prato_do_dia
Small Talk
07/12/2016, 9:17 am
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“e aí, como você está?”

pra quê as pessoas perguntam isso quando elas não querem realmente saber? você recebe a pergunta, esperando que ela não seja retórica principalmente quando vem de gente próxima, ou que parece de fato se importar. e aí quando começa a responder, no meio de um relato ou desabafo vem o corte: “ah, mas é assim mesmo, isso vai passar, relaxa”. ou “mas olha como não-sei-quem está pior”. ou ainda “mas veja pelo lado bom…”

 
a intenção dessas falas até acredito ser boa; mas, na boa, muitas vezes isso soa apenas como preguiça disfarçada de consolo. desdém disfarçado de otimismo. apontar a situação pior do outro não faz com que a sua automaticamente melhore, porque a gente sente o que gente sente; e isso é grande, intenso e merece ser olhado sem desprezo.  quando você percebe no interlocutor que um sentimento que pra você é grande para ele é pequeno e irrelevante, a conversa se torna automaticamente superficial e previsível. o dito small talk, pra cumprir tabela, a modo de dizer. e aí o “como você está” acaba se tornando um mero acessório; seja pra aliviar a culpa de quem pergunta (ah, mas eu me importei, eu liguei pra saber como estava); seja como veículo para chegar no que a pessoa realmente queria: falar dela mesma. você começa a responder, de fato, como você está e o que está sentindo; e é interrompido por um ..”pois é, e eu que…?” e segue, ad infinitum, no eu, eu,  e eu, mas eu, e porque comigo.
e de repente você se sente meio besta quando a ficha cai: o objetivo desde o começo não era saber de você, e sim ter um gancho pra falar de si. aquela pontadinha de frustração que fica só lá dentro, a cara intacta, não querendo retribuir a deselegância com o mesmo.

e acho que é assim que se reconhece um grande amigo ou amiga; um grande parceiro ou parceira: quando não se perde tempo com “small talk”. quando um e outro se ouvem, profundamente, sem preguiça, com vontade e curiosidade de ir a fundo e esgotar a questão. quando não se tem medo disso, quando a conversa não se limita.

porque senão, é adotar a postura convencional e se conformar em viver sob esta condição de que ninguém quer mesmo saber. é claro que isso faz parte da vida também, não dá pra ter essa relação mais profunda com absolutamente todo mundo. mas com alguém. alguéns.

porque senão a vida vira um constante teatro farsesco de “como você está?” “estou ótima!”;
a cara linda e o coração sangrando.



Baianidade nagô
27/11/2016, 10:13 am
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Hoje vi uma matéria no jornal sobre 100 anos do Samba, e um recorte sobre o samba da Bahia. Meu Tio Clarindo estava nesse recorte, e falando do Terreiro de Jesus, da Cantina, samba do recôncavo, Riachão, Batatinha, etc.

Foi aí que me dei conta: não é que eu sou baiana não, é que eu sou baiana páporra!

Caiu a ficha de que minha primeira infância foi ali, vivida naqueles espaços que as pessoas entendem como “Salvador”, a cidade turística. Os paralelepípedos do Pelourinho eram meu caminho diário, entre minha casa na Ladeira do Prata e o Terreiro de Jesus, onde minha mãe trabalhava numa sapataria ao lado da Cantina da Lua. Eu brincava ali, eu existia ali.

O Elevador Lacerda pra nós era simplesmente um meio de locomoção; quando minha mãe tinha que resolver coisas no “Comércio” (Cidade Baixa) havia duas formas possíveis, pegávamos o Elevador ou o Bondinho.

Primeiro o bar, e depois o restaurante de meu pai também ficavam na mesma região, na Ladeira de Santana; uma ladeira paralela à do Prata. Todos os caminhos levavam ao Pelourinho, que nada mais era do que o local onde ficava o trabalho de minha mãe e o restaurante de meu tio, a Cantina da Lua.

Cresci ali; entre rodas de capoeira e batuques nas esquinas; entre turistas e locais, observando o maravilhamento – e muitas vezes a inocência-  dos “forasteiros”. Sendo local, percorria e conhecia não somente a fachada maquiada; mas as vielas, os casarões úmidos, completamente misturada ao povo preto que devia, por direito, ser dono daquele pedaço de chão. Na verdade, na minha cabeça infantil não existia “povo preto” e “povo branco”; existia o povo. Os negros são maioria absoluta na Bahia, nasci e cresci com essa realidade e isso sempre foi o natural pra mim. Estranhei mesmo é quando vim pra São Paulo; e, morando no centro da cidade, achava esquisito não ver tantos negros no mesmo espaço que eu como estava acostumada.

