Fortaleza, sei lá quantos graus. Muitos. Calor. Abri a janela e fiquei viajando na vista. Mar azul, várias embarcações ancoradas na marina. Esse clima, essa paisagem, esse cheiro, tudo isso me remeteu a minha infância. Uma época em que eu vivia na praia, e fazia parte dela. Uma época em que eu era muito íntima de mar, de areia e de seus detalhes. Eu sabia como tirar betume do pé, como curar queimadura de água viva, sabia o que fazer se pisasse numa pinaúna. Lembrei de uma parte de minha vida em Porto Seguro, pele morena e cabelos aloirados de sol. A junção do rio com o mar, rio-mangue no qual me perdi de caiaque uma vez com meus primos, Taperapuã e Cabrália. Os remanescentes índios vendendo artesanatos com seus bonés da Coca Cola.
Lembrei da barraca de praia que meu pai teve no Farol de Itapuã em Salvador, e de ir com ele todos os fins de semana, passando religiosamente na feira bem cedo para comprar caranguejo, peixe e outras coisas que seriam preparadas e servidas ao longo do dia de trabalho. De empinar pipa com os moleques da área, geralmente eu a única menina, a terra vermelha e quente, pés descalços. O cheiro de maresia e todos os desavisados que se afogaram no mar bravio do Farol de Itapuã. Maré que puxa. Eu me entendia com o mar; todas as vezes que entrava nele instintivamente realizava um ritual particular, pedindo licença em silêncio, pedindo que não me levasse, mostrando respeito. É uma entidade, o mar.
Quando passava algum carnaval ou feriado no camping na praia do Flamengo catava todos os felinos abandonados na cantina e os punha dentro da barraca, coisa que minha mãe não gostava muito. O cheiro da feijoada sendo cozida naquele fogãozinho de duas bocas portátil. Ali aprendi a andar de bicicleta, uma Cecizinha azul metálica com cestinha e garupa. E ali também tentava usar meu moreybooggie, a moda do momento pros da minha idade. Só tempos depois é que fui saber que a prancha se chamava, na verdade, bodyboard.
“Vamo andar de morey?”. “Eu não! Tampa de privada da zorra!”.
Os surfistas tiravam onda.
Fortaleza me trouxe essas lembranças e outras, e com Tom York e seu Radiohead ao fundo a nostalgia falou mais alto. Lagriminhas. O tempo passa, a gente muda. Ainda bem.
“No alarms, and no surprises...” |