prato_do_dia
netherlands dreams by Guilherme
07/08/2006, 12:00 am
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Teríamos que ficar uma semana na Europa a pedido do contratante devido aos trâmites de passagem, e aí decidimos ( alguns de nós) dar uma chegada em Amsterdan. Tem um lance muito foda nesse aspecto: se vc já está lá, é possível viajar por vários países a preços muuuito baratos. Fomos direto do show, três horas de carro até Lisboa, e de lá mais duas horas de avião até a capital da Holanda. Chegamos sem dormir, de virote, mas a animação no máximo. Esquema aventura. Aeroporto, Centraal Station, trem. Só tínhamos um contato lá , uma amiga, e já de cara nos perdemos tentando encontrar o apê dela, com a ajuda de um taxista safado q nos deu uma roubadinha de leve. Andamos pela rua cheios de mala, muito sol e calor, que cidade linda! Nos liberamos das malas no único quarto de hotel barato q achamos e que parecia um corredor, e fomos explorar a cidade. Os olhos ardendo de sono e o corpo cansado, mas se recusando a ceder. Dutch! Que língua diferente… mistura de alemão,inglês e muitos erres. Amsterdan é uma cidade de sonho. Todos andam de bicicleta para todos os lugares, mulheres de salto alto e homens de gravata indo pro trabalho, pessoas com compras na cestinha, crianças na garupa. Quase não há carros nas ruazinhas do centro, q foi aonde ficamos, um silêncio gostoso.. e as pessoas falam baixo. Dava pra fazer tudo a pé, ou de bike, ou ainda de barco. O Amstel é totalmente navegável e eles têm um sistema fluvial q funciona como um metrô. Nesse dia nosso almoço foi a tradicional “comida de parede”, o Febo. É uma parada que tem em todo canto da cidade, vc coloca uma moedinha numa janela na parede e ela se abre, e vc pega um delicioso croquete de carne, quentinho. Ficamos batendo perna e deleitando-se com a visão daquela sociedade tão diferente , consciente, libertária. Escadas holandesas, que medo! Quase noventa graus com o chão, e degraus fininhos. Coffee shops. As pessoas com aparência tranqüila, educadas. Os carros param para os pedestres em todas as esquinas, não há buzinas, as pessoas se respeitam. A cidade oferece estrutura para quem é deficiente físico; calçadas e ônibus rebaixados para cadeira de rodas, sinais sonoros para cegos nos semáforos. Qualidade de vida igual para todos, algo que desconhecemos, e que deveria ser simplesmente o mínimo. Stampot, comida típica deles. Poffertjes, delíiicia! Mini panquecas doces de sobremesa. Museus. Red Light District, a Rua Augusta ainda mais escrachada. Diepter, um barzinho underground rolando rock.. A casa de Anne Frank é um lugar que todos deveriam visitar. É hoje uma espécie de museu, na mesmíssima casa aonde ela escreveu o diário, e aonde ela e a família ficaram escondidos por causa da perseguição nazista aos judeus. Estão lá a estrela de seis pontas, o quarto dela, o hidding place. Fiquei arrepiada de pisar naquele lugar impregnado de história. Nesse dia depois do museu, paramos em um barzinho que tinha uns colchões na calçada, tipo varandinha, e ficamos só observando. Muitas pessoas fizeram amizade conosco, um inglês, um belga… as pessoas se comunicam e se interessam umas pelas outras, pq têm tempo para isso . Trabalham, têm acesso a uma boa vida, e ainda conseguem sair do trampo e sentar num bar para relaxar. E elas não buscam conhecer outras por algum interesse, ou para tirar vantagem. È só para trocar ideias, experiências. Sem malandragem. Voltar pro hotel andando sozinha na rua as quatro da manhã sem medo de ser assaltada , estuprada ou morta é algo incrível. Nessa situação, eu percebi o qto o medo está impregnado em mim, por conta das coisas q vemos no Brasil. Mesmo sabendo que era tranqüilo, eu n podia evitar um olhar assustado pros lados, de vez em qd.

Os prédios são meio tortos, derretem, formando uma arquitetura peculiar, como se  a cidade se mexesse. Dadaísta.

Fomos numa festa local, num clube, e tinha uma banda italiana de metal farofa tocando, muito engraçado. Depois um cara fazendo sons com uns instrumentos indianos em cima de uma base programada. Depois, DJ de rock. De Jhonny Cash a Pennywise. No final, a galera local que estava nessa festa, cada um deles pegou sua bicicleta e foi pra casa.  Muito bom, simplesmente poder sair, ser só mais um no meio daquela galera, sem flash, sem holofote, sem cobrança, ser só mais um.. .  e observar. Perceber. Aprender.

 

Nesses dias, eu vi um lugar que eu achei q só existia em sonhos. Eu vi uma sociedade que funciona, que dá suporte aos seus cidadãos. Que se respeita. São saudáveis e bem humorados e parecem felizes, talvez pq morem numa cidade arborizada, não poluída, com barcos e bikes, e principalmente com a liberdade de escolha. Muita liberdade, em tudo! Na vida sexual, na roupa.  Cada um faz o que está a fim, seja fumar ou tomar cerveja, e ninguém cria um grande caso por isso. Se preocupam com o bem estar das pessoas, e isso pra mim se chama evolução.

 

(Os que moram lá também me disseram que no inverno é bem cruel, nada romântico. Mas, sempre tem q ter um lado não tão bom….)

(Voltei pro Brasil pensando em tentar brigar por esse mundo que eu vi que é possível… não foi sonho…existe!)