Voltando ao meu quintal de brincadeiras e descobertas da infância, o Pelourinho: as rodas de capoeira, a cantilena dos vendedores ambulantes, os repentistas, as baianas de acarajé, o tabuleiro de quebra-queixo e cuscuz de tapioca, os trabalhadores, os gringos com suas cores e roupas diferentes, os turbantes, as túnicas coloridas e os atabaques, as mulheres fazendo trança nas esquinas, as cadeiras de plástico na frente das casas, as igrejas, o vendedor de picolé Capelinha, os cachorros e gatos pelas ruas, o cheiro acolhedor de dendê que inunda tudo no fim da tarde. Cenas, cores e sons do meu cotidiano. Que delícia lembrar disso tudo.

Ler essa matéria trouxe à tona todas essas memórias.

Sessãozinha de análise involuntária num domingo qualquer de manhã.



ZzzZzzzzZ
01/11/2016, 6:36 pm
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não ter tido tempo pra escrever me dá uma certa aflição, como se estivesse tudo bagunçado e eu não conseguisse botar nada no lugar. como se eu precisasse achar um objeto no meio de um entulho, como se estivesse pescando de mão em águas turvas.

quando escrevo, eu me organizo.

não há tempo, os dias vêm e vão e eu quase nem percebo; que dia é hoje? e ainda se fragmenta em pedaços menores; que horas são?
parece um sonho, não no sentido idílico, mas como uma névoa diante do olho que faz com que tudo pareça esmaecido e irreal; imaginei ou aconteceu? escutei ou inventei?
deve ser o sono.



Barriga Ostentação
10/08/2016, 3:55 pm
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Sabe, eu não sabia se ia gostar de estar grávida. Eu queria ter filho com certeza, mas eu tinha dúvidas se iria gostar de passar por todo o processo de uma gravidez. Ao contrário da visão romantizada dos filmes e revistas, na minha fantasia era uma coisa muito difícil, uma renúncia gigantesca, especialmente  com minha profissão e estilo de vida. Viajando tanto, gostando da noite, imaginava minha vida social desmoronando e tudo que eu sabia indo junto. Era o medo de me afastar da única eu que eu conhecia até então e que havia construído através de todos esses anos; e de ter que me deparar e conviver com essa nova eu que eu não sabia se era gente fina ou uma chata de galocha. Na minha fantasia, a gravidez podia ser uma coisa solitária, entediante, idílica demais para a minha natureza selvagem. Lá no fundo, eu percebia mas negava o egoísmo e a arrogância contidos nesses sentimentos, como se eu fosse boa o bastante pra nem pensar em querer mudar.

Eu nunca podia imaginar o quanto estava enganada.

Ainda bem que passei por isso e pude, como se diz no popular, “pagar a língua”. Eu tô amando estar grávida. Amando, amando, besta, apaixonada. De ficar horas observando mexer, conversando, me admirando no espelho. Achando lindo e fascinante. Me achando bonita apesar das mudanças físicas, ou melhor, por causa das mudanças físicas. O olhar, os quadris que alargaram, os peitos cheios, o umbigo querendo pular; tudo lindo.
Tudo o que eu imaginava que seriam motivos para não gostar de estar grávida foram sendo desconstruídos um a um, mês a mês. De fato, no comecinho é uma solidão tremenda- pelo menos pra mim foi. Ainda não podia falar, tinha que me proteger, e todos saindo e vivendo suas vidas e eu aqui sozinha com meu segredo. E a bagunça hormonal botando pilha nessa sensação. Mas logo depois isso foi sendo substituído por outras coisas, e eu fui completamente tomada pelo gestar. O segundo trimestre é, de fato, a delícia que dizem. Barriguinha despontando, a pele linda, começando a preparar enxoval. Me entreguei completamente, e tudo ficou mais fácil. Que delícia pensar em roupinhas, em quarto, entrar em contato com todo esse mundo novo. Tudo muito novo! As amigas já mães salvando o rolê, tirando dúvidas, conduzindo. A sororidade e o aprofundamento do encontro com o feminino, a conexão com as outras mulheres.

