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Sábado - 28/01/2012
Para o pessoal de Natal


Tocamos com o Agridoce em Natal, num teatro lindíssimo, e o show foi muito bom. Nós, a banda, saímos todos felizes do palco.
Mas desde a tarde desse mesmo dia alguns mal-entendidos foram se formando, e achei que valia a pena tocar no assunto em respeito ao público que foi nos assistir. Acho um saco ter que me explicar por falhas alheias, mas sei da responsabilidade que temos quando permitimos que pessoas falem em nosso nome.

Sobre a duração:
logo antes de ir passar o som fomos informados pela produção local que teríamos que cumprir 1:20h de show. Achei esquisito porque nunca combinei isso com meu escritório e consequentemente eles não poderiam ter estipulado um tempo de show sem falar com a gente. Imediatamente entrei em contato com meu empresário para que resolvesse a questão, já que o ponto principal era: daríamos um jeito de fazer 1:20h de show sem problemas se tivéssemos nos programado com antecedência. Acontece que nosso show tinha sido montado, roteirizado e pensado para contar uma história do começo ao fim, e essa história dura por volta de 1h. Às vezes mais, às vezes menos, dependendo da velocidade natural de diálogo e das coisas que acontecem no palco. Estando ali, a poucas horas da apresentação, não teríamos tempo hábil de ensaiar nenhuma música extra. Mesmo assim, quando o show acabou tivemos uma breve argumentação nos bastidores e nos dispusemos a voltar ao palco, nem que fosse para repetir duas músicas que já havíamos tocado. Sinceramente, acho isso meio sem graça porque quebra a intenção de ser uma "peça musical", mas se deixaria as pessoas felizes, por mim tudo bem. Mas a essa altura, fomos informados que o teatro já estava praticamente vazio. Meu papel no dia seguinte foi apurar quem tinha sido o responsável por determinar aleatoriamente esse tempo de show; checamos no contrato, nos emails com a produção local. Em momento algum das negociações nos comprometemos com 1:20h de show, mas eles divulgaram dessa forma. E, como já disse, se soubéssemos antes teríamos dado um jeito apenas por respeito ao público, mesmo sabendo que a falha não era nossa. Por termos passado por isso em Natal, já ficamos atentos ao show seguinte (Sesc) pra não ter problemas e no pouco tempo que tivemos entre um e outro conseguimos ajeitar "Alvorada" para incluí-la no set.

Com o tempo e a estrada, a tendência é que o repertório cresça naturalmente, e tempo de show pra mim é diretamente proporcional a um conteúdo justificável. Entre o "curto e intenso" e o "longo e prolixo", eu fico com a primeira opção. Existe também o caminho do meio, a medida certa, e é nela que queremos chegar.


Sobre o camarim:
antes de mais nada, soube pelos fãs que "a produção veio dizer que ela não vai atender ninguém porque está cansada". Que fique registrado que isso NUNCA saiu da minha boca, e que ninguém da minha produção disse isso. Eu sei porque chequei com um por um.  O que aconteceu é que ficamos no camarim recebendo pessoas de promoção de rádio, ou que trabalharam, convidados da produção, como sempre. Enquanto estávamos ocupados com esses compromissos, o teatro foi esvaziado pelos funcionários como é de praxe e da política de teatros em geral. Estava um pouco confuso para conseguirmos chamar mais pessoas, era longe, não se sabia por qual entrada, nosso produtor estava ocupado com desmontagem de palco e equipamentos, essas coisas. Eu estava lá dentro sem saber o que acontecia lá fora (nem sabia da galera de Recife, por exemplo). Quando acabou essa parte já era hora de liberarmos o local, tivemos que ir embora. E é assim: às vezes dá pra receber as pessoas, às vezes não dá (por uma série de motivos). E nesse caso, infelizmente não deu. Trabalhamos para que sempre seja possível, mas nem sempre funciona do jeito que a gente gostaria. Isso também é algo que tentamos resolver e aprender a cada vez que acontece.

De qualquer forma, aproveito para entrar numa discussão que considero necessária. Percebo uma certa inversão de valores por parte de alguns no que diz respeito à essa coisa do camarim. Receber as pessoas depois do show, saber o que acharam, o que sentiram, é um ritual muito bacana pra gente. Mas é errado ir à um show contando com isso. Se vai à um espetáculo pela música, pela experiência sonora e visual.  O nosso relacionamento com as pessoas que gostam do nosso trabalho é algo que prezo muito, e justamente por prezar e acreditar que esse encontro deve ser o mais agradável e menos burocrático possível é que trato sempre de desmistificar essa obrigatoriedade. É bom, sim, estar perto das pessoas que a gente admira. Mas por exemplo eu, enquanto público, compro discos e vou em shows de bandas que gosto porque eu quero. Porque eu decidi comprar e ir. E ninguém me obrigou. E jamais passaria pela minha cabeça que essas bandas têm qualquer tipo de dívida comigo. Eles nunca me prometeram nada além da música. E eu me beneficio de sua arte, de suas canções, dos seus pensamentos. Essa é a troca. O que acontece além disso é um bônus, um acaso da vida, um improviso no roteiro.

Sempre fazemos o possível e nos esforçamos para que todos saiam felizes dessa experiência compartilhada. Mas as expectativas alheias, quando calcadas em elementos superficiais e com esse caráter patronal e impositivo não podem resultar em outra coisa que não seja frustração. Aqui, prezamos pela arte e pelos encontros verdadeiros. Pelas pessoas que têm o que dizer. Pelas pessoas que estão ali pela música.

Ficamos muito chateados que isso tenha acontecido e vamos sempre estar atentos para que não aconteça de novo. Gostamos muito de Natal, e tocar no Norte e Nordeste é sempre uma oportunidade de ouro.
 
  Gorjetas (80)