prato_do_dia
Solução sim by
24/10/2008, 12:00 am
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Um clima meio Woodstock tomou conta do Parque da Independência domingo passado. Show aberto ao público, um evento da OI que aconteceu simultâneamente em vários lugares, e nós e os Titãs. Tarde lindamente cinza, e um gramado enorme. Gente sentada nas colinas, gente em pé na grade, muita gente em tudo que era canto. Uma estrutura absurda de boa no palco. Descobri uma analogia que talvez defina um pouco melhor essa coisa de tocar num som bom e num som tosco. O show acontece de todo jeito, a gente tá acostumado com os perrengues e nunca fizemos corpo mole (muito pelo contraríssimo) ; mas uma banda tocando com um equipamento péssimo é como um cirurgião operando alguém com um canivete de bolso e sem anestesia. O sofrimento é maior e as seqüelas imprevisíveis, embora a cirurgia aconteça. Mas nesse dia estávamos nos ouvindo bem, instrumentos soando, tudo no jeito. No final, fui fazer um som com os Titãs. Cantamos várias – eu já sabia todas por osmose- e o show deles é uma seqüência de hits mortais, um atrás do outro. Fiquei feliz de ver os caras com aquela vivacidade e energia, mesmo depois de tantos anos de banda e tantas histórias. Não é fácil. Eu não queria mais sair do palco. Diversão é solução pra mim.

 

Solução é um soluço bem grande. hahaha. Tá, parei.



wannatogobacktobahia by
21/10/2008, 12:00 am
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A falta de tempo me persegue, mas eu PRECISO deixar registrado o final da epopéia que, no post anterior, estava só começando. De lá, depois de tocar no Canecão com Arnaldo Antunes – que aliás foi uma delícia-  fomos pra Salvador. E direto do aeroporto pro Pelô. Imperdível o BoomBahia e o Mudhoney. A galera da equipe tava meio preocupada com essa coisa de eu ficar no meio do povo, mas fiz questão de explicar pra eles que ir a shows de rock em Salvador foi tudo que eu fiz a minha vida inteira, e não era agora que eu ia deixar de fazer isso. Não é que eu não tenha consciência de que minha vida deu uma mudada, mas não fazia o menor sentido pra mim depois de ter vivido tudo aquilo, de ter tocado no Novo Tempo, no Creole Cajun, Hotel Pelourinho e o escambau, ficar isolada dos meus amigos porque agora eu sou famosinha. Que saco. Pra mim tá tudo igual, fora uns quilinhos a mais e o cabelo menos Janis Joplin. Eu cresci ali e pertenço àquilo. Cheguei lá obstinada a curtir a night como antigamente, como sempre. Foi uma sensação maravilhosa e uma viagem no tempo; revi TODOS os meus brothers das antigas. Abraços deliciosos e sinceros de gente que me viu crescer. Tava com saudade. Até de quem eu não ia muito com a cara na época, eu tava com saudade. O tempo opera milagres. E o resto das pessoas, que eu não conhecia, ficou na boa. Fora um ou dois sem noção, todo mundo entendeu quando eu dizia que: “tô em casa, quero curtir, vamo nessa! Me libere dessa porra toda aí e me pague uma cerva, na moral”. E os shows foram massa, e eu encontrei gente que não via há muito tempo, e de lá fomos todos pra uma festa pós festival. A velha frase, “hoje não”, mas Spencer merecia aquela tequila que viramos juntos. No dia seguinte teve show na Concha, e foi FODA. Fiquei orgulhosa de ver aquilo lotado, feliz de cantar com Arnaldo de novo, e emocionada de tocar a música da Úteros em minha ( nossa) terra natal, com Fábio Cascadura e Apú. Não contive as lágrimas de novo, sou chorona mesmo pronto e acabou. Mas é que é muita coisa pra aquela menininha hardcore, sonhos que nunca imaginei se tornando reais bem ali na minha frente. O público tava demais, apoteótico, e saí do palco desmilinguida e contente. Quero mais.

