prato_do_dia
Sempre Clarice by
17/04/2007, 12:00 am
Filed under: Sem categoria
1947 Berna – Suiça

"Não pense que a pessoa tem tanta força assim a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma. Até cortar os defeitos pode ser perigoso – nunca se sabe qual o defeito que sustenta nosso edifício inteiro…há certos momentos em que o primeiro dever a realizar é em relação a si mesmo. Quase quatro anos me transformaram muito. Do momento em que me resignei, perdi toda a vivacidade e todo interesse pelas coisas. Você já viu como um touro castrado se transforma em boi. Assim fiquei eu… para me adaptar ao que era inadaptável, para vencer minhas repulsas e meus sonhos, tive que cortar meus grilhões – cortei em mim a forma que poderia fazer mal aos outros e a mim. E com isso cortei também a minha força. Ouça: respeite mesmo o que é ruim em você – respeite sobretudo o que imagina que é ruim em você – não copie uma pessoa ideal, copie você mesma – é esse seu único meio de viver. Juro por Deus que, se houvesse um céu, uma pessoa que se sacrificou por covardia ia ser punida e iria para um inferno qualquer. Se é que uma vida morna não é ser punida por essa mesma mornidão. Pegue para você o que lhe pertence, e o que lhe pertence é tudo o que sua vida exige. Parece uma vida amoral. Mas o que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesma. Gostaria mesmo que você me visse e assistisse minha vida sem eu saber. Ver o que pode suceder quando se pactua com a comodidade da alma".

 Clarice Lispector



Mulholland Drive – MG by
11/04/2007, 12:00 am
Filed under: Sem categoria

Nova Lima se localiza a poucos quilômetros de Belo Horizonte, e o show foi no Hard Rock Café. Entre guitarras penduradas na parede e um Cadillac vermelho em cima do palco, estávamos nós tocando (amarradões, pq a qualidade do som estava boa como nunca e isso faz com q seja tudo mais prazeroso), e a galera que foi assistir.

Depois do show fomos direto pra estrada, e talvez um atalho, não sei bem, mas quando paramos pra comer parecia que estávamos num filme de David Lynch.

Beira de estrada, balcão engordurado. Névoa da madrugada no ar, e pessoas com chapéu e botas de cowboy. Tudo parecia estar em um slow motion , pessoas rindo e bebendo, um cara encostado na porta do banheiro imundo fumando um cigarro com  a cabeça baixa… mas eu tinha fome, e me aproximei do balcão.

– Tem queijo quente?

– Hein?

– Queijo. Quente.

– Tem não. Só tem aquilo ali, ó, que tá na chapa.  

 

“Aquilo ali” era um punhado de carne gordurenta já meio torrada e umas lingüiças quase verdes. Meu fígado me deu um chute de advertência, eu respirei fundo.

 

– Então me dá um pão de queijo?

– Ah, o pão de queijo está fresquinho!

 

Fresquinho. Primeira mordida. Segunda.

Sabe quando vc está com um chiclete na boca e toma água gelada por cima? Pois é.