Autobiografia Não Autorizada
 Sonhei que sonhava
 Desdobramento
 Radio Days
 Pregui de gen
 Festa Punk
 Fracasso
 Ensaio Sobre A Magreza
 Je ne sais pas
 Lado Z
 Semi-breve
  Coachella #Prelúdio
 Coachella #DIA 3- Todo Festival Tem Seu Fim
 Coachella #DIA 2- Lavando a Alma
 Coachella #DIA 1- Em Busca do Ticket Sagrado
 Twittosfera
 Manual de Desinstrução
 Byroniando
 Early Days
 Ela
 A quem interessar possa
 Carnarock em Salvador
 I love SP
 Una Cueca-Cuela por favor
 Lá vamos nós outra vez
 " big fish, big fish, swimming in the water..."
 A Busca
 Solução sim
 wannatogobacktobahia
 "Mais grave! Mais agudo! Mais eco! Mais tudo!"
 Naftalina
 Ela, a Pimentinha
 Bukowskiando de leve
 Para dentro e avante
 "Tudo que a antena captar meu coração captura"
 Band Aid
 Amor em tempos de ceticismo
 Entre a insônia e a ressaca
 Sempre Clarice
 Mulholland Drive - MG
 Walk On The Wild Side
 Papel e caneta
 A Peleja da Pupila com o Dono da Psicodelia
 netherlands dreams
 Quem Vai Ferver
 Insomniac
 à un amí lointain
 Back to the bar
Sexta - 10/10/2008
Naftalina

Fortaleza, sei lá quantos graus. Muitos. Calor. Abri a janela e fiquei viajando na vista. Mar azul, várias embarcações ancoradas na marina. Esse clima, essa paisagem, esse cheiro, tudo isso me remeteu a minha infância. Uma época em que eu vivia na praia, e fazia parte dela. Uma época em que eu era muito íntima de mar, de areia e de seus detalhes. Eu sabia como tirar betume do pé, como curar queimadura de água viva, sabia o que fazer se pisasse numa pinaúna. Lembrei de uma parte de minha vida em Porto Seguro, pele morena e cabelos aloirados de sol. A junção do rio com o mar, rio-mangue no qual me perdi de caiaque uma vez com meus primos, Taperapuã e Cabrália. Os remanescentes índios vendendo artesanatos com seus bonés da Coca Cola.


Lembrei da barraca de praia que meu pai teve no Farol de Itapuã em Salvador, e de ir com ele todos os fins de semana, passando religiosamente na feira bem cedo para comprar caranguejo, peixe e outras coisas que seriam preparadas e servidas ao longo do dia de trabalho. De empinar pipa com os moleques da área, geralmente eu a única menina, a terra vermelha e quente, pés descalços. O cheiro de maresia e todos os desavisados que se afogaram no mar bravio do Farol de Itapuã. Maré que puxa. Eu me entendia com o mar; todas as vezes que entrava nele instintivamente realizava um ritual particular, pedindo licença em silêncio, pedindo que não me levasse, mostrando respeito. É uma entidade, o mar.

Quando passava algum carnaval ou feriado no camping na praia do Flamengo catava todos os felinos abandonados na cantina e os punha dentro da barraca, coisa que minha mãe não gostava muito. O cheiro da feijoada sendo cozida naquele fogãozinho de duas bocas portátil. Ali aprendi a andar de bicicleta, uma Cecizinha azul metálica com cestinha e garupa. E ali também tentava usar meu moreybooggie, a moda do momento pros da minha idade. Só tempos depois é que fui saber que a prancha se chamava, na verdade, bodyboard.


“Vamo andar de morey?”. “Eu não! Tampa de privada da zorra!”.

Os surfistas tiravam onda.

 

 

Fortaleza me trouxe essas lembranças e outras, e com Tom York e seu Radiohead ao fundo a nostalgia falou mais alto. Lagriminhas. O tempo passa, a gente muda. Ainda bem.

 

“No alarms, and no surprises...”

 
  Gorjetas (288)