E aí aconteceu uma coisa muito estranha: eu fiquei muito exibida. Quando vi, estava fazendo fotos e querendo postar isso o tempo todo, numa vontade louca de botar essa barriga no mundo. Será que foi uma reação ao recolhimento forçado por causa do repouso? Ou será que foi pela sensação de conquista, de poder vivenciar isso? Ou talvez só felicidade desmedida e vontade de falar sobre esse fascínio mesmo. Um empoderamento muito grande, quem sabe essa vontade veio daí?
Seja lá o que fosse, era tão atípico que me fez refletir: logo eu que sempre fui discreta e reservada, agora estava aí esfregando essa pança na cara da sociedade. Fiquei barriga ostentação.

Bom, eu sou essa coisa que racionaliza tudo e você pode imaginar tamanhos dilemas nesse caminho: um eterno posto/ não posto, será que sim ou que não, mas quero viver isso e não me reprimir, mas tenho que me preservar porque tem gente sem-noção e invasiva que acha que porque viu uma foto já é íntimo seu.

Resultado: me joguei nessa vontade. Com todos os dilemas junto; dei voz a esse novo desejo e tentei entendê-lo.
E também porque já me disseram que passa super rápido e depois a gente sente saudade, então vou mesmo aproveitar essa barriga até a última gota.

PS- Outro lance real é que o terceiro trimestre é osso duro. É tudo difícil, dói quadril, não tem posição, vontade de ficar de pijama o dia todo; um mau humor do cão e uma irritação que só por jah, viu. Mas eu tô de boa até com essa parte, só porque faz parte. Vivendo o pacote completo.

PS 2- Um pensamento que me vem o tempo todo também: uma coisa sou eu, adulta, responsável por minhas ações e minhas fotos. Outra coisa é a privacidade de uma criança. Uma vez fora da barriga a proteção tem que ser máxima mesmo, na minha opinião. Se agora já tem gente que não se toca e fica stalkeando e divulgando informações privadas, querendo saber mais do que deve, dando “conselhos” absurdos; imagine depois? Pois desde já afastando gente desse tipo. Carinho, amor e pensamentos positivos a gente aceita, agradece e retribui. Os invasivos e folgados a gente mantém beeem longe.



Sobre a Melhor Turnê da Minha Vida (Até Agora)
01/08/2016, 7:48 pm
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Dizem que a gente nunca sabe dessas coisas até passar, olhar pra trás e reconhecer. Mas quer saber? Eu estava vivendo a melhor turnê da minha vida e sabia. Conseguia sentir a cada show, a cada cidade, completamente consciente do momento-presente. Viver no agora sempre foi uma dificuldade pra mim, ansiosa por natureza, sempre refletindo sobre falhas do passado para transformar isso em acertos no futuro.

Todas as turnês que fiz nesses anos de carreira tiveram seu valor, sua importância, por cada uma tenho apego e reconheço o que dali foi mola propulsora pra chegar até aqui. Mas essa turnê foi diferente, desde o começo. Eu vinha de uma ruptura artística, pessoal e emocional; depois de uma pausa necessária e com um disco debaixo do baixo que traduzia essa história de forma bem profunda. Minha cabeça também já estava diferente, o senso de responsabilidade e a consciência de que esse trabalho tem meu nome, sou eu que respondo por isso em tudo de bom e de ruim. As rédeas, que sempre foram minhas, tomá-las com ainda mais convicção. Delegar o que dá pra ser, estabelecer parcerias, mas sabendo que no final tem coisas que ninguém pode fazer por mim.

Queria botar esse show na estrada com tudo novo, diferente, combinando com esse novo estado de espírito interno e externo- na gravação, com a entrada de Guilherme no baixo, já foi um respiro e um sopro de motivação. Só astral, só contribuição. É como se uma âncora houvesse sido removida e agora a gente podia navegar. A entrada de Paulo quando fomos montar o show pro palco reafirmou e amplificou essa sensação. Podíamos navegar, flutuar e até voar.

