Sonhei que sonhava
 Desdobramento
 Radio Days
 Pregui de gen
 Festa Punk
 Fracasso
 Ensaio Sobre A Magreza
 Je ne sais pas
 Lado Z
 Semi-breve
  Coachella #Prelúdio
 Coachella #DIA 3- Todo Festival Tem Seu Fim
 Coachella #DIA 2- Lavando a Alma
 Coachella #DIA 1- Em Busca do Ticket Sagrado
 Twittosfera
 Manual de Desinstrução
 Byroniando
 Early Days
 Ela
 A quem interessar possa
 Carnarock em Salvador
 I love SP
 Una Cueca-Cuela por favor
 Lá vamos nós outra vez
 " big fish, big fish, swimming in the water..."
 A Busca
 Solução sim
 wannatogobacktobahia
 "Mais grave! Mais agudo! Mais eco! Mais tudo!"
 Naftalina
 Ela, a Pimentinha
 Bukowskiando de leve
 Para dentro e avante
 "Tudo que a antena captar meu coração captura"
 Band Aid
 Amor em tempos de ceticismo
 Entre a insônia e a ressaca
 Sempre Clarice
 Mulholland Drive - MG
 Walk On The Wild Side
 Papel e caneta
 A Peleja da Pupila com o Dono da Psicodelia
 netherlands dreams
 Quem Vai Ferver
 Insomniac
 à un amí lointain
 Back to the bar
Terça - 09/03/2010
Manual de Desinstrução
Li hoje uma matéria no jornal sobre o lançamento de um livro que ensina macetes para se compôr um hit. Ele diz que “a voz deve entrar na música nos primeiros sete segundos” e que “não deve ter passagens instrumentais” pois isso causa o desinteresse do ouvinte. Claro, imagino que ele esteja falando sobre música pop pelos exemplos citados na matéria (Ke$ha, Beyoncé, Black Eyed Peas), mas ainda assim não consegui evitar traçar um paralelo com as bandas brasileiras e toda essa coisa de formatação. Não vou ficar aqui falando da vida e das opções de outros artistas; embora eu não consiga particularmente me emocionar com quase nenhuma banda de rock brasileira atual, minha regra é clara: viva e deixe viver. Por isso prefiro falar sobre de que forma isso funciona pra mim e pra minha banda. Nunca concordei e sempre tentei me desvencilhar de todas essas convenções impostas, leia-se; simpatia e interação com público é falar o tempo todo e mandar pular, sair do chão, botar mãos pro alto;  diga “eu amo vocês” e “esse é nosso melhor show” a cada show que fizer; elimine os improvisos e jam sessions. Ponto a ponto: o conceito de simpatia é muito distinto pra cada um. Falar o tempo todo e usar verbos no imperativo para “agitar a galera” pode parecer simpático a alguns, pra mim é apenas chato e previsível. Caricatural, até. Pessoalmente, gosto de falar quando acho que tenho algo a dizer, e se em alguma hora sai um “só vocês” e “cantem comigo” com certeza é a vibe do momento, e não uma regra que pontua todos os refrões. Houve dias em que eu estava mais calada e em outros bastante tagarela. Mais uma vez, pra mim o que vale é que seja espontâneo. O mesmo serve para o “eu amo vocês, esse é nosso melhor show”. Se for verdade, por quê não dizê-lo? E as vezes é verdade mesmo, mas tendo banda eu sei que é praticamente impossível que absolutamente todos os shows sejam os melhores. Inclusive, se todos forem “os melhores” não há mais elemento comparativo, certo? Algum precisa ser “menos melhor” para que outro seja, de fato, o melhor. Acontece.
Último ponto: eliminar instrumentais, jam sessions, improvisos. Uma pena. Isso pra mim significa o fim da espontaneidade e do que faz cada show ser único. Gosto, quando assisto a um show, de ver os músicos pirando, criando ao vivo, deixando a música levar. Talvez isso venha do fato de curtir coisas como Led Zeppelin, Mars Volta, Frank Zappa, músicos de jazz. Não precisa exagerar e passar horas improvisando e nem precisa ser regra, acontecer em todo show. Mas quando rola com a gente no palco, eu me divirto e aproveito. Espero que as pessoas também.
Quando vejo algumas bandas hoje em dia, percebo que se sujeitam a muitas dessas regrinhas, muitas vezes até sem saber. Sujeitam-se a outras também, como a de descobrir uma fórmula que funciona musicalmente e não modificá-la nunca, plagiando a si mesmos disco após disco.  E parece que parte do público aprova; quando lançamos o Chiaroscuro a acusação de “estar diferente” me levou a pensar isso. Ou quando o Arctic Monkeys lançou o Humbug e alguns fãs antigos vieram com o mesmo discurso. Ou quando Faith No More lançou Angel Dust, ou o Metallica cortou o cabelo. Engraçado que pouca gente traz o argumento de bom/ruim, gostei/não gostei. O “diferente” assusta mais, desestrutura tudo, faz com que todo mundo reveja seus conceitos a respeito de algo que já tinha catalogado dentro da cabeça. O diferente dá mais trabalho. Pra mim o que conta no final é, além de ser tocada ou não pelo novo disco da banda em questão, se aquilo é real.  Me interessa é se essa é a verdade da banda naquele momento, como quando Muse lançou o The Resistance. Uma vez, Martin me contou que um músico de uma banda bem sucedida disse à ele: “descobre uma coisa que as pessoas gostam e fica nela”. Minhas mãos suam e eu entro em pânico só de pensar nisso. Essa é a síntese da anti-criatividade. Podem nos chamar de qualquer coisa, podem não gostar das minhas músicas, das minhas escolhas, da minha cara, do meu jeito. Mas ninguém nunca vai poder dizer que não tivemos coragem.
 
  Gorjetas (557)