 

Voltando pra casa depois de mais de uma semana na estrada e seis shows seguidos, com uma mala de roupa suja, um cabelo quase rasta e um coração apaziguado.



“Mais grave! Mais agudo! Mais eco! Mais tudo!” by
14/10/2008, 12:00 am
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E o Ceará tava mesmo um absurdo. O show foi emocionante, com todo mundo até aonde a minha vista alcançava curtindo loucamente, cantando tudo. Passava um filme na minha cabeça, e na hora em que fizemos uma menção a Creep no meio de Máscara, não deu pra segurar. Aquela música é foda, a TPM tava foda, e aquela letra faz muito sentido. Quando cheguei no “I don’t belong here” e lembrei de todas as coisas as quais eu não pertenço e mesmo assim aturo por amor ao que eu faço, quando pensei em todas as disparidades veio um nó na garganta e lágrimas. De alegria, de desespero, de alívio, de sei lá mais o quê. Quase não consegui terminar a música, a voz tremia. Mas rolou.


E na madruga enfrentamos mais um daqueles vôos até o Rio. Chegamos virados, famintos e cansados, e tivemos uma grata surpresa ao descobrir que o hotel em que ficaríamos hospedados era numa ilha. Pegamos um barco, e o astral melhorou. Engraçado no dia anterior eu ter divagado tanto sobre mar, barcos e essas coisas, e no dia seguinte ser esse o nosso único meio de transporte possível. Ilha da fantasia. Só tínhamos nós no hotel, sem ninguém pra encher o saco, podíamos ficar a vontade. Todo mundo na hippagem, os meninos de caiaque, eu e Joe no ping pong. Tão bom não precisar ficar trancafiada num quarto…


De noite, barco de novo pra ir até Seropédica, lugar do show. Aliás, Seropédica foi até agora a coisa mais surpreendente da semana. Era uma feira agropecuária com atrações sertanejas e de axé, e um dia de rock (oi! tudo bem?). Não imaginávamos que teria tanta gente- umas vinte mil me disseram- com som, palco e estrutura de primeiríssima. Deu gosto tocar se ouvindo bem, fica tudo mais gostoso. Nos divertimos. Voltamos para nossa querida ilha, deitados no convés do barco com vento na cara e Led Zeppelin no celular de Dedé.


Como depois da bonança sempre vem a tempestade, o dia seguinte foi um tormento. Até começou bem, com o role de barco pra sair da ilha. Fomos direto para a lona de Anchieta e o caos estava anunciado. A equipe já nos preparou psicologicamente pra o som tosco que iríamos tocar, até aí beleza. Queremos o melhor som que pudermos ter em respeito ao nosso trabalho e ao público que merece qualidade sempre, mas também não temos frescura. Já tocamos em tudo que é esquema. Voz e baixo na mesma Ciclotron e as porra. O problema é quando tudo está tosco e ainda rola má vontade. Sempre fizemos questão de tocar nas Lonas basicamente pela galera daquelas áreas (que eu tô ligada q as vezes nem vai  na Zona Sul ver show – é longe, é caro, e tudo mais). É uma questão de princípio mesmo, e de manter essa conexão com o lado mais roots da coisa. A grana que rola é basicamente só para os custos. Nesse caso, o dinheiro nem me interessa, tenho outras compensações. É vontade de estar junto daquelas pessoas também. Mas chegar lá e não ter o MÍNIMO de qualidade de som e estrutura não dá. Porque no final a gente vai acabar fazendo um show de merda porque não nos escutamos, porque o palco dá choque (tomei vários, e não é gostoso), porque o PA é desligado no meio do show por um desavisado que foi acender uma maldita luz. Sagacidade e agilidade de pensamento de Duda quando isso aconteceu: antes que eu gritasse “estratégia!” e saísse correndo, ele pulou da bateria e virou as caixas de retorno pro público, assim poderíamos malmente chegar ao final do show.