Nesse show, queria explorar mais a coisa do audio-visual, intensificando um experimento que começou com Agridoce. Mas queria brincar com outra estética: se no Agridoce a pegada era mais artesanal, projeções em tecido com bastante textura, vídeos granulados como filmes antigos; nessa nova turnê eu já pensava numa linguagem mais contemporânea e digital. O meu VJ, Carlos Pedreañez, veio da metade da turnê do Agridoce e desenvolveu comigo essa nova ideia: um painel de led, com um conteúdo diferente para cada música, entrelaçados e contando essa história.
Eu sentia falta de um começo. Muitas vezes a gente toca em festivais, ou com outras bandas, ou em situações em que o público está disperso e a gente simplesmente entra no palco e PUM, sai tocando. Eu queria algo que se tornasse um ritual e que capturasse a atenção das pessoas pro palco, que trouxesse esse estado de alerta e a sensação de que algo iria começar. Como os três sinais no teatro, por exemplo. Senti que eu precisava de um vídeo de abertura, e foi daí que veio a ideia. Imaginei uma cabeça falante, um fundo preto, PB bem contrastado. Um texto que introduzisse o espetáculo que viria pela frente. Eu já tinha escrito um que usei no site para falar sobre o disco, e achei que ele também seria uma boa introdução ao novo show. Filmei com Carlito, ele adicionou umas distorções na hora do live e foi lindo de ver como essa ideia funcionou na estrada, se tornando nosso ritual de cada noite, trazendo para cada show da turnê a mesma concentração e sentimento. Foi lindo de ver como as pessoas entenderam e interagiram fisicamente com isso- eureka! funcionou!
Ainda na montagem da parte visual, pra somar e jogar junto com essas novas cenas propostas, veio o design de luz. Junto com o Olair Paulino, meu iluminador, desenvolvemos parte a parte de cada música; clima a clima. Mexemos em velhos conceitos arraigados: o que se usa em todo lugar é moving light, canhão, luz  marcadinha nos músicos, luz na cara do vocalista. Tem que ter luz no vocalista, como assim não vamos ver ab-so-lu-ta-men-te tudo? Pois acho essa ideia velha e chata. Nesse show, radicalizamos um caminho que já vinha acontecendo: a luz é inteiriça, uma bruma, misteriosa, recortada nos lugares certos.
O meu show é mais escurinho mesmo, de propósito. A ideia é que as pessoas mais sintam do que vejam.
Com o apoio da minha banda e equipe entramos de cabeça nessa coisa do menos é mais. Cenas monocromáticas. E muito, muito contra-luz- ah, como a teimosia às vezes faz bem.  O contra-luz mais radical do show, do especial de Máscara, foi batalhado e construído e testado. Hoje é um dos pedaços do show que tenho mais orgulho, porque sei que foi conquistado nesse esforço conjunto que é o trabalho em equipe.

Queria mudar a formação de palco também. É sempre tudo igual, os músicos no mesmo lugar, bateria no meio mais atrás, vocalista na frente, guitarra e baixo, um de cada lado. Propus uma nova formação com a bateria de lado, e depois de vários testes e ajustes com minha equipe técnica, chegamos num resultado satisfatório de som e estética.

Tava tudo pronto, era só cair na estrada.

Ah, a estrada… tantos shows memoráveis, tantas cidades. APR e a ciranda em Recife, a dobradinha em BH, tocar na rua em Curitiba, o show da UNE no Rio, os  Circo Voadores no Rio, Parque da Juventude em SP, show da 89, João Rock… Salvador, lindamente, mais vezes do que em qualquer outra turnê. O MADA em Natal, o calor humano e físico do Norte- Manaus, Belém, a casa quase caindo literalmente. O Opinas, em Porto Alegre, tantos amigos.
Shows esgotados, todo mundo cantando tudo, as músicas novas na ponta da língua. As pessoas, já mais maduras, mais em comunhão com a gente, tudo em comunhão. Que público! Que orgulho daquelas pessoas, tão diferentes entre si, tão misturadas. Gente em estado consciente. Isso é tão precioso…

Eu mal podia acreditar, era tudo muito bom. Até os perrengues, comuns da estrada, foram legais. Tanto amor pela minha banda, pela minha equipe; que prazer encontrá-los todo fim de semana, que delícia conviver com aquelas pessoas. Explorando culinárias locais, compartilhando achados musicais nos camarins antes dos shows, farreando depois deles no buzão a caminho do próximo lugar. Eu sempre voltava pra casa pensando: “que sorte eu tenho dessas pessoas terem cruzado meu caminho. Não vejo a hora de vê-los de novo”.

