Autobiografia Não Autorizada
 Sonhei que sonhava
 Desdobramento
 Radio Days
 Pregui de gen
 Festa Punk
 Fracasso
 Ensaio Sobre A Magreza
 Je ne sais pas
 Lado Z
 Semi-breve
  Coachella #Prelúdio
 Coachella #DIA 3- Todo Festival Tem Seu Fim
 Coachella #DIA 2- Lavando a Alma
 Coachella #DIA 1- Em Busca do Ticket Sagrado
 Twittosfera
 Manual de Desinstrução
 Byroniando
 Early Days
 Ela
 A quem interessar possa
 Carnarock em Salvador
 I love SP
 Una Cueca-Cuela por favor
 Lá vamos nós outra vez
 " big fish, big fish, swimming in the water..."
 A Busca
 Solução sim
 wannatogobacktobahia
 "Mais grave! Mais agudo! Mais eco! Mais tudo!"
 Naftalina
 Ela, a Pimentinha
 Bukowskiando de leve
 Para dentro e avante
 "Tudo que a antena captar meu coração captura"
 Band Aid
 Amor em tempos de ceticismo
 Entre a insônia e a ressaca
 Sempre Clarice
 Mulholland Drive - MG
 Walk On The Wild Side
 Papel e caneta
 A Peleja da Pupila com o Dono da Psicodelia
 netherlands dreams
 Quem Vai Ferver
 Insomniac
 à un amí lointain
 Back to the bar
Segunda - 26/04/2010
Coachella #DIA 1- Em Busca do Ticket Sagrado



Eu e mais uns amigos num carro, pegamos a estrada cedo saindo de LA em direção à Indio. Nenhum de nós tinha comprado ingresso, e a notícia de que estavam esgotados não tinha causado nenhum alarde maior porque, segundo pessoas que foram em anos anteriores, era bem fácil de achar na porta com algum cambista ou algo assim. Um gigantesco engarrafamento se formou muitos quilômetros antes do portão de entrada, e foi ali que caiu a ficha da situação. Os carros ao lado, as pessoas que andavam pela calçada, TODOS procuravam por tickets. Era a pergunta geral, repetida centenas de vezes: “anyone have extra tickets? please? anyone?”. Porra, então é verdade. Tá sold out mesmo e pelo jeito não tem nenhum cambista vendendo. Começou a bater um desesperinho. Passamos quatro horas nesse maldito trânsito, num calor de lascar, e a cena se repetia. Tentamos algumas estratégias. Pegamos uns guardanapos e escrevemos “TKTS?”, penduramos nas quatro janelas. Um dos nossos desceu e saiu pela fila de carros perguntando. Nada. A fauna nos veículos ao redor era um espetáculo à parte: garotas empolgadas, gente fantasiada, som alto, todos animados. Um carro parou bem ao lado e um cara carregava uma plaquinha: “got psychedelic drugs?” Se ele tivesse alguns extra tickets a gente até tentava dar um jeito. Não era o caso. Horas depois conseguimos chegar ao estacionamento, e veio a empolgante notícia de que havia aparecido um cara com ingressos. Vou meio que poupá-los de algumas idas e vindas, mas basicamente teríamos que encontrar esse cara lá atrás , ou seja, voltar TODO o caminho e pegar o trânsito de novo. Tentamos ir a pé, era longe, estiquei o dedo e pedi carona, nada aconteceu, o calor desértico derretendo os miolos, pegamos novamente o carro, fomos até o cara, e quando finalmente peguei o bendito ingresso nas mãos quase derramei uma lagriminha. Que batalha, amigo. Toda essa epopéia durou a tarde inteira, e no engarrafamento de volta pro festival olhei o programa e me dei conta de que Them Crooked Vultures deveria estar subindo ao palco naquele momento. Os carros não andavam. Desci, eu e minha mochilinha, e fui a pé. Passando pela portaria eu pude ouvir os primeiros acordes de Scumbag Blues, e corri, corri MUITO até chegar ao palco principal. Equilibrando a falta de ar pela corrida desenfreada com a emoção de ver os caras no palco, consegui assistir mais da metade do show deles. Foi lindo. Josh é um deus. Grohl é um monstro. Mr. Jones é pura classe. Ao vivo soam coesos e poderosos, e eu lá sozinha no meio da multidão de mochila nas costas, extasiada. Achei o show meio curto (ou era minha vontade de que não acabasse nunca), e no final fui encontrar o resto da galera no local que tínhamos combinado: Sahara, a última tenda, segunda janela do lado direito. Até então, eu não tinha noção do espaço físico do lugar, e aquilo é ENORME. Anda-se para caralho pra se chegar de um palco ao outro. E eu não tinha mapa, tava que nem barata tonta andando em círculos. Peguei umas direções erradas, mas quem tem boca vai à Sahara, e uma hora cheguei. Essa é a tenda onde rola música eletrônica, e a babilônia por lá já estava armada. Povo dançando em altas. Achei meus companheiros e dei uma passadinha no LCD Soundsystem. Foi nessa hora que descobri que lá não se vende álcool assim, tão facilmente como aqui. Para beber, tinha-se que pegar uma pulseira mostrando que você era maior de 21 anos, ir até um lugar específico e rodeado por cercas, e não era permitido sair daquele espaço com nenhuma bebida nas mãos. Tudo tinha que ser consumido ali dentro. Meio que tive que dar um shot numa margarita pra não perder os próximos shows, e pensei em dar um jeito de contrabandear uma vodkinha na mochila no dia seguinte. Bico seco não dá, né. O resto da noite foi quicando de um palco pro outro pra tentar ver o maior número de coisas possíveis: passei pelo Vampire Weekend, dei uma fritadinha no Benny Benassi, vi a Céu, um pedacinho do PIL e Whitest Boy Alive e numa hora perdida um som minimalista, denso e estranho chamou minha atenção. Fui até lá e a cena era surreal. Pessoas balançando-se lentamente de um lado pro outro, todos com os braços para cima. Parecia uma espécie de culto dark, com umas luzes sombrias. Era o Fever Ray.

(Pausa. Não lembro bem o que aconteceu depois, acho que fui abduzida, ou algo assim. Pula essa parte.)


Na passagem para um outro palco me deparei com uma das instalações artísticas presentes no festival: um painel de LED em 3D, com milhares de luzinhas coloridas e movimentos alucinantes. Sentamos na grama e ficamos horas viajando naquilo, interagindo com pessoas ao lado, tal qual mariposas hipnotizadas pela luz. Saí do transe, e o fim de night foi com Deadmau5 na tenda eletrônica, gastando os últimos momentos-doces. Reward is cheese, dude.



* A volta pro hotel foi cruel. Andamos interminavelmente e ficamos mais umas duas horas dentro do carro, presos no trânsito. No apartamento alugado pra oito pessoas, esquema hippie: colchões pela sala, cada um se jogando aonde dava. Segundo um sábio amigo, isso é o de menos. Você chega tão exausto do sol, das caminhadas e dos shows que você dorme até de cabeça pra baixo. E é verdade. Desde que alguém não ronque.
 
  Gorjetas (53)