Aí chega a ser sacanagem com a galera que pagou pra assistir, então fica assim: a gente ama fazer show nas Lonas, mas agora só quando a estrutura tiver o mínimo de condição. Sei q o ingresso é barato e por isso não dá pra botar um puta equipamento e blábláblá, mas nem era isso que a gente queria. Vamo chegar num acordo aí, né minha gente? O que fez esse show ser salvo foi o público, definitivamente. Ardorosos, quentes, cantando todas as músicas inclusive na hora em que o PA foi desligado. Não sei o que seria da gente sem eles. Apesar de tudo, fizeram valer a pena. Saí do palco ensandecida, e nosso técnico já foi se desculpando pelo PA, “não fui eu não, ó, foi aquele guarda ali”. Vi um cara de farda, e nem pensei. Fui até ele. “Obrigado por ter desligado o som, o senhor ajudou muito!” Virei as costas e saí andando, até porque ainda teríamos uma segunda lona pela frente, logo em seguida. Fomos direto de uma pra outra. Vista Alegre foi melhor, pelo menos o PA funcionou até o final. E a galera de novo salvando a noite. Altas rodas, coral afinado, calor humano, físico, mental. Deu até pra tocar umas musiquinhas a mais. Massa. Devo ter falado umas coisas meio sem noção nesses shows, mas a culpa é do Tim Maia. Acabei de ler sua biografia – sensacional, devorada em dois dias e meio. Juntou a fome com a vontade de comer: eu que vivo a vida tentando controlar o meu lado reclamão e explosivo, com a história do cara que sempre botou a boca no trombone. A sorte do mundo (e talvez a minha) é que meu Tim Maia está dormindo. Faz silêncio que é pra ele não acordar.



Naftalina by
10/10/2008, 12:00 am
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Fortaleza, sei lá quantos graus. Muitos. Calor. Abri a janela e fiquei viajando na vista. Mar azul, várias embarcações ancoradas na marina. Esse clima, essa paisagem, esse cheiro, tudo isso me remeteu a minha infância. Uma época em que eu vivia na praia, e fazia parte dela. Uma época em que eu era muito íntima de mar, de areia e de seus detalhes. Eu sabia como tirar betume do pé, como curar queimadura de água viva, sabia o que fazer se pisasse numa pinaúna. Lembrei de uma parte de minha vida em Porto Seguro, pele morena e cabelos aloirados de sol. A junção do rio com o mar, rio-mangue no qual me perdi de caiaque uma vez com meus primos, Taperapuã e Cabrália. Os remanescentes índios vendendo artesanatos com seus bonés da Coca Cola.


Lembrei da barraca de praia que meu pai teve no Farol de Itapuã em Salvador, e de ir com ele todos os fins de semana, passando religiosamente na feira bem cedo para comprar caranguejo, peixe e outras coisas que seriam preparadas e servidas ao longo do dia de trabalho. De empinar pipa com os moleques da área, geralmente eu a única menina, a terra vermelha e quente, pés descalços. O cheiro de maresia e todos os desavisados que se afogaram no mar bravio do Farol de Itapuã. Maré que puxa. Eu me entendia com o mar; todas as vezes que entrava nele instintivamente realizava um ritual particular, pedindo licença em silêncio, pedindo que não me levasse, mostrando respeito. É uma entidade, o mar.

Quando passava algum carnaval ou feriado no camping na praia do Flamengo catava todos os felinos abandonados na cantina e os punha dentro da barraca, coisa que minha mãe não gostava muito. O cheiro da feijoada sendo cozida naquele fogãozinho de duas bocas portátil. Ali aprendi a andar de bicicleta, uma Cecizinha azul metálica com cestinha e garupa. E ali também tentava usar meu moreybooggie, a moda do momento pros da minha idade. Só tempos depois é que fui saber que a prancha se chamava, na verdade, bodyboard.


“Vamo andar de morey?”. “Eu não! Tampa de privada da zorra!”.

Os surfistas tiravam onda.

 

 

Fortaleza me trouxe essas lembranças e outras, e com Tom York e seu Radiohead ao fundo a nostalgia falou mais alto. Lagriminhas. O tempo passa, a gente muda. Ainda bem.

 

“No alarms, and no surprises…”