E assim fomos, dois anos de turnê. O melhor é saber que está tudo documentado; e agora, compartilhado com vocês em DVD. Na verdade, a vontade de fazer esse DVD veio daí: uma sensação de que isso tudo TINHA que ficar registrado. Que é um marco na minha vida pessoal e na carreira, e merecia um testemunho. Quero ver isso lá na frente e lembrar de como essa fase foi importante pra mim, de tudo que aconteceu para que essa turnê fosse do jeitinho que foi.

Tá na rua, tá no mundo, e é nosso: Turnê SETEVIDAS Ao Vivo- 2016- Show e Documentário.

Se ainda não viu, dá uma chegada lá na home do meu site e divirta-se   :))

 
* Menção honrosa a Daniel Ferro que reeditou o show de forma magistral e acrescentou coisas de pós que fizeram com que tudo ganhasse- literalmente- outra dimensão; e a Otavio Sousa que colou comigo na ideia maluca de “sai registrando depois a gente vê que filme tem na mão”, e disso fez um dos documentários mais legais de toda minha carreira.

E também a Lobatto e meus parceiros da Na Moral que trabalharam pra viabilizar essa tour na estrada. Levar essa estrutura e equipe completa pra show de rock no Brasil não é moleza não! Muitas horas pensando em logística, formas e meios para que o show tivesse a mesma qualidade padrão em todos os lugares, sem que isso se refletisse em ingressos exorbitantes 😉



Conexões e Entrelaces
23/06/2016, 6:39 pm
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Por causa do clipe novo, andei pensando sobre minha conexão com Novos Baianos e vi que ela vai além da música. “Dê Um Rolê” é uma composição de Moraes Moreira e Luiz Galvão. E, pra quem não sabe, Galvão é um dos pais de Peu, meu amigo desde a adolescência e grande guitarrista. São dele as guitarras e os arranjos no Admirável Chip Novo e tocamos juntos também em alguns projetos anteriores. Desse convívio com os irmãos de Peu, na casa deles, com Janete, Galvão e sua banda, bem antes de minha carreira solo, tenho lembranças muito afetuosas.

Paulinho Boca de Cantor é pai de Betão, um baixista magnífico, músico sensível e uma das pessoas mais amorosas de se encontrar. Nos vemos pouco, mas mesmo à distância tenho por ele um carinho de irmão. E quando nos falamos é assim, com esse afeto e esse dengo.

Com Pedro Baby foi a mesma coisa: desde a primeira vez que tocamos juntos, o entrosamento no palco me soou tão natural e instintivo que parecia que eu tinha reencontrado alguém que eu já conhecia. Além de um grande músico- um dos mais talentosos que já conheci- fora do palco tudo sempre fluiu com uma naturalidade familiar. Nana Shara e Zabelê, também filhas de Baby e Pepeu, conheci há um tempão num carnaval em Salvador. E outro dia encontrei Zabelê no Circo e foi como encontrar uma prima ou parente, ela me contando as novidades do seu disco novo e de como estava empolgada com isso. Papo de comadre, como se tivéssemos nos visto ontem.

Lembro também com carinho de Giló e Davi, filhos de Moraes; com os quais já cruzei nas andanças soteropolitanas e musicais.

Eu guardo essas lembranças doces, e hoje todas elas me vieram e mais algumas porque foi como se caísse uma ficha: não sei se por termos a mesma idade e sermos da mesma geração, e muito também por afinidade mesmo, mas o fato é que, especialmente através dos filhos, é como se eu fizesse parte dessa família também. Dessa família musical, ancestral, espiritual, da baianidade nagô que nos liga e da diáspora pela qual cada um teve que passar, de cada história tão rica desses indivíduos que, juntos ou separados, foram e sempre serão uma força da natureza.

Meu eterno amor e gratidão à Moraes, Galvão, Paulinho Boca, Baby, Pepeu, Dadi, Jorginho Gomes e a todos que passaram pela trupe.

