Parece que alguma coisa mudou em Salvador de um ou dois anos pra cá. Morei lá a minha vida inteira, e todo Carnaval era a mesma coisa: pra todo um contingente de pessoas que curtiam rock e outros estilos musicais que não os característicos dessa época do ano, a sensação era de orfandade. Não havia muito o que fazer senão fugir. Havia (e há) o Palco do Rock, que acontece todos os anos na orla e que de certa forma é uma válvula de escape. Presenciei ali bandas muito legais e outras nem tanto, a estrutura algumas vezes era muito frágil e a verba destinada ao projeto normalmente não permitia atrações de peso. Não sei bem como estão as coisas atualmente nesse sentido. Mas me sentia confortada por pelo menos ter o Palco, um espacinho que fosse, me conformando em sermos colocados num bairro distante do circuito momesco, à margem da celebração que acontecia em outra parte da cidade. Sendo roqueiro e baiano, sentir-se marginalizado era algo bastante corriqueiro, tanto a ponto de no final achar que tinha que ser assim mesmo. Não nos misturamos. Somos óleo e água. Eu particularmente me adaptei a essa situação, e convivi com ela durante todos esses anos, mas um pensamento não me abandonava: por quê o rock (e afins) baiano continuava a ser tratado como o filho troncho que quando as visitas chegam os pais mandam ir pro quarto? Por quê tínhamos que ficar afastados, distantes, isolados na nossa turminha, sem ter a oportunidade de que todas aquelas “visitas” nos vissem tocar? Uma coisa que me fez ter certeza de que era possível foi observar o Carnaval de Recife. Ritmos populares convivem democraticamente e lindamente com outros estilos musicais , todos juntos e misturados no mesmo espaço físico. Todo mundo sabe que Carnaval é uma tradição antiga que hoje é sinônimo de axé, escola de samba, frevo, maracatu, samba-reggae, etc. Todo mundo sabe que gringo que vem pro Brasil nessa época quer ver aquele espetáculo, mulatas semi-nuas requebrando e ter contato com um ritmo totalmente desconhecido pra ele. É justo. Se eu algum dia for na Romênia provavelmente vou adorar assistir os grupos de música tradicional de lá. Mas pra muitos de nós que vivem aqui e que particularmente não se sentem tocados pelo espetáculo em questão, é uma época de limbo. E eis que, de um tempinho pra cá, novas coisas vem acontecendo no Carnaval baiano. Inserções de música eletrônica, bandas de reggae e pop. E rock. Ano passado Cascadura, Retrofoguetes e outros cometeram a façanha de conseguir botar um trio na rua, graças a esse projeto de Trios Elétricos Independentes, via editais. E nesse ano chegou a nossa vez. Sim, tocaremos num trio elétrico no Carnaval de Salvador, no circuito mais tradicional da festa: o do centro da cidade. Finalmente uma pequena parte nos cabe nesse latifúndio. E melhor: fazendo nosso show do jeito que ele é, sem mudar uma vírgula. Poderemos ser o que somos, agora nos querem assim. Finalmente. Fomos convidados por Radiola e Nancy Viégas pra sair no Carnivalha, um dos trios desse projeto dos independentes. Uma coisa bacana desse projeto é resgatar o “carnaval pipoca”, aquele em que todo e qualquer cidadão tem o direito de participar sem pagar nada. Isso é algo que vinha se perdendo através dos anos, quando a festa passou a ser majoritariamente feita por blocos que cobram pelo abadá, ou por camarotes igualmente pagos. A “festa do povo”, o ir para as ruas e curtir sem precisar desembolsar quantias muitas vezes exorbitantes foi-se desvanecendo. Pois bem, essa oportunidade de agora me enche de esperança. Esperança de um diálogo e de respeito cada vez maior entre todos os estilos musicais, esperança de que cada vez mais as pessoas tenham direito de escolha. Quem curte axé vai poder se esbaldar ao som das bandas tradicionais, quem curte bloco afro vai poder cair pra dentro do Ilê, Olodum e tantos outros. E quem curte rock que venha aproveitar com a gente, Radiola, Nancy, Retrofoguetes, e muitos mais. Desejo secretamente olhar lá de cima e ver muita, muita gente; desejo que esteja lotado; desejo que todos nós cantemos tão alto para que todos agora escutem nossa voz. Existimos. Nesse sábado de carnaval, dia 13/02, junte seus amigos, avise a todos os conhecidos e venham comemorar com a gente no centro da cidade (circuito Osmar) a partir das 20 hs. Temos muito o que comemorar. Mais uma batalha foi vencida.
* Vale se informar sobre as atrações dos outros dias, parece que o Retro sai segunda-feira. * O Palco do Rock desse ano também tem bastante coisa legal e rola dias 13,14, 15 e 16/02. |