foi- uma coisa desencanada, quase uma brincadeira. Eu não falo espanhol. Eu mando ver mesmo é no portunhol. Os vídeos dessas tardes divertidas vocês podem ver aqui no site, e hoje eu estava pensando sobre eles. Eu aprovei os vídeos, que foram editados pela galera que faz o site, e poucos talvez se liguem no seguinte posicionamento: esses vídeos deixam transparecer os erros, as dificuldades, os impasses que ocorreram na gravação. Tem mais tentativas do que acertos ali, e isso é deliberado. As pessoas geralmente vêem o resultado final de uma coisa, e não sabem do resto do processo todo. Achei interessante mostrar isso para que as pessoas pudessem ter acesso a esse meio de caminho. E claro, podia ser diferente. Eu podia aprovar um vídeo que apenas mostrasse os acertos, que puxasse bem a sardinha pro meu lado, tudo lindo e maravilhoso. Mas aí, sinceramente, não sei se teria tanta graça.


E aí vem gente especulando, inventando notícias, como se por acaso morassem na minha cabeça. Ah, vá.



Lá vamos nós outra vez by
12/01/2010, 12:00 am
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Disco novo, turnê nova, novas músicas, novo site. O bom e novo- velho Boteco. Confesso que senti saudades desses devaneios, papos e escritos por aqui. Não que não tenha escrito durante todo esse tempo. Só não estava compartilhando. Embora esse não seja o objetivo primeiro da escrita, não deixa de ser parte importante. E admito uma coisa maluca de ser bom escrever pensando que ninguém vai ler. Parece que pensar dessa forma faz com que as sentenças soem menos corrompidas pelo olhar alheio, pelo julgamento do outro. Óbvio que isso é uma ilusão, e faz parte do jogo. Deixa eu pensar que aqui escrevo coisas que só diria para amigos mais chegados, amigos estes que poderiam facilmente compartilhar a mesma mesa de boteco comigo. Se você é um desses, pode puxar uma cadeira e ficar a vontade.