Salve, salve; Novos Baianos. <3



gerar e gerar
14/06/2016, 7:21 pm
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tava aqui pensando que ultimamente tenho tomado um cuidado racional em não ficar só postando/falando sobre coisas de gravidez. mas é tão difícil!
porque isso te toma, e te toma inteira, e é tanta coisa pra resolver e é tão gostoso.

então acho que tem mais é que viver isso mesmo e se entregar para esse momento quase que monotemático. passa tão rápido, não tenha medo de ficar imersa- eu digo a mim mesma.
o mundo lá fora vai sobreviver bem sem você, esquece tudo, olha para isso.
olha essa barriga crescendo e todas essas sensações novas e intrigantes.

quem já passou sabe: é assim mesmo. o universo inteiro se torna esse, as coisas giram em torno desse assunto de maternidade e aprendizado e preparativos para esta nova fase. eu não sabia disso antes, só compreendo agora.

e tem é coisa pra fazer, viu. é enxoval, é quartinho, é pediatra, é maternidade… e pensar/ler/ pesquisar sobre tipos de parto e procedimentos com o bebê. tenho lido muito sobre maternidade ativa e parto humanizado. tem tanta coisa que ainda não sei.

mesmo sabendo que  grande parte do meu universo nesse momento gira em torno disso, a minha natureza grita e se regozija com o fato de poder realizar coisas de arte e de trabalho em paralelo: muito feliz de lançar o DVD ao vivo da turnê SETEVIDAS no dia 13 de  julho; e muito feliz com outras coisas de trampo que estão rolando e por vir em breve também. isso me completa.

é gerar e gerar. enquanto faço cílios, dedos, fígado, pulmões e coxinhas gordinhas exerço também essa parte essencial de mim que vive de palco, com a chegada de dois filhos aos mesmo tempo: o DVD, e o baby; vindo juntinhos de mãos dadas.

que delícia. :))



normatividade patriarcal na educação
29/05/2016, 10:45 am
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a pessoa lê “os estupradores eram homens (e não seres mitológicos) e entende como “todo homem é um estuprador”. como chegamos a isso?

eu detesto esse papo de “as pessoas não me entenderam porque elas são burras”, acho pedante. acredito em comunicação como via de duas mãos, mas em certos casos é preciso observar o alcance de entendimento e mensurar o nível de ignorância, principalmente em relação ao subjetivo, ao figurado e ao metafórico.

na questão dessa semana em particular, me surpreendeu o baixo nível cognitivo e falta de capacidade de interpretar uma sentença simples- subjetiva, mas simples.
claro, houve também a má-vontade e a manipulação: depois percebi que algumas páginas direcionaram a informação nesse sentido, e usaram isso como ataque por serem contra tudo que acredito: são machistas, homofóbicos, defensores de pena de morte, tortura e outras crueldades físicas e psicológicas. acho isso tudo péssimo, e não acredito em violência como solução para a violência. acredito em conscientização, direitos iguais, justiça e educação; e esse era o ponto. essa era a chamada de reflexão da fala: como estamos educando nossos meninos e homens?

NÓS sim, enquanto sociedade.

eu, você, cada um de nós. não adianta lavar as mãos. se a pessoa não enxerga a relação entre violência contra a mulher e a forma que educamos nossos meninos e homens, já começamos com um problema. a educação das meninas também, por tabela nessa normatividade patriarcal que as ensina a se reprimir, a terem medo de se vestir, de andar na rua, de se expressar. mesmo a educação dentro de casa sendo exemplar, os meninos e meninas vão lidar com isso da porta pra fora, vocês sabem disso. nós lidamos. nossos filhos vão lidar, e nossos netos e bisnetos, a menos que a gente comece a olhar essa questão com honestidade, reconheça que isso acontece e quebre esse ciclo.
 
você ensina seu filho a respeitar as mulheres, e na roda de amigos ele vai ser chamado de frouxo porque não engrossou o coro de “gostosa” quando uma menina passou por eles.
você o ensina que “não é não”, e no banheiro da escola ele vai ser ridicularizado porque não conseguiu “traçar a mina”.
você mostra a ele que homens e mulheres têm os mesmos direitos, mas na rua ele vai se sentir impelido a corresponder à esse padrão que diz que “mulher tem que se dar ao respeito”. “se estava na rua é porque estava pedindo”; e todos esses absurdos que a gente vê serem repetidos todos os dias
está claro o sentido do “aprendem”?

