Tava aqui me lembrando da primeira vez que pisei os pés em São Paulo. Foi no Hollywood Rock 96, e eu tinha acabado de fazer dezoito anos. Doida pra me jogar pelo mundo desde sempre, mal via a hora de ficar “de maior” e poder viajar numa boa. O festival era o motivo perfeito; amigos de Salvador também estavam vindo, e eu não tinha grana para mais nada além da passagem (de ônibus) e ingresso para um dia. O resto eu esperava conseguir, como diria Panço, através da difícil porém emocionante arte de viver de graça. Entrei no ônibus na rodoviária de Salvador munida de uma mochila contendo itens básicos e outras cositas más que me garantiriam a sobrevivência, meu walkman de fita cassete, e alguma coragem. Não sei se alguém aí já experimentou passar mais de 30 horas dentro de um ônibus com um monte de gente desconhecida, parando em localidades de beira de estrada que mais parecem saídas de filmes. Taí uma experiência válida. É massacrante claro, afinal é UM DIA E MEIO da sua vida dentro de um veículo; mas naquela ocasião tinha um sabor diferente. Eu estava indo ver o mundo, e sozinha. Finalmente cheguei no terminal do Tietê. Não tinha a menor idéia de pra onde ir, que direção tomar, ou mesmo como chegava dali até o centro da cidade. Estamos falando de 1996, e isso significa nada de celular ou internet disponível e Google Maps menos ainda. Mas eu tinha um número de telefone. Bianca, meu único contato nessa cidade. Bianca era minha amiga de infância e sempre passava as férias na casa do tio em Salvador, que era no meu prédio. Todo ano tínhamos encontro marcado no verão, e aprontávamos a valer. Companheironas mesmo, de se meter em altas roubadas inclusive. Ela adorava uma aventura e era impetuosa, e eu a admirava imensamente por isso. E ela morava em São Paulo. Caminhei até o orelhão mais próximo e Bianca atendeu:
- ... vem aqui pra casa, eu moro na Rua Pamplona.
- Mas Bi, eu não sei como é que chega aí.
- Pega um táxi e dá o endereço.
- Não rola. Grana tá curta. Explica como faz pra chegar de metrô que eu consigo.
- Então tá, é assim: você pega um sentido Jabaquara. Presta atenção na direção que ele tá indo senão você vai parar do outro lado. Aí você fica ligada e desce na Paraíso pra fazer baldeação.
- Balde...o quê?
- Você vai trocar de trem. Desce aí e procura o que vai sentido Sumaré. Aí é rapidinho, mais duas estações e você desce na Trianon-Masp. Sobe pra rua e pergunta aonde é a Pamplona que o pessoal te fala.
- Tranquilo. Um dia eu chego aí, beijo.
Eu nunca havia entrado num metrô em toda a minha vida.
Tudo era novo, inédito e eu estava adorando. Outro cheiro, outra paisagem. Sem maiores problemas, desci na estação que ela disse que eu deveria descer. Pô, tem duas saídas. Não sei por qual lado devo subir. Escolhi um deles na intuição e fui. Parei na calçada e olhei, para um lado e para o outro. Prédios altos enfileirados e um corredor de carros no meio. Pensei nos prédios como cordilheiras, e na rua do meio como um rio de águas revoltas. Uau, quanta gente de paletó e gravata. E como eles correm. Nunca vi ninguém andar tão rápido, eu acho, devem estar com bastante pressa. Ih, ó lá, uns skatistas e tatuados do outro lado da rua. Ninguém fica olhando estranho pra eles, legal. Precisava chegar na Bianca. Resolvi parar um dos apressados, achei que ele iria me atropelar mas não. Ele parou, um tanto quanto impaciente.
- Moço, por favor, que rua é esta aqui?
Ele me olhou com uma cara estranha, e por alguns segundos achei que tinha feito algo errado, ou que eu era de outro planeta. Com uma expressão irônica e um sorrisinho de canto de olho, ele me disse:
- Essa “rua” aqui é a Avenida Paulista.
E foi embora.
Ontem foi aniversário de São Paulo, a cidade que escolhi morar por pura identificação, e eu ganhei de presente o prazer de tocar no Sesc Interlagos pra um galera enorme e muito viva. O resto da saga do Hollywood Rock eu conto em outra ocasião, talvez. |