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Terça - 02/09/2008
Ela, a Pimentinha

Estive assistindo de novo um programa de 73 com Elis Regina, o Ensaio da TV Cultura. Virou DVD há algum tempo. É uma entrevista intercalada com músicas, ela e um trio. Baixo, piano, bateria e aquela voz. A Voz. Toda a estética e o conceito do programa são maravilhosos; a textura, a iluminação, o preto e branco, a câmera que capta o detalhe das mãos inquietas enquanto ela fala tão calmamente.


E é intenso. O que é dito, o que é cantado. O jeito de olhar. A coragem de ser sincero, de não precisar fazer política. Como quando ela fala que se identifica mais com Milton do que com Gil. Quando ela deixa transparecer a dor ao comentar sobre o afastamento entre ela e Edu Lobo. Uma mulher que parecia não se esconder, que não tinha medo de rir e muito menos de chorar. E o formato do programa privilegia essa verdade, é quase como uma sessão de psicanálise. Perguntas em off, com tempo para serem respondidas sem afobação, e sempre com uma música depois meio que para ilustrar o que foi dito.


Pensei nos tempos de hoje, e fiquei um pouco triste. Não vejo hoje em dia essa profundidade, a oportunidade de mostrar seu trabalho dessa forma nos meios de comunicação. É sempre tudo tão rápido, tão fast food, perguntas óbvias respondidas superficialmente porque parece que não há mais tempo para se desenvolver os assuntos, para se refletir sobre eles. Como artista, na maioria das entrevistas especialmente as televisivas, sinto aquela pressão e a impaciência alheia com as respostas mais longas, mais contemplativas. Como também parece não haver lugar para sentimentos mais complexos e dolorosos; tudo tem que parecer um sonho colorido e divertido; as pessoas não querem saber das dores alheias. Elas querem ser convencidas de que a vida, na televisão, é cor de rosa sempre. Venda rapidamente seu peixe, tente se mostrar alegre e animado, e vá embora. Não há tempo para o diálogo de fato. E assim o público vai tendo apenas pequenos fragmentos ilusórios, erroneamente acreditando que sabe alguma coisa sobre você.


Mas nesse programa, eu vi a Elis que eu amo. Dizendo coisas lindas, abrindo o coração, fumando um cigarro, e cantando com aquela voz que não existe igual. Com aquela interpretação que te arrebata. Chorei quando ela contou a história antes de cantar “Formosa”, e chorei mais ainda com “Atrás da Porta”, uma das músicas mais comoventes que já escutei na vida. Ri junto com ela no final de “Águas de Março”, quando ela faz uma brincadeira com o piano, o ritmo e as palavras. A música flui, cabe o acaso. Sonho. Percebendo que ela simplesmente abre a boca e aquele timbre surge magnífico e pleno, com interpretação, dinâmica e afinação incomparáveis, penso em mim, pequena aprendiz de projeto de cantora e penso que nunca houve e talvez nunca venha a haver outra Pimentinha como aquela.

 
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