esse conjunto de situações de desigualdade de gênero, objetificação, desumanização e culpabilização da mulher é o que se chama de cultura do estupro.

aí eu volto na ignorância: “como assim estupro é cultura, que absurdo”. pois é, eu tive que ler isso, rs.
ninguém tem obrigação de nascer sabendo, mas cadê a curiosidade, a vontade de aprender? será que antes de escrever uma bobagem assim a pessoa não pensa “hum, o que será isso? deixa eu procurar saber”. e hoje é tão fácil, com um clique isso se resolve. se a pessoa tivesse pesquisado, teria descoberto o que significa o conceito de cultura do estupro, e por quê esse termo é usado. pode concordar ou não, mas pelo menos saberia do que se trata.

meu chamado desde o começo foi à reflexão. não adianta vestir a carapuça. é preciso tirar o ego da frente e discutir questão de gênero de forma ampla e honesta.
quando não fazemos isso ou lavamos a mãos, nossa responsabilidade sobre toda violência que permitimos que aconteça com as meninas e mulheres aumenta



Viva O Redondismo
26/04/2016, 6:41 pm
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Uma profusão de pelos, unhas, cabelos. Tudo cresce, tudo muito.

Tudo adquire um formato sinuoso e arrendondado; rosto, peitos, coxas, bunda, barriga. Tudo transborda, se espalha, não cabe. No sutiã, nas roupas, nos sentimentos, eles também não cabem e transbordam às vezes em ovaladas lágrimas nas bochechas, já redondas.

A cabelereira vasta e cheia, a pele que se amacia, os pelos que se recusam a permanecer rentes e brotam de forma desordenada.  A natureza numa de suas formas mais vigorosas, impondo veementemente sua necessidade de abundar e florescer, a despeito das vontades estéticas e certezas construídas numa vida social.

Tudo escapa, tudo foge ao controle e segue seu próprio curso.
É uma selvageria, um reencontro com o bicho. Observo essas manifestações físicas e embora ao longo dos tempos tenha aprendido a domar e civilizar isso tudo, penso que agora talvez seja hora de deixar tudo solto; pelos, peitos, cabelos; soltos das lâminas e das tintas, e das roupas que apertam e modelam, não me cabe mais modelar. Ceder a uma força maior, à forma maior que se impõe, se deixar espalhar e arredondar, e celebrar.

Como bem disse minha amiga Sora Maia: viva o redondismo.



sobre o show de domingo
01/04/2016, 11:58 am
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Oi gente, tudo bem com vocês?

Eu tenho uma noticia boa e uma meio chata. A boa é que eu tô grávida! Era uma coisa que eu e Dani queríamos muito, por causa dos compromissos assumidos adiamos, mas aconteceu. Tô aqui, gravidinha e muito feliz com a expectativa dessa nova aventura 🙂

Quem me acompanha sabe que sou super reservada, não curto ficar expondo vida pessoal, prefiro falar de trabalho e tal. E é justamente por isso que eu resolvi compartilhar a notícia acima dessa forma com vocês. Porque junto com essa coisa maravilhosa veio uma situação que envolve as pessoas que trabalham comigo e também as que curtem meu som, e aí eu entendo que é justo dar uma satisfação.

Bom, lá vem a notícia meio chata: o ritmo da estrada é muito pesado, muitos voos, longas viagens de ônibus, tudo muito puxado mesmo. Então para minha proteção e a do bebê, meu médico recomendou (meio que me obrigou porque sou teimosa) a fazer repouso total. É por isso que, com o coração apertado, comunico a vocês que não vou poder participar do primeiro show gratuito do projeto Nívea Viva Rock Brasil.

Vocês podem imaginar o turbilhão de pensamentos e emoções que estão se debatendo aqui dentro com todos esses hormônios e fatos novos no caminho.
Mas, isso é vida! Por mais que se planeje, no final a gente tem é que lidar com as coisas que acontecem e eu quero manter isso no positivo. Procuro entender a importância desses fatos e, apesar de querer fazer tudo ao mesmo tempo, não posso contrariar as ordens médicas.

Agradeço muuuito o suporte de todo o pessoal da Nívea, que têm sido incrivelmente carinhosos e compreensivos o tempo todo.

E conto com o amor e o apoio de vocês, como sempre <